LAB – Capítulo 91 – 3Lobos

LAB – Capítulo 91

Coração aprisionado

O corredor estava iluminado pela luz da lua que atravessava as janelas, mas apenas metade do rosto de Anna era visível. Seus olhos refletiam a fraca luz azul, parecendo duas estrelas no escuro. Anna inclinou-se contra a porta, com a maior parte de seu corpo escondido nas sombras, mas seu contorno ainda era visível. A alimentação saudável mudou completamente seu corpo que outrora estava fraco e magro, transformando-a em uma mulher adulta. Seu corpo era simplesmente perfeito, contendo as curvas certas para sua idade, mas também o charme único da juventude.

Roland tentou se acalmar e avançou lentamente até que foi descoberto por Anna. Finalmente, ele ficou de pé na frente dela, quando seus olhos se encontraram.

— Foi apenas um acidente, não sabia que Raio faria … — Roland começou.

— Eu sei.

— Ela ainda é uma criança, então por isso que eu não me …

— Sim, eu também compreendo isso.

Anna reagiu completamente diferente do que Roland tinha pensado. Anna não demonstrava estar brava com ele, e Roland não conseguiu detectar nenhum sinal de descontentemente em seu rosto. Ele só enxergava um olhar sério e sereno. Não havia insegurança dentro dos olhos azuis como um lago.  Roland percebeu que Anna era uma mulher direta. Ela não gostava de fingir sentimentos e também não precisava esconder nada. Dito e feito, ela tomou a iniciativa e disse:

— Eu não posso ser como a Raio … no meio de tantas pessoas, não me atreveria a demonstrar tal … comportamento audaz, então, tive que esperar por você aqui.

Após esta frase, suas bochechas coraram um pouquinho, mas mesmo assim, ela ficou firme com seus olhos ainda focados diretamente em Roland. Se alguém visse essa cena, diria até mesmo que seu olhar estava extremamente sério.

Por muito pouco que Roland não abriu seu coração. No último instante, ele percebeu que tudo o que poderia dizer, nesse exato momento, não faria sentido. Anna poderia até mesmo não ter gostado da atitude de Raio, mas sofrer sozinha ou reclamar depois não era sua maneira de agir, pois ela sempre expressava seus próprios sentimento de forma direta.

Roland pensava que crianças, como Raio, dispostas e sempre cheias de vontade não podiam ser tolhidas. Então, Roland inclinou-se, aproximando-se da bochecha de Anna, até sentir a respiração dela em seu rosto, como a respiração da primavera brincando com os batimentos de seu coração. Dentro deste ambiente calmo, eles podiam ouvir claramente a respiração nervosa um do outro, então, os lábios suaves de Anna tocaram ligeiramente as bochechas de Roland.

— Boa noite, Alteza. —  Anna sussurrou.

Wendy sentou na cama enquanto dava uma olhada em alguns livros.

Para ela, momentos como esse, em que ela tinha tempo para si mesma, eram muito raros. Durante o seu tempo na Associação Cooperativa das Bruxas, ela também nunca teria pensado em ter uma vida como essa.

Ela não estava na vila há muito tempo, mas já havia desenvolvido o hábito de tomar um bom banho sempre antes de dormir. Então, ela colocaria uma roupa de seda sem botões, que não fosse apertada na cintura. Ela sentaria na cama com as pernas cruzadas, com um travesseiro macio entre as costas e a parede, para ler os livros emprestados de Sua Alteza.

Levou algum tempo para Raio conseguir se acalmar e dormir. Por causa disso, ela não quis voltar para o jardim e a celebração. Ao invés disso, ela tomou um banho e foi direto para a cama.

No momento, ela estava lendo um livro de história sobre a origem da Igreja.

Embora ela tivesse crescido em um mosteiro, ainda assim era um tema que ela não conhecia muito bem. As freiras sempre as advertiram para obedecer aos ensinamentos de Deus, mas nunca mencionaram o nome de Deus. Durante sua infância, Wendy sempre ficou intrigada com essa lacuna. Tudo tinha um nome, então por que de todas as coisas, o ser mais nobre de todos, Deus, não tinha um?

O que estava registrado nos livros que ela havia lido e os rumores que ela mais tarde ouviu, falavam basicamente a mesma coisa. No início da história do continente haviam três religiões principais, e cada uma achava que as demais eram hereges, acreditando que seus deuses eram os únicos e verdadeiros. Esta batalha de fé durou quase cem anos e, no final, a Igreja venceu. A Igreja declarou que os outros deuses tinham sido destruídos, e que chamar Deus com qualquer outro nome era proibido, pois esta era a palavra do próprio Deus.

As páginas a seguir descreviam a glória e a imortalidade da Igreja, incluindo a construção da Velha Cidade Sagrada e a Nova Cidade Sagrada, bem como e a vitória sobre as bruxas do mal. Para Wendy, isso tudo era muito estranho.

Ela também havia emprestado de Roland os livros A História do Reino de Castelo Cinza e Uma breve História do Continente. O primeiro registrava quase sem equívocos o estabelecimento, desenvolvimento e os grandes eventos do Reino de Castelo Cinza, como o nome de cada Rei, o estado civil e o paradeiro de seus filhos. A família com todas as suas ramificações era descrita com tantos detalhes, que quase parecia uma genealogia detalhada.

Uma breve História do Continente concentrava-se mais na evolução dos quatro Reinos, suas alternâncias no manejo de seus poderes e as lutas políticas internas e externas. No entanto, ambos os livros ainda davam muita importância para as famílias dos governantes.

Contudo, dentro do livro da História sobre a Igreja, não se mencionava nenhum dos nomes dos Papas, ou pode-se dizer que eles fizeram com os nomes dos Papas a mesma coisa que fizeram com o nome de Deus. Eles apenas substituíram seus nomes anteriores pelo título de Papa. Então, ao longo de todo o livro, parecia que havia apenas um Papa durante todas as centenas de anos de história. Isso não fazia sentido com o senso comum. Talvez, não devia chamar isso de registro, mas uma ilusão deliberada.

Neste momento, Rouxinol apareceu de repente no quarto de Wendy. Quando Wendy percebeu, ela colocou seu livro de lado e olhou para Rouxinol com interesse.

— Já está tão tarde e só agora que você teve tempo para falar comigo?

Rouxinol esfregou seu pescoço tenso e foi à cama para se sentar.

— Acabei de deixar Nana em casa. Mas me conta, como que você conseguiu fazer Raio dormir?

— No caminho, ela não parava de contar histórias sobre seu pai, mas quando ela deitou na cama, ela imediatamente adormeceu. Eu nem precisei ler histórias para ela. —  Wendy deu de ombros — Ela sempre age como se já fosse uma adulta, mas na verdade, ela ainda é uma criança.

— Para você, todo mundo ainda é uma criança. — Rouxinol disse provocando Wendy. Ela também pegou o livro que Wendy estava lendo e continuou — Sua Alteza Real já disse a você para não ler à noite, especialmente que não deveria ler quando estivesse sentada na cama. A iluminação não é boa o suficiente e vai machucar seus olhos.

— Sim, Sua Alteza Real disse isso mesmo.

As duas conversaram por um longo tempo. Elas falaram sobre o tempo em que viajaram juntas da Cidade da Prata até a Cordilheira Intransponível, sobre o que aconteceu quando descobriram a morte de algumas bruxas e como elas sobreviveram aos Meses dos Demônios. Rouxinol tinha tanta coisa para falar, mas tanta, que Wendy só conseguia falar uma ou outra frase de vez em quando. Nos últimos cinco anos, elas já estavam tão inseparáveis ​​que desenvolveram um entendimento tácito entre si. Então, o tempo passou lentamente até que finalmente as velas já estivessem prestes a se apagar. Ao ver isso, Wendy começou a rir e perguntou:

— Humm, você não consegue dormir por causa da cena que Raio causou hoje, não é?

— Do que você está falando?

— O que mais poderia ser? — Wendy sorriu e balançou a cabeça — Veronica, somos bruxas, você deve saber o que isso significa.

Rouxinol ficou em silêncio.

Mesmo após de um longo tempo, ela não sabia muito bem o que dizer, então ela simplesmente disse:

— Bem ….

Este era o destino que nenhuma bruxa poderia escapar. Wendy tirou o sorriso do rosto, suspirou e depois disse:

— Roland Wimbledon é o 4º Príncipe do Reino de Castelo Cinza, e temos que fazer todo o possível para garantir que ele consiga assumir o trono. Então, quando ele governar o Reino, ele poderá dar a todas as nossas irmãs um abrigo contra a Igreja. Mas isso também significa que ele se tornará o Rei, e então chegará o momento em ele deverá se casar com a filha de um Duque ou a princesa de outro Reino. Então eles terão filhos, talvez um ou vários. Se for um menino, ele vai herdar o Reino, e se for uma garota, ela casará com outra família nobre.

Aqui, Wendy fez uma pausa por um momento, dando tempo para Rouxinol se preparar, já que ela tinha que dizer palavras que nenhuma bruxa queria ouvir.

— Veronica, somos bruxas e bruxas não podem dar à luz. Mesmo com o resultado mais otimista, onde não haveria diferença entre bruxas e pessoas comuns, nesse futuro, nós poderíamos caminhar livremente por todos os Reinos, mesmo após da morte de Sua Alteza. Mesmo em casos excecionais, em que bruxas poderiam ascender à aristocracia e conquistar o título de nobres, sempre haverá o problema de que bruxas não podem ter descendentes. E sem nenhum descendente, somos incapazes de continuar a glória da família, então os nobres nem sequer iriam considerar se casar com uma bruxa. Por isso, podemos ganhar algumas coisas, mas, ao mesmo tempo, uma parte importante será tirada de nós.

Wendy pausou aqui. Ela chegou mais próxima de Rouxinol e sussurrou:

— Este é o nosso destino. Eu não queria ter que contar essas coisas para você.

— Entendo … — Rouxinol sussurrou.

Quando Rouxinol finalmente partiu, Wendy não se sentia tão bem, mas ela acreditava que Rouxinol ainda seria capaz de superar essa situação, afinal, ela já havia passado por tantas dificuldades, que certamente também conseguirá passar por mais essas.

Assim, Wendy ficou consolada.


JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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