LAB – Capítulo 84 – 3Lobos

LAB – Capítulo 84

A verdade por trás de Hermes

O Bispo Mayne descia uma escada circular em direção ao subterrâneo.

A escada circular possuía a altura equivalente a pelo menos quatro vezes a altura da torre mais alta da catedral, e um diâmetro de aproximadamente 6 m. Ela foi construída em uma dolina[1] natural e conduzia diretamente a um castelo muito espaçoso, construído em uma posição estratégica. O início da escada era bem iluminado por uma claraboia[2], alocada por entre as janelas acima da alta cúpula, conferindo uma cor gélida às paredes contorcidas de pedras.

Entretanto, ao continuar descendo os degraus, a escada escurecia rapidamente, como se estivesse fundindo as paredes uma a uma. Após algum tempo descendo as escadas, podia-se ver um reflexo de uma luz pálida, em seu centro, e quanto mais profundo alguém descia, mais brilhante essa luz se tornava. Então, mesmo sem uma tocha, ninguém estaria à mercê da escuridão.

Ao pé da escada, um corredor firmemente conectado à parede de rocha serpenteava em torno de um buraco escuro.

Todo o corredor foi talhado em granito, formado por muitas peças retangulares com três dedos de espessura. O corredor era amplo o suficiente para duas pessoas caminhar lado a lado. Uma extremidade de cada peça de granito estava embutida na parede de rocha enquanto a outra extremidade estava exposta ao ar. Para evitar quedas acidentais, havia uma cerca de madeira com cordas trançadas por toda a circunferência do buraco.

Mayne não contava o número de passos que ele descia, pois no fim, eram simplesmente muitos. Contudo, ele sabia que embutir cada pedaço de pedra no caminho era uma tarefa árdua. Os pedreiros contratados pela Igreja tiveram que se apoiar em uma corda e ficar pendurados, enquanto furavam a parede de rocha dura adequadamente. Após isso, eles precisavam inserir as placas de granito nos buracos feitos. Cada ação tinha que ser feita com muito cuidado, pois o menor deslizamento ou rompimento de corda, levava a uma longa queda. Durante a construção, isso já tinha acontecido com mais de trezentas pessoas.

Se a Catedral da Igreja na superfície fosse um símbolo do espírito inflexível da igreja, o castelo escondido no Platô de Hermes era o núcleo real da Igreja.

Um pedaço da Pedra da Retaliação Divina estava embutido em cada degrau das escadas, e um guarda estava posto a cada cem passos. Como última linha defesa, havia até mesmo um esquadrão do Exército da Punição Divina, sempre pronto para enfrentar quaisquer intrusos. Muitos sacos de areia e cascalho foram enterrados entre a Catedral e o castelo subterrâneo, pois se todas as defesas da Cidade Sagrada falharem, o Papa esperaria todas as pessoas importantes serem evacuadas, para então ativar a armadilha e enterrar a tudo e a todos sob uma camada profunda de areia e cascalho.

Embora não fosse a primeira visita de Mayne ao castelo subterrâneo, a sensação de andar no ar ainda dava tonturas. Especialmente depois de um tempo descendo, ele sempre tinha a ilusão de estar caindo.

Então ele ficou um pouco aliviado quando finalmente pisou o seu pé em terra firma novamente.

No fundo do buraco havia uma enorme mó[3], como um disco feito de pedra branca, com uma superfície tão lisa quanto um espelho. Ao ficar em cima da mó, qualquer pessoa poderia ver a sua imagem refletida perfeitamente. Como uma construção feita com extrema habilidade e planejamento, a luz que atravessa as janelas dentro da cúpula, eram refletidas de tal forma que acabavam atingindo diretamente a mó. Graças a isso, o fundo da dolina nunca ficava escuro, mesmo sem ser iluminado por uma tocha.

Ao chegaram no fundo da dolina, todas as pessoas percebiam que o sol não era incolor. Após ser refletida pela mó, a luz se tornava azul. No entanto, ao olhar para cima, a luz azul brilhava por todo o buraco de uma forma muito bonita. Ao olhar mais de perto, podia-se descobrir que havia inúmeras partículas de poeira pairando no ar, assim como as criaturas minúsculas registradas no livro antigo.

Os buracos dentro da parede da montanha eram cavernas formadas pela natureza, e a Igreja apenas abriu as entradas, expandindo e construindo o castelo subterrâneo de Hermes. Mas graças a esses buracos que se estendiam em todas as direções, o ar podia fluir livremente, de modo que o ar no fundo da dolina não era malcheiroso ou opressivo.

Quando Mayne atravessou a porta na área principal do castelo, de repente ele foi cercado por uma imponente equipe de soldados. Havia cinco soldados, chamados Juízes, que guardavam todas as entradas. Os Juízes eram os soldados mais leais da Igreja. Ao serem aceitos nesse grupo e começassem seu trabalho, eles viveriam para sempre no castelo, nunca podendo voltar à superfície.

