LAB – Capítulo 82 – 3Lobos

LAB – Capítulo 82

Primeira viagem de Vilazinha

Uma vez que Raio era a única que tinha alguma experiência prática em velejar, a ela foi designado o dever de ser a navegadora.

Além disso, ela também estava interessada nessa barcaça com sua estranha forma e material de construção único. Embora parecesse muito rústico, tinha todas as partes importantes necessárias para um navio e era capaz de se mover, mas ela não tinha permissão para pilotá-lo sozinha. Afinal, durante a maior parte do tempo no mar, ela só fora uma espectadora, pois seu pai sempre recusou seus pedