LAB – Capítulo 96 – 3Lobos

LAB – Capítulo 96

Ramos

Ramos percebeu que haviam pessoas ocupadas em todos os lugares. Ela nunca pensou que iria voltar para o mundo secular. Depois de atravessar a fronteira de Vila Fronteiriça, diversas construções empoeiradas feitas de tijolos apareciam uma após a outra. Embora tenha se passado apenas meio ano desde a fuga de Ramos para a Cordilheira Intransponível, ela ainda sentiu que tinha acabado de entrar em outro mundo.

Os Meses dos Demônios chegaram ao fim, então, após o inverno, os habitantes das vilas e cidades teriam poucas roupas e comida e, por causa disso, eles estariam fracos e bastante abatidos. Bom, pelo menos era isso que Ramos se lembrava quando observou as favelas ao cruzar a fronteira da Cidade da Prata, ou mesmo quando ela estava em sua jornada para o Oeste. De qualquer forma, em todos os lugares que Ramos esteve, pessoas estavam morrendo de fome e frio. Ramos ainda se lembrava das pessoas vivas que andavam como se já estivessem mortas, com um olhar vazio e movimentos lentos e instáveis.

Mas aqui, a maioria das pessoas que Ramos encontrava estavam cheias de vitalidade, outras ainda estavam secando peixes na entrada de suas casas! Alguns estavam em cima de seus telhados para reparar telhas danificadas. Alguns jovens estavam caminhando com suas enxadas e martelos. Eles sorriam e conversavam uns com os outros enquanto caminhavam para o norte da vila. Para evitar que outras pessoas tentassem conversar com ela, Ramos baixava seu capuz até onde conseguia.

O castelo estava em uma área que chamava muito a atenção, pois foi colocado em cima de um monte, na parte sudoeste. Não havia plantas ao redor do monte, então, se ela quisesse entrar no castelo, seria bastante difícil. Esconder-se no tronco de uma árvore até poderia funcionar, mas fazer o tronco andar chamaria muito a atenção.

Para uma bruxa, ela realmente não era boa em se esconder. Então, depois de considerar cuidadosamente suas opções, Ramos pensou que, em vez de se esconder, ela iria andar abertamente pelo castelo.

Se Rouxinol não mentiu para ela, então, mesmo que ela entrasse pela entrada principal, ela não teria problemas. E no caso de Rouxinol ter mentido, ou seja, ter enganado a Associação Cooperativa das Bruxas, ela também estava bastante confiante que poderia fugir dos dois guardas que protegiam a entrada do castelo.

Claro, também havia o pior caso, que seria Rouxinol ter traído a todas e não havia nenhuma bruxa trabalhando para o Príncipe[1]. Se esse fosse o caso, ela provavelmente morreria. Como uma grande bruxa combatente, poucas pessoas conseguiriam escapar de Rouxinol, caso ela quisesse matar. Provavelmente, Rouxinol era mais forte do que Kara. Se elas lutassem, Ramos não saberia dizer quem venceria.

Ramos já se preparava para o pior caso. Se ela não pudesse voltar, Pergaminho assumiria o cargo de Mentora e guiaria suas últimas irmãs para futuro. Se qual for o destino, o lugar ou o fim de suas irmãs, ninguém saberia responder.

Ela estava caminhando lentamente pela encosta do monte, aproximando-se do portão do castelo. E logo percebeu os guardas, que puseram suas mãos sobre o punho de suas espadas, enquanto um deles gritava alto:

— Este é o Palácio do Príncipe, não é lugar para você, você deve voltar imediatamente! — Ele fez uma pausa e depois acrescentou — Se você tem alguma coisa importante que precisa reportar, pegue o caminho à esquerda e siga a rua até chegar na Prefeitura, lá as pessoas vão te receber.

Ramos respirou profundamente, então ela tirou o capuz. Sem surpresa alguma, ela viu o olhar abismado no rosto dos guardas. Quando Ramos percebeu que os guardas já tinham se recuperado do choque inicial, ela disse sem rodeios:

— Eu sou uma bruxa.

No momento em que disse isso, Ramos já esperava que os guardas sacassem suas espadas. No entanto, os dois guardas apenas entreolharam-se. Além disso, Ramos sabia que não havia nenhum homem comum que pudesse ocultar seu sentimento de desgosto quando escutasse que ela era uma bruxa. Contudo, seus rostos demonstravam apenas curiosidade. Um deles perguntou com interesse:

— Você é uma bruxa? Qual é a sua habilidade?

Ao ouvir essa resposta, o coração de Ramos começou a bater tão rápido que ela quase não conseguiu segurar sua euforia e excitação. Enquanto tentava manter a voz calma, ela disse:

— Eu quero ver Rouxinol. Ou também podem ser Anna ou Nana.

Na história de Rouxinol, as bruxas eram visitantes frequentes do castelo. O Príncipe não restringia a liberdade delas, apenas agindo como seu guardião, além de deixar elas irem e virem como quisessem. Entretanto, se a história de Rouxinol não fosse verdade, os guardas certamente não saberiam nada sobre esses nomes.

Um guarda se virou para o parceiro, aquele que antes falou em voz alta, dando um tapinha em seu ombro, dizendo:

— Cuide dela aqui enquanto eu informo Sua Alteza Real.

Ramos observou o guarda atravessar o portão, logo desaparecendo na direção do jardim.

Ela estava constantemente pensando nas probabilidades do que poderia acontecer enquanto ela esperava. No farfalhar das folhas, será que Rouxinol a cumprimentaria como uma irmã ou os guardas formariam um cerco, atacando Ramos pelas costas?

Ela estava em uma situação contraditória. Obviamente, ela queria acreditar em Rouxinol, mas quanto mais perto ela chegava da resposta, mais medo ela tinha de se decepcionar.

Talvez Rouxinol fosse um agente secreto? Os nomes de Anna e Nana não foram inventados por ela, não é? Ou …

Para ela, este momento de espera demorou mais do que uma vida inteira! Cada batida de seu coração era como se cem anos se passassem, como se o tempo que ela tinha que esperar até o seu destino ser decidido, não tivesse fim.

Acabou que ela não sabia quanto tempo esperou, se foi muito ou pouco, até ouvir a voz de Rouxinol. Como se estivesse em transe, ela não conseguia fazer nada, apenas se perguntando se tinha escutado tudo direitinho.

Uma figura familiar emergiu do portão, saltou e chegou ao lado de Ramos quase ao mesmo tempo que a voz dela. No momento seguinte, ela já estava envolvida em um abraço caloroso.

— Ramos! Seja bem-vinda!

— Este é o meu uniforme reserva, mas você pode usar ele por enquanto. — Rouxinol disse enquanto vasculhava seu armário — E aqui tem o casaco, os sapatos … bem, aqui também há uma camisola e uma toalha de banho.

— Por que você está com tanta pressa? — Wendy balançou a cabeça com um sorriso no rosto — Você só tem que esperar Sua Alteza acordar, então ela terá tudo isso.

Vendo o quão ocupada Rouxinol estava para ajudá-la, os olhos de Ramos ficaram quentes e molhados. Ela respirou fundo, tentando suprimir as lágrimas.

Desde o início Rouxinol nunca tinha mentido para elas, realmente existia um príncipe que tratava bem as bruxas.

— Você quer tomar um banho primeiro? — Rouxinol perguntou e colocou a toalha e o roupão diretamente ao lado de Ramos — Assim que Sua Alteza acordar da soneca, quando ele finalmente acordar, ele terá o prazer em recebê-la. Certo, mas me conte, você conseguiu encontrar a Montanha Sagrada? Como você e as outras irmãs tem passado?

Quando ouviu esta frase, a visão de Ramos ficou bruscamente turva. Incapaz de suportar mais, ela envolveu seus braços em volta de Rouxinol, liberando a longa dor suprimida dentro de seu coração.

Depois de ter chorado por um longo tempo, o peito de Rouxinol já estava molhado pelas lágrimas, mas, pelo menos, Ramos finalmente conseguiu se acalmar.

Então, Ramos começou a contar tudo o que aconteceu após o último encontro delas, detalhando todo o sofrimento que elas tiveram que suportar. Quando chegou ao ponto em que suas irmãs foram enterradas na natureza, ela sentiu como Rouxinol estava segurando sua mão e apertando com força.

Quando a história de Ramos chegou ao seu fim, o olhar de Wendy tornou-se muito pesado.

— Eu jamais pensei que seria Kara quem traria o fim à Associação Cooperativa das Bruxas … das quarenta e duas irmãs apenas sete … eu também não posso fugir da minha responsabilidade nisso tudo, afinal, eu não fiquei firme ao lado de Rouxinol …

— Não foi sua culpa. — Rouxinol disse com tristeza — Ninguém podia prever o futuro. O importante agora é decidir o que fazer em seguida. — Ela olhou para Ramos — Você disse que mais seis irmãs sobreviveram, não é? Onde elas estão agora?

— Elas estão na entrada do desfiladeiro à espera de uma mensagem minha. Nós já tomamos a decisão e se eu não voltasse, Pergaminho irá levá-las para longe daqui, talvez para o extremo sul, talvez elas até cruzem o mar …

— Então teremos que ir ao desfiladeiro e buscá-las. — Rouxinol disse excitada — Eu vou agora mesmo. Wendy ficará aqui e cuidará de você.

— Espere um pouco, o que você fará se elas não acreditarem em você? Ramos terá que ir junto, basta chamar Raio para acompanhar vocês. Agora, ela deve estar treinando seu voo para Forte Cancioneiro, mas pegue alguns cavalos com vocês, assim nossas irmãs podem cavalgar até aqui. — Wendy cuidadosamente insistiu.

— Mas, Sua Alteza … ainda não está dormindo? — Ramos ficou atordoada — Vocês não precisam ter a aprovação dele primeiro?

— Pode ter certeza — Rouxinol disse com tranquilidade —, que se Sua Alteza soubesse disso agora, eu tenho medo de que ele ficaria doente por ter que esperar um pouco mais!


 

 

[1] Estaremos deixando todos os títulos de nobreza, quando específicos, iniciados com letra maiúscula. Por exemplo, quando se referir ao 4º Príncipe ou ao Príncipe de Vila Fronteiriça, virá em maiúsculo, quando for algo como “um príncipe não pode fazer isso”, por ser genérico, virá em minúsculo.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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