MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 5 de 7) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 5 de 7)

Como deveria ela olhar para o homem — Matador de Goblins, — enquanto se sentava atônita, esquecendo até a dor em seu ombro? Ele caminhou para mais perto até que pairasse sobre ela, assustando a Sacerdotisa e a fazendo tremer.

Mesmo agora, tão próximo e com a tocha o iluminando, sua viseira escondia seu rosto e ela não podia ver os olhos dele. Era como se a armadura estivesse cheia com a mesma escuridão da caverna.

— Você acabou de se registrar? — O Matador de Goblins perguntou calmamente, notando a insígnia pendurada em seu pescoço. Ele também tinha uma. Ele balançou suavemente a luz da tocha, que ele tinha colocado no chão. A cor refletida vagamente naquela pequena reminiscência de luz, era um inconstestavel prata.

A Sacerdotisa soltou um pequeno “oh…”. Ela sabia o que essa cor significava. Era a terceira maior posição no ranque do sistema de dez níveis da Guilda.

Apenas algumas pessoas na história tinham alcançado o ranque Platina, e os de ranque Ouro normalmente trabalhavam para o governo nacional, mas depois deles vinham os Pratas, indicando alguns dos mais hábeis aventureiros não afiliados que exerciam seus ofícios independente.

— Você é… ranque Prata. — Ele era um veterano experiente que dificilmente poderia estar mais distante da Sacerdotisa ranque Porcelana.

“Eu tenho certeza que se vocês esperarem um tempo, outros aventureiros irão aparecer…”

Poderia ter sido esse o aventureiro sobre quem a Garota da Guilda tinha falado?

— Então você consegue falar.

— Hã?

— Você tem sorte.

As mãos do Matador de Goblins se moveram tão facilmente, que ela não teve tempo de reagir.

— O qu…? Ahh!

A ponta da flecha rasgou a carne dela quando ele a puxou, a súbita onda de dor deixou ela sem fôlego. Sangue fluiu da ferida enquanto os olhos dela se enchiam de lágrimas.

Com o mesmo jeito casual, o Matador de Goblins alcançou uma bolsa em seu cinto e pegou um frasco pequeno.

— Beba isso.

Através do vidro claro, ela viu um líquido verde que emitia uma suave fosforescência, uma poção de cura.

Justo o que a Sacerdotisa e seu grupo tinham precisado, mas não tinham tido nem dinheiro nem tempo de comprar.

Ela poderia ter simplesmente pegado ele mas, em vez disso, olhou para frente e para trás, entre o frasco e a Maga ferida.

— Se-senhor! — Para sua surpresa, quando ela conseguiu fazer sua voz funcionar mais uma vez, as palavras brotaram dela. — Nã-não podemos dar a ela? Meu milagre não conseguiu…

— Onde ela está ferida? O que aconteceu?

— Fo-foi uma adaga… em seu estômago…

— Uma adaga…

O Matador de Goblins sentiu que o abdômen da Maga, de certo, estava bem. Quando cutucou ele com um dedo, ela tossiu mais sangue. Ao longo do seu rápido exame, ele nem sequer olhou para a Sacerdotisa, que abraçava de forma protetora a Maga. Então ele disse sem rodeios: — Desista.

Chocada, a Sacerdotisa ficou pálida e engoliu profundamente. Ela abraçou a Maga mais forte.

— Olhe. — O Matador de Goblins tirou a adaga ainda alojada na malha sob seu ombro. Um escuro líquido viscoso que ela não conseguiu identificar estava coberto sobre toda a lâmina.

— Veneno.

— Ve-veneno…?

— Eles o fazem a partir de uma mistura de suas próprias salivas e excrementos, juntamente com ervas que eles encontram na natureza.

“Você tem sorte.”

A Sacerdotisa engoliu em seco outra vez quando o significado completo das palavras do Matador de Goblins vieram a tona.

Foi sorte a ponta da flecha não ter sido mergulhada em veneno, senão ela não estaria aqui. Foi sorte o goblin com a adaga não ter a atacado primeiro…

— Quando esse veneno entra no seu organismo, primeiro você tem problemas respiratório. Sua língua começa a espasmar, depois todo seu corpo. Logo, se desenvolve uma febre, perde a consciência e depois morre.

Ele limpou a lâmina lascada com a tanga do goblin e a escondeu no cinto, então murmurou dentro de seu elmo: — Eles são criaturas tão traiçoeiras.

— Se-se ela foi envenenada, só precisamos a curar, certo…?

— Se você quer dizer um antídoto, então eu tenho um, mas o veneno tem estado nela por muito tempo. É tarde demais.

— Oh…!

Nesse momento, os olhos ondulados da Maga se focalizaram muito brevemente. Ela gorgolejou com o sangue em sua garganta, e com os lábios tremendo, formou palavras sem som, sem voz. — … e… ate…

— Entendido.

