MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 2 de 7) – 3Lobos

MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 2 de 7)

— Ei, quer ir se aventurar com a gente?

— Hãããã?

O convite inesperado veio de um jovem com uma espada no quadril e um peitoral de aço brilhante amarrado ao seu peito. Como a Sacerdotisa, ele tinha uma insígnia de porcelana nova em volta do pescoço.

As insígnias vinham em dez variedades indicando o ranque do portador, da platina no topo até a porcelana dos aventureiros noviços na parte de baixo.

— Você é uma sacerdotisa, certo?

— Hum, sim. Sim… sou.

— Perfeito! Exatamente o que meu grupo precisa.

Logo atrás do jovem espadachim, ela podia ver agora outras duas garotas. Uma usava um uniforme de artista marcial, com o cabelo amarrado em onda e um olhar muito confiante no rosto, enquanto a outra tinha óculos e um cajado, com um olhar frio.

Uma lutadora e uma maga, ela presumiu.

O Guerreiro seguiu o olhar da Sacerdotisa e reiterou: — Meu grupo, — com um aceno. — Estamos em uma missão urgente, mas eu gostaria de pelo menos mais uma pessoa. O que me diz?

— O que você quer dizer com “urgente”…?

— Temos de nos livrar de alguns goblins!

Goblins. Os goblins viviam nas cavernas perto da cidade desde tempos imemoriais, ou assim diziam. Eles eram os monstros mais fracos, e a superioridade numérica era a única coisa agindo a seu favor.

Eles eram quase tão altos quanto uma criança, com força e inteligência equivalentes. Tudo o que os distinguia de um pequeno ser humano era a sua capacidade de enxergar no escuro. Eles faziam todas as coisas monstruosas usuais; ameaçavam pessoas, aterrorizavam aldeias e raptavam donzelas.

Eles eram fracos, sim, mas era melhor deixar os goblins deitados dormindo.

Os aldeões tinham ignorado os goblins a princípio… mas depois as coisas mudaram. Primeiro, as colheitas que eles tinham armazenado para o inverno desapareceram, até à última semente. Os habitantes da cidade enfurecidos, repararam suas cercas e depois colocaram patrulhas lá fora com tochas na mão.

Os goblins passaram por eles facilmente.

Eles roubaram a ovelha, junto com a filha do pastor e algumas mulheres que saíram para ver o que era todo aquele alvoroço.

Os aldeões estavam rapidamente ficando sem opções. Eles reuniram seus escassos recursos e foram à Guilda, a Guilda dos Aventureiros, onde os aventureiros se reuniam. Certamente, publicar uma missão traria alguém para ajudá-los.

Hum, e…

A Sacerdotisa estava de pé com um dedo nos lábios, perdida em pensamentos enquanto o Guerreiro dava sua explicação.

Uma boa e velha caça a goblins para sua primeira aventura. Muitas pessoas tinham feito isso. E ela nem precisava encontrar a aventura, a aventura a tinha encontrado. Tinha de ser o destino.

Ela nunca tinha imaginado que poderia fazer tudo sozinha, de qualquer forma. Aventurar-se sozinha como uma clériga era suicídio. Ela precisaria de um grupo eventualmente. Ela estava muito preocupada em se juntar com completos estranhos, mas alguém que tinha feito um convite a ela não era um completo estranho, não é? Sim, nenhum garoto alguma vez a convidou para qualquer coisa antes, mas havia mais duas garotas ali.

Então tudo ficaria bem… certo?

— Tudo bem então. Se você me aceitar.

Ela respondeu com um aceno firme com a cabeça, e o Guerreiro deu um grito.

— Sério?! Demais! Agora, quem está pronto para ir em uma aventura?!

— O quê, só vocês quatro? — A Garota da Guilda interrompeu. — Eu tenho certeza que se vocês esperarem um tempo, outros aventureiros irão aparecer…

O Guerreiro não pareceu se incomodar pelo fato da própria Garota da Guilda ter sentido a necessidade de comentar isso. — São só alguns goblins. Tenho a certeza de que quatro pessoas são suficientes. — Ele se virou para seus companheiros. — Certo? — Ele parecia tão seguro, com um sorriso alegre em seu rosto. Então ele se virou para a Garota da Guilda. — As donzelas capturadas estão esperando para serem resgatadas. Não há tempo a perder!

Vendo isso, o rosto da jovem trabalhadora voltou de novo naquela expressão ilegível, enquanto um profundo e estranho desconforto se formou no fundo do coração da Sacerdotisa.

A tocha cintilava fracamente na brisa pútrida.

O sol do meio-dia foi encoberto pela escuridão que preenchia a caverna. Na entrada era difícil de enxergar, e mais para dentro era quase preto.

As sombras projetadas das rochas brutas dançavam ao mesmo tempo que o balançar da chama, deslizando pelas paredes como monstros em um afresco.

Três garotas e um garoto, cobertos com quaisquer peças de armadura ruins que poderiam encontrar. Em uma formação irregular, eles se dirigiam nervosamente através da escuridão densa. O Guerreiro ia na frente, segurando a tocha. A Lutadora deles estava atrás dele. A Maga mantinha a retaguarda. E prensada entre a artista marcial e a maga, a terceira na fila, era a garota com vestes de sacerdotisa, segurando seu cajado de monge ansiosamente enquanto caminhava.

Foi a Maga que tinha sugerido que se deslocassem em uma fila. Desde que não houvesse caminhos ramificados, eles não teriam que se preocupar com um ataque vindo de trás. E se os aventureiros à frente se mantivessem firmes, os detrás estariam seguros, capazes de prestar apoio da parte de trás da fileira. Esse era o plano, de qualquer forma.

— É-é realmente uma boa ideia? Ir direto até eles? — O murmúrio da Sacerdotisa quase não soou confiante. No mínimo, ela parecia consideravelmente mais preocupada do que estava antes deles terem entrado na caverna. — Quero dizer, nós não sabemos nada sobre esses goblins.

— Céus, quanta preocupação. Acho que é exatamente o que se poderia esperar de uma sacerdotisa. — A voz do Guerreiro, um bocado ousado, ecoou no vazio da caverna até desaparecer. — Até as crianças não têm medo de goblins. Raios, eu ajudei a expulsar alguns de minha aldeia uma vez.

— Oh, pare, — a Lutadora disse. — Matar alguns goblins não tem nada de especial. Você está se envergonhando. Além do mais, — ela acrescentou com uma voz desagradável, porém baixa, — você nem os matou.

— Eu não disse isso, — o Guerreiro respondeu fazendo um beicinho.

A Lutadora deu um suspiro irritada, mas de alguma forma afetuoso. — Os goblins podem picar esse perdedor como carne para o almoço, mas eu vou chutar a bunda deles. Então não se preocupe.

— Perdedor? Isso dói! — A luz da tocha brilhava no rosto abatido do Guerreiro, mas no momento seguinte ele estava erguendo alegremente sua espada. — Ei, nós quatro poderíamos lidar com um dragão se tivesse um aqui!

— Gente, não estamos ansiosos demais? — A Maga murmurou, fazendo a Lutadora rir. As vozes do grupo ecoaram, se misturando na caverna.

A Sacerdotisa se manteve em silêncio, como se falar com medo atrairia algo da escuridão.

— Mas espero caçar um dragão algum dia, — a Maga disse. — Você não? — O sorriso mudo da Sacerdotisa parecia concordar com a Maga e com o Guerreiro assentindo. Mas a escuridão escondia uma expressão tão ambígua quanto a da Garota da Guilda.

Será mesmo?, ela perguntou a si mesma, mas não se atreveu a exprimir as suas dúvidas, mesmo que o desconforto formasse uma tempestade dentro dela.