Na verdade, só Mayne e o Papa podiam entrar e sair do castelo. Mesmo a Arcebispa Heather e o Arcebispo Tayfun não podiam entrar aqui.

Mas até Mayne não sabia galerias e salões[4] o castelo possuía em seu sistema de cavernas. Além do caminho principal que conduzia ao sul, havia muitas ramificações laterais que se afastavam do caminho principal e, ao seguir esses caminhos laterais, eles se bifurcavam novamente em muitas outras galerias. Alguns eram utilizados pela Igreja, enquanto outros estavam interditados. Mayne ouvira que durante a construção do castelo, alguns artesãos se desviaram para aqueles caminhos que não eram marcados como seguros, e acabaram ficando perdido. Estes artesãos jamais encontraram seu caminho de volta para o castelo.

O caminho principal vertical levava diretamente para as profundezas da montanha, e a mais ou menos 100 metros, Mayne tinha que atravessar um ponto de inspeção. Ele sabia que a Igreja estava usando cada segmento entre dois pontos de inspeção para uma tarefa diferente. A área mais externa era usada como a sala de estar para os guerreiros que permaneceriam por toda a sua vida no castelo. O segundo segmento era usado como arquivos, para armazenamento de instrumentos e fragmentos de livros antigos. A terceira seção era a área da prisão, onde os prisioneiros estavam alojados, sem jamais poder ver a luz do sol novamente … incluídos os inocentes.

Depois de atravessar o terceiro ponto de inspeção, Mayne parou. Além disso, esta era a área secreta do castelo. Todos os materiais de pesquisa e invenções da Igreja tinham sua origem neste lugar, e sem a autorização do Papa, ninguém era autorizado a entrar. Desde que ele se tornou o Arcebispo há três anos, ele apenas entrou nessa área uma vez.

Quando Mayne se aproximou, ele pegou o caminho da esquerda.

Após de uma breve caminhada, o corredor terminou em uma porta, com uma placa presa na altura do peito a qual dizia ‘Anciãos’!

Mayne assentiu com a cabeça para os guardas e ordenou:

— Abra a porta.

Atrás da porta, o corredor continuava com tochas acesas e chamas bruxuleantes penduradas na parede até o fim, como se fossem pequenas faíscas de luz dentro de um mar de escuridão. Em ambos os lados do corredor havia muitas portas de madeira e, no meio de cada porta, pendia uma placa com um número.

Um dos Juízes que seguiram Mayne levantou uma tocha para iluminar os arredores. Ao caminhar pelo corredor, Mayne olhava o tempo todo para os números nas placas. Quando finalmente viu o número 35 manchado na placa, ele parou e puxou uma chave de um de seus bolsos, colocando no buraco e girando levemente. No fundo da dolina, o som produzido ao abrir uma fechadura era bastante áspero, e seu eco podia ser ouvido mesmo no final do corredor. Como se fosse o tiro de uma pistola sinalizadora, de repente muitos gritos foram ouvidos das outras portas, com o clamor de homens e mulheres. Ao ouvir atentamente, Mayne poderia entender alguns deles!

— Por favor, me salve!

— Me mate, pelo amor de deus!

E coisas similares.

Mas Mayne estava impassível com os gritos. Ele apenas ordenou que o guarda de pé ao lado da porta fechasse imediatamente depois de entrar na sala, deixando o caos e os gritos do lado de fora.

Atrás das grades de ferro, o bispo viu um velho sentado em sua cama. Talvez ele não estivesse tão velho, mas agora seu cabelo já estava branco e seu rosto estava coberto por rugas. Sua barba mostrava que não era feita há muito tempo, e estava quase atingindo o seu pescoço. Como ele não tinha visto o sol há muito tempo, sua pele estava terrivelmente pálida, e as mãos e os pés eram tão finos quanto o bambu.

Mayne olhou para o prato de comida atrás das grades, que parecia que não tinha sido tocado. Mayne demonstrou sua insatisfação, suspirando e dizendo:

— Você deve cuidar melhor de si, a Igreja não precisa de comida. E as refeições são feitas de acordo com o padrão do rei, com exceção do vinho. Até o peixe que lhe é servido é o bacalhau de primeira qualidade proveniente do Porto Índigo. Você deve estar familiarizado com o seu gosto, certo, Sua Majestade, Rei Wimbledon?


 

 

[1] Dolinas são como pequenas deformações no solo em formato circular, como uma grande bacia. Você pode ver a foto de uma dolina aqui ou consultar a Wikipédia para mais informações aqui.

[2] Caso você não saiba, claraboias são aberturas no teto ou no alto de paredes por onde entra luz. Geralmente são janelas, como essas.

[3] Mó são as pedras utilizadas para triturar grãos em moinhos, ou para amolar facas e outros instrumentos. Embora não seja branca como a descrição aqui, você pode conferir o que é uma mó aqui.

[4] Uma caverna é formada por dois caminhos: galerias, que são os túneis por onde você passa, seja em pé, se arrastando ou se espremendo; e os salões, que são aqueles locais espaçosos.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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