Não muito tempo depois que disse isso, o Matador de Goblins cortou a garganta da Maga.

A Maga espasmou, deu um gemido baixo, então tossiu um bocado de sangue espumento e morreu.

Inspecionando a lâmina, o Matador de Goblins estalou a língua quando viu que tinha sido embotada pela gordura.

— Não fique triste, — ele disse.

— Como você pode dizer isso?! — A Sacerdotisa exclamou. — Talvez… talvez nós ainda pudéssemos ter… ajudado ela… — Ela apertou o corpo da Maga, que estava flácido e sem vida.

Mas…

Ela não conseguia achar o resto das palavras. Tinha a Maga realmente estado além da salvação? E se assim fosse, a matar seria uma gentileza? A Sacerdotisa não sabia.

Ela só sabia que ainda não tinha conseguido o milagre de cura, o qual neutralizava venenos. Havia um antídoto aqui, mas pertencia ao homem à frente dela. Não era dela para o dar. A Sacerdotisa se sentou no chão tremendo, incapaz de beber a poção ou mesmo de se levantar.

— Ouça, — o Matador de Goblins disse bruscamente. — Esses monstros não são brilhantes, mas também não são tolos. Eles foram pelo menos inteligentes o suficiente para eliminar seu conjurador primeiro. — Ele fez uma pausa, depois apontou. — Olhe ali.

Pendurados na parede, estavam um rato morto e uma pena de corvo. — Esses são totens dos goblins. Há um xamã aqui.

— Um xamã…?

— Você não sabe nada sobre xamãs?

A Sacerdotisa balançou a cabeça com dificuldade.

— Eles são conjuradores. Melhores do que sua amiga aqui.

Goblins conjuradores? A Sacerdotisa nunca tinha ouvido em tal coisa. Se tivesse, talvez seu grupo ainda estaria vivo…

Não.

Ela se resignou ao pensamento em seu coração. Mesmo que tivessem sabido, eles não teriam considerado esses xamãs algo para se temer. Goblins eram presas fracas, uma forma de os aventureiros novos adquirissem experiência.

Ou assim ela tinha acreditado até mais cedo naquele dia.

— Você viu algum grandão? — O Matador de Goblins analisou seu rosto novamente, enquanto ele se ajoelhava no chão.

Dessa vez — mesmo que mal, — ela podia ver seus olhos. Uma luz fria, quase mecânica, brilhava dentro desse elmo sujo.

A Sacerdotisa se agitou e se enrijeceu, perturbada pelo olhar implacável que a olhava de dentro do capacete. Ela de repente se lembrou da umidade quente em suas pernas.

Ela tinha sido atacada por goblins, assistiu seus amigos morrerem em instantes, viu sua equipe praticamente aniquilada e ela tinha sobrevivido sozinha.

Parecia irreal.

A dor latejante em seu ombro e a humilhação de se molhar, por outro lado, era inegável.

— Si-sim, havia um… eu acho… Apenas fugir, me tomou toda concentração que tinha… — Ela balançou a cabeça fracamente, tentando trazer a memória ofuscada.

— Esse era um hobgoblin. Talvez eles tenham pego um viajante como guarda.

— Um hob… Você quer dizer uma fada do lar?

— Parente distante.

O Matador de Goblins verificou suas armas e armadura, depois se levantou. — Eu seguirei o túnel deles. Tenho que lidar com eles aqui.

A Sacerdotisa levantou os olhos para ele. Ele já estava olhando para longe dela, encarando a escuridão à frente.

— Você consegue voltar sozinha ou vai esperar aqui?

Ela se agarrou a seu cajado de monge com as mãos exaustas, forçando suas pernas trêmulas para se levantar com lágrimas em seus olhos.

— Eu… vou… com você!

Era a sua única opção. Ela não suportaria nem voltar sozinha ou ser deixada ali sozinha.

O Matador de Goblins assentiu. — Então beba a poção.

Quando a Sacerdotisa tomou o medicamento amargo, o calor em seu ombro começou a desaparecer. A poção continha pelo menos dez ervas diferentes e não faria nada espetacular, mas ia parar a sua dor.

A Sacerdotisa deu um suspiro aliviada. Foi a primeira vez que ela tinha bebido uma poção.

O Matador de Goblins a observou uma última vez. — Muio bem, — ele disse, então ele partiu para a escuridão. Não havia qualquer hesitação em seus passos; ele nunca parou para olhar para ela. Ela correu para conseguir o acompanhar, com medo de ficar para trás.

Enquanto se dirigiam, ela lançou um olhar para trás. De volta a imóvel e silenciosa Maga.

Não havia nada que a Sacerdotisa pudesse dizer. Mordendo os lábios, ela curvou bem a cabeça e jurou voltar pela sua amiga.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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