“Nós quatro poderíamos…”, ele tinha dito, mas como ele poderia confiar completamente em pessoas que ele conhecia não fazia nem dois dias? A Sacerdotisa sabia que eles não eram pessoas más, mas…

— Vocês têm certeza de que não devíamos ter nos preparado um pouco mais? —, ela pressionou. — Nós nem sequer temos po-po-poções.

— Também não temos dinheiro. Ou tempo para comprar isso, — o Guerreiro respondeu com bravata, sem prestar atenção ao tremor na voz da Sacerdotisa. — Estou preocupado com aquelas garotas sequestradas… E de qualquer maneira, se um de nós for ferido você pode simplesmente curar, não é?

— É verdade que tenho os milagres de cura e de luz… mas…

— Então ficaremos bem!

Ninguém podia ter ouvido a Sacerdotisa dizer com uma voz ininteligível: — Mas eu só posso usar três vezes…

— É ótimo que você esteja tão confiante e tudo mais, — a Lutadora disse, — mas você tem certeza de que não vamos nos perder?

— É um túnel longo. Como poderíamos nos perder?

— Não sei quanto a isso. Você se entusiasma tanto. Eu não posso tirar meus olhos de você nem por dois segundos!

— Olha quem está falando…

A Lutadora e o Guerreiro, que pertenciam à mesma cidade natal, entraram em uma das discussões que eles tinham partilhado desde o início da viagem.

A Sacerdotisa, seguindo atrás deles, agarrou-se ao seu cajado com as duas mãos e repetiu o nome da Mãe Terra em um murmuro.

— Por favor, guie-nos em segurança através disso…

Ela rezou tão baixinho que suas palavras nem mesmo ecoaram, só adentraram na escuridão e desapareceram.

Talvez a Mãe Terra ouviu sua oração, ou talvez a Sacerdotisa tinha simplesmente sido cuidadosa quando disse tais palavras.

— Vamos lá, se apresse. Mantenha a fila. — A Maga a repreendeu.

— Ah, certo, desculpe…

A Sacerdotisa foi a primeira a reparar.

Ela estava passando na frente da Maga, que a tinha ultrapassado enquanto ela estava rezando, quando ela ouviu. Um som de arrasto, como uma pedra rolando.

A Sacerdotisa deu um arranque.

— De novo? O que foi dessa vez? — A Maga perguntou com aborrecimento quando ela mais uma vez alcançou a Sacerdotisa, que estava parada no lugar tremendo.

A Maga tinha se formado entre os melhores de sua turma da academia na Capital onde ela tinha aprendido suas magias, e ela não gostava muito de sacerdotisas. A garotinha espantadiça no grupo deles tinha feito uma primeira impressão terrível, e desde que entraram na caverna, a opinião da Maga por ela só tinha piorado.

— A-agora mesmo, parecia que eu ouvi algo ru-ruindo…

— Onde? Na nossa frente?

— Nã-não, atrás de nós…

Ah, por favor.

Isso não era cautela, era covardia. Essa sacerdotisa não tinha coragem de tomar as rédeas de sua vida como um aventureiro precisava. O Guerreiro e a Lutadora foram ficando mais distantes à frente, enquanto ela ficou lá. Ocupados com suas brincadeiras, os dois nem olharam para trás.

Uma luz cada vez mais distante atrás deles e apenas a escuridão se aprofundando adiante, a Bruxa deu um suspiro.

— Olhe. Temos andado direto como uma flecha desde que entramos na caverna, certo? O que pode possivelmente estar atrá… — E então, seu tom frio e exasperado…

— Goblins!!

…tornou-se um grito.

Não foi um desmoronamento que a Sacerdotisa tinha ouvido, mas de escavação.

Criaturas medonhas saltaram de um túnel e correram em direção a Maga, que teve o azar de ser a última da fila.

Cada mão segurava uma arma rústica, cada rosto tinha um olhar repulsivo. Esses eram os habitantes de cavernas do tamanho de crianças.

Goblins.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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