LAB – Capítulo 95 – 3Lobos

LAB – Capítulo 95

Reunião

Maldito seja! Porra! Que Príncipe de merda é esse? Ele não é o único que foi jogado nessa terra de bosta sem dó nem piedade! — Cornélio pensou com ferocidade, mas quando se lembrou dos dois guardas com as mãos sobre as espadas que estavam caminhando atrás dele, ele teve que engolir seco todo esse ressentimento.

Quando ele finalmente saiu do castelo e viu os dois guardas indo embora, o Barão se sentiu aliviado.

Ele tirou um lenço já encharcado e enxugou a testa. Ele cuspiu um bocado de saliva no chão, imaginando que o cuspe cairia diretamente no rosto do Príncipe. No entanto, isso ainda não era suficiente para apaziguar sua raiva, então ele teve que dar umas cuspidelas vez após vez, até ficar um pouco mais calmo.

Só porque você conseguiu deter a invasão das bestas demoníacas, você acha que é capaz de enfrentar Forte Cancioneiro? Pode ficar se orgulhando e se achando o maioral, afinal você não tem muito tempo para ficar com essa pompa toda!

Cornélio pensou que, se ele não tivesse recebido informações tão confiáveis, nunca teria ousado voltar para Vila Fronteiriça tão cedo. Em geral, a aristocracia sempre retornava mais tarde do que os civis. Afinal, mineração e caça eram trabalhos sujos e difíceis, de modo que a aristocracia jamais faria tais trabalhos.

A responsabilidade dos aristocratas em Vila Fronteiriça era apenas supervisionar a produção e esperar até o minério ser suficiente para ser transportado. Durante o tempo livre, eles iriam até as casas dos caçadores e perguntavam se eles tinham peles de alta qualidade, adequadas para serem adquiridas pelos nobres.

Mas este ano a situação era completamente diferente. Cornélio ouviu do ministro financeiro, Sir Reynolds[1], que Duque Ryan estava pronto para expulsar o 4º Príncipe de Vila Fronteiriça. Isto não era uma traição ao Rei de Castelo Cinza, não, em vez disso, eles estavam defendendo uma ordem de Timothy Wimbledon, o novo Rei:

— Roland Wimbledon já não é o Lorde de Vila Fronteiriça, e se ele quiser ser reconduzido a um novo território, ele deve retornar primeiro ao Castelo do Rei.

Duque Ryan falou essas palavras revolucionárias na frente do Sir Reynolds que, aliás, em apenas cinco anos conseguiu ascender a posição de ministro financeiro da prefeitura de Forte Cancioneiro. Se eles não tivessem um certo parentesco, mesmo que distante, e ele não tivesse enviado duas peles de altíssima qualidade para Reynolds, Cornélio não seria capaz de saber o que estava acontecendo entre as pessoas encarregadas do oeste de Castelo Cinza.

Ganhar um novo território era somente uma promessa vazia de Timothy, pois até mesmo Cornélio sabia que o 1º Príncipe, Gerald, foi enviado à forca sem dizer absolutamente nada. Se com Gerald foi assim, como poderia ser diferente com o 4º Príncipe?

Sem dúvida, a fronteira oeste estava sob as rédeas de Duque Ryan. A única questão era se ele esperaria a ordem do Rei Timothy ou se ele agiria sem ela. No entanto, quando Duque Ryan agir, não haverá diferença entre Roland Wimbledon e um vira-lata.

Esta também foi a razão pela qual Cornélio se apressou em ir para Vila Fronteiriça. O primeiro motivo era, naturalmente, obter as melhores peles o mais cedo possível, mas seu segundo motivo era colocar sua própria casa à venda. À primeira vista a sua ideia era muito inteligente. Nos anos anteriores, os civis fugiam para Forte Cancioneiro e sempre no final do inverno não teriam nada para vender. Contudo, este ano, os civis permaneceram na vila, logo, eles deveriam estar com seus depósitos cheios, não é mesmo? Então, Cornélio poderia comprar as melhores peles e produtos, fazendo uma pequena fortuna. Além disso, ele poderia enviar alguns presentes para Reynolds, para estreitar os laços.

Além do mais, Cornélio já havia pedido a Reynolds um lugar para trabalhar na prefeitura. Mesmo que fosse um trabalho burocrático, ainda seria melhor do que viver nesse maldito lugar. Por isso, ele queria vender rapidamente sua casa, pois não iria mais precisar dela. Além disso, quando Duque Ryan atacar Vila Fronteiriça, ninguém poderia garantir que os mercenários não iriam pôr fogo nas casas. De fato, se a casa de Cornélio fosse queimada, ele teria um grande prejuízo.

Mas ele nunca imaginou que a casa não foi destruída por mercenários, mas, em vez disso, foi demolida pelas ordens diretas pelo 4º Príncipe. Bastava o Barão lembrar deste fato que ele cerrava seus dentes com força!

Argh, essa era uma das minhas melhores casas! Tudo bem, cento e cinquenta peças de ouro eram um exagero, mas valia pelo menos trinta!

Com a ideia de conseguir dinheiro rápido, Cornélio engoliu seu orgulho e aceitou relutantemente as vinte peças de ouro, mas quem poderia imaginar que Sua Alteza iria tratá-lo de forma tão insana! Além de Sua Alteza não pagar nenhum valor pela casa, ainda ameaçou Cornélio de deserção!

Ele não estava ciente de que sempre, todos os malditos anos, no início dos Meses dos Demônios, a aristocracia é evacuada para Forte Cancioneiro? Espere um pouco …

Cornélio de repente diminuiu o passo, pois algo parecia estar errado. Ele já tinha ouvido falar que o 4º Príncipe era um mau caráter, que ele sempre agia sem pensar. Tanto é que ele até mesmo flertou maliciosamente e deliberadamente a esposa do Barão Simon assim que pisou o pé em Vila Fronteiriça. Isso se tornou uma piada interna entre a aristocracia por muito tempo. Mas hoje, a impressão que Cornélio teve do Príncipe não fazia jus a tudo o que ele ouvira. O Príncipe não se enfureceu e não agiu de forma vergonhosa, pelo contrário, quem se enfureceu e agiu de forma vergonhosa foi o próprio Cornélio!

Pensando bem, o Príncipe manteve o tom de voz do início ao fim. Sempre a mesma altura.

Então, por que ele ficou tão assustado, mesmo tendo cedido obedientemente a sua própria casa? Se ele tivesse dito que a casa era dele, o Príncipe teria realmente matado Cornélio? Ou não?

Certo … — Cornélio teve um calafrio, enquanto sua testa começava a suar novamente. Pensando bem, ao lembrar de toda a conversa com o Príncipe, por que Cornélio tinha a ilusão de que ele estava conversando com Duque Ryan?

O Barão balançou a cabeça com dificuldade, tentando procurar alguma coisa nas memórias desagradáveis de agora a pouco.

De qualquer forma, o 4º Príncipe só ficará orgulhoso por alguns dias, no máximo. Logo, logo, Duque Ryan trará Vila Fronteiriça de volta sob suas rédeas e, em seguida, Sua Alteza Roland Wimbledon também será acompanhado de volta a Castelo Cinza. Então eu vou rir muito do destino dele. Talvez eu tenha perdido mesmo essas vinte peças de ouro, mas no final das contas, Duque Ryan vai se vingar por mim!

Pensando até aqui, Cornélio finalmente conseguiu relaxar. Como ele havia conseguido obter algumas peles de alta qualidade, e não precisava mais se preocupar em vender a sua casa, ele poderia simplesmente voltar para Forte Cancioneiro agora.

Eu preciso fazer o possível para imitar o ‘quem da aristocracia tiver o mesmo mal-entendido’ da melhor forma possível. Vou entregar essa mensagem em Forte Cancioneiro e mostrar para todo mundo o blefe de Sua Alteza.

Quando ele finalmente saiu da área do castelo, andando pela estrada do porto, Cornélio passou por uma mulher que estava usando um capuz.

Originalmente, não havia nada de estranho, pois existiam pessoas na vila indo e vindo o tempo todo, mas a mulher estava toda vestida. Talvez ela fosse uma jovem ou uma mulher da aristocracia a caminho do Príncipe. Mas quando uma lufada de vento levantou o seu capuz, Cornélio sentiu seu coração pular, e parecia que ele não conseguiria mais recuperar o fôlego.

Deus, é assim que uma mulher deve ser, com esses cabelos longos e de uma cor verde rara, só de revelar uma parte do rosto por um momento foi o suficiente para me deixar nesse estado. Mesmo que o Rei em Castelo Cinza convocasse as princesas de outros reinos, ele não veria alguém como ela, então, como é possível que alguém tão bonita esteja aqui em Vila Fronteiriça?

Ele se virou tentando prestar atenção para onde aquela beldade estava indo, apenas para descobrir que ela estava caminhando diretamente para o castelo.

Este é o tipo de mulher que o Príncipe tem acesso? — O Barão hesitou um pouco mais, mas no final desistiu.

Ele realmente não queria ter mais nada a ver com o 4º Príncipe.

Uma pessoa tão perversa deveria ser deixada para Duque Ryan, além disso — Cornélio pensou —, eu ainda preciso voltar para Forte Cancioneiro.

Chegando ao cais, ele subiu em seu barco de um único mastro. Os marujos puxaram a vela, e o barco rapidamente saiu do cais, navegando na direção de Forte Cancioneiro.

No caminho de volta, enquanto estava sentado ao sol, Cornélio viu um espetáculo à parte.

A cerca de quinhentos metros de distância de Vila Fronteiriça em um campo coberto de neve, um grande grupo de pessoas entrou em seu campo de visão. Todos estavam vestindo a mesma armadura de couro marrom e um longo pique de madeira nas costas. Formando uma linha longa, eles marchavam lentamente pela neve. Embora existisse uma pequena floresta que não permitia Cornélio ter uma visão do todo, ele ainda tinha certeza de que havia pelo menos cem pessoas.

Esses são … os fazendeiros que o 4ª Príncipe utilizou para enfrentar as bestas demoníacas?

Nos primeiros meses do ano, quando a neve ainda cobria as estradas, era absolutamente difícil andar pela neve, Cornélio nem podia imaginar que alguém conseguiria fazer isso. Mas o grupo de pessoas ainda estava caminhando pela estrada, e parecia até que a neve tinha pelo menos trinta centímetros de profundidade, isso não era um obstáculo pequeno …

Ele queria rir dessa cena ridícula, mas percebeu que era incapaz de achar isso engraçado. Um sentimento de dúvida surgiu inconscientemente em seu coração. Será que os Cavaleiros sob o comando de Duque Ryan, também seriam capazes de tal proeza?


 

 

[1] Caso você não lembre quem foi Reynolds, confira novamente lá no capítulo 8.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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