MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 4 de 7) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 4 de 7)

Os passos dos goblins, se aproximando cada vez mais a cada eco, era o que mais a aterrorizava.

Parar agora seria tolice e ela não podia voltar pelo caminho que veio. Mesmo se pudesse, ela não iria ver nada mais do que tristeza.

Agora ela compreendeu a expressão ambígua da recepcionista da Guilda.

Sim, os goblins eram fracos. Seu grupo de aventureiros ansiosos — seu Guerreiro, sua Maga, sua Lutadora, — sabiam disso. Goblins eram tão altos, inteligentes e fortes quanto uma criança humana. Tal como eles tinham ouvido.

Mas o que acontecia quando as crianças pegavam armas, planejavam o mal, procuravam matar e viajavam em fortes grupos de dez?

Eles não tinham sequer considerado isso.

O grupo deles era fraco, inexperiente, não familiarizado com o combate, não tinha dinheiro ou sorte, e o mais importante, eles estavam esmagadoramente em menor número.

Era um erro comum, do tipo que se ouve o tempo todo.

— Ah!

As mangas compridas da Sacerdotisa finalmente tinham se enroscado em suas pernas e ela caiu indelicadamente no chão. Seu rosto e suas mãos tinham ganhado generosos arranhões, mas muito pior, ela não conseguiu manter a Maga em seus braços.

A Sacerdotisa se apressou para puxá-la de volta, uma garota que nem sequer tinha conhecido alguns dias atrás.

— E-eu sinto muito! Você está bem?

— Ur, hrrg…

Em vez de uma resposta, saliva salpicada com sangue emergiu da boca da Maga.

A Sacerdotisa tinha estado tão concentrada em correr que não tinha reparado que a Maga começou a tremer violentamente. Parecia que o corpo inteiro da Maga estava em chamas, e suor encharcava sua capa grossa.

— Po-por que…?

A Sacerdotisa destinou a pergunta diretamente para si. Sua oração não alcançou à deusa?

Afligida por essa preocupação, a Sacerdotisa usou um precioso tempo para tirar as roupas externas da Maga e verificar a ferida.

Mas o milagre tinha funcionado como previsto. O abdômen da Maga estava encharcado de sangue, mas estável. A ferida tinha desaparecido.

— A-ahn, ne-nessas… nessas horas, o que devo…?

Sua mente estava em branco.

Ela sabia um pouco de primeiros socorros. E ainda podia usar seus milagres.

Mas outro milagre de cura iria realmente ajudar? Havia mais alguma coisa que deveria tentar? Aliás, em seu estado miserável, ela conseguiria se concentrar o suficiente para fazer uma petição efetiva à deusa?

— Ahh? Aaahh!

O momento que ela tinha desperdiçado tinha sido o que contava. A Sacerdotisa quase desmaiou quando uma dor súbita a afligiu.

Ela ouviu um assobio — alguma coisa em alta velocidade? —, e depois seu ombro esquerdo se encheu com uma dor ardente. Ela olhou para ele e encontrou uma flecha enfiada no fundo de sua carne. Sangue escorria e manchava suas vestes.

A Sacerdotisa não estava usando nenhuma armadura. A flecha tinha rasgado selvagemente suas roupas e adentrado sob seu adorável ombro. Os Preceitos proibiam excesso de armadura, e ela não tinha dinheiro de qualquer modo. Agora cada pequeno movimento parecia amplificado cem vezes, e provocavam um ardor e dor como se ela tivesse sido perfurada com ferro queimando.

— Aaaaghh…!

Tudo o que ela podia fazer era cerrar os dentes, manter as lágrimas em seus olhos e olhar atenta para os goblins.

Dois monstros armados se aproximavam. Sorrisos perversos dividiam seus rostos; fios de baba pendurados nos cantos de seus lábios.

Seria melhor se pudesse morder sua própria língua e morrer. Mas sua deusa não permitia o suicídio, e ela parecia destinada a ter a mesma sorte que seus amigos.

Será que eles a rasgariam? Ou a violariam? Ou os dois?

— Ohh… não…

Ela tremia; seus dentes começaram a ranger impotentes.

A Sacerdotisa puxou a Maga para perto, usando seu próprio corpo para proteger sua companheira, mas, de repente ela sentiu algo quente e molhado em suas pernas. Os goblins pareciam ter sentido o cheiro, e seus rostos se retorceram de nojo.

A Sacerdotisa desesperadamente repetiu o nome da Mãe Terra, tentando evitar ver o que estava diante dela.

Não havia esperança.

Mas então…

— O qu…?

Nas profundezas da escuridão, apareceu uma luz.

Parecia como uma estrela da noite brilhando orgulhosamente contra o crepúsculo invasor.

Um único ponto de luz, sempre-tão-pequeno mas vividamente brilhante, e ele se aproximava progressivamente.

A luz era acompanhada pelos passos calmos e determinados de alguém que não tinha quaisquer dúvidas sobre onde estava indo.

Os goblins olharam para trás confusos. Tinham seus amigos deixados uma presa escapar?

E então, logo atrás dos goblins, ela o viu.

Ele não era muito impressionante.

Ele usava uma armadura de couro suja e um capacete de aço imundo. No seu braço esquerdo, um escudo estava preso e na sua mão estava uma tocha. Sua mão direita segurava uma espada que parecia ter um comprimento estranho. A Sacerdotisa não pôde deixar de pensar que seu próprio grupo terrivelmente despreparado parecia mais bem preparado do que ele.

Não, ela queria gritar, se afaste! Mas o terror paralisou sua língua, e ela não conseguia gritar. Ela estava profundamente humilhada por lhe faltar a coragem da Lutadora.

Os dois goblins se viraram para o recém-chegado, demonstrando nenhuma relutância em mostrar suas costas para a impotente Sacerdotisa. Eles lidariam com ela mais tarde. Um deles colocou uma flecha na corda do arco, puxou e disparou.

Era uma flecha rústica com a ponta de pedra. E o goblin era francamente um arqueiro terrível.

Mas a escuridão é a aliada dos goblins.

Ninguém poderia esquivar de uma flecha que voava repentinamente da escuridão…

— Hmph.

Mesmo enquanto ele dava um bufo escarnecedor, o homem cortou o projétil no ar com um golpe rápido de sua espada.

Incapaz de compreender a implicação do que tinha acontecido, o segundo goblin avançou na direção do homem. A criatura empunhava a única arma que carregava, outra das adagas enferrujadas dos monstros. Sua lâmina encontrou uma fenda no ombro do homem e a enfiou nela.

— Nãooo!

A Sacerdotisa deu um grito, mas não havia outro som. O golpe do goblin fez apenas um som baixo de metal raspando metal.

A lâmina tinha sido parada pela malha sob a armadura de couro do homem.

O goblin desnorteado forçou mais ainda a sua lâmina. O recém-chegado aproveitou isso ao máximo.

— GAYOU?! — O goblin gritou quando o escudo do homem bateu nele com um baque e o prensou contra a pedra.

— Você primeiro… —, o homem disse friamente.

Seu significado ficou claro quando ele pegou sua tocha e a levou calmamente para o rosto do goblin.

Um grito insuportável e abafado. O cheiro de carne queimada preencheu a caverna.

O goblin lutou, meio enlouquecido com a dor, mas preso pelo escudo, ele nem sequer conseguia agarrar seu próprio rosto.

Finalmente, ele parou de se mover, seus membros caíram inanimadamente no chão. O homem se certificou que o monstro estava imóvel, então lentamente puxou seu escudo.

Houve um grande humph quando o goblin tombou ao chão, com o rosto queimado.

O homem deu ao monstro um pontapé casual, rolando seu corpo, e então entrou mais fundo na caverna.

— Próximo.

Foi um espetáculo bizarro. A Sacerdotisa já não era mais a única que estava aterrorizada.

O goblin com o arco deu um passo inconscientemente para trás, compreensivelmente parecendo disposto a abandonar seu companheiro e fugir. Coragem, afinal, é a última palavra que alguém associaria a um goblin.

Mas agora a Sacerdotisa estava atrás dele.

Ela exalou abruptamente. E dessa vez, ela conseguiu se mover. Ela pode ter tido uma flecha no ombro, um goblin à frente dela, suas pernas esgotadas e sua companheira inconsciente a pressionando para baixo, mas ela se moveu.

Com o seu braço livre, a Sacerdotisa levou o seu cajado de monge ao goblin.

Foi um gesto sem sentido. Ela não tinha realmente a intenção de o fazer, agiu por instinto.

Mas foi mais que suficiente para fazer o goblin parar por um instante.

Naquele instante, a criatura pensou mais freneticamente sobre o que fazer do que ele alguma vez o fez em toda sua vida. Mas antes que ele pudesse tomar uma decisão, sua resposta incompleta se chocou com a parede de pedra, impulsionado pela espada que o guerreiro armadurado tinha lançado através dele.

Metade da cabeça do goblin permaneceu na parede. A outra metade com o resto dele, desabou no chão.

— Já são dois.

A luta brutal terminou, ele pisou com sua bota no cadáver do goblin morto.

Ele estava manchado com o sangue carmesim do monstro, do seu capacete de aço sujo e armadura de couro, até a malha feita de anéis metálicos encadeados que cobriam todo o seu corpo.

Um pequeno escudo maltratado estava fixado em seu braço esquerdo, e em sua mão, ele segurava uma tocha queimando intensamente.

Com seu calcanhar contra o cadáver da criatura, ele abaixou sua mão livre e retirou casualmente a espada de seu crânio. Era uma lâmina de aparência barata, com um comprimento mal concebido, e agora estava encharcado de cérebro de goblin.

Deitada no chão com uma flecha no ombro, o corpo magro de uma menina tremia de medo. Seu doce, clássico rosto amável, emoldurado pelos longos e quase translúcidos cabelos cor de ouro, estava distorcido em uma junção de lagrimas e suor.

Seus braços magros, seus pés; todo seu corpo deslumbrante estava vestido com as vestimentas de uma sacerdotisa. O som do seu cajado de monge que ela agarrou ressoou, seus anéis pendurados batiam uns contra os outros com suas mãos tremendo.

Quem era esse homem perante ela?

Tão estranha era sua aparência, a aura que o ocultava, que ela imaginava que ele pudesse ser mesmo um goblin, ou talvez algo muito pior, algo que ela não tinha conhecimento ainda.

— Que-quem é você…? —, ela perguntou, suprimindo seu medo e a dor.

Após uma pausa, o homem respondeu: — Matador de Goblins.

Um assassino. Não de dragões ou vampiros, mas o mais baixo dos monstros: goblins.

Normalmente, o nome poderia parecer comicamente simples. Mas para a Sacerdotisa, naquele momento, era tudo menos engraçado.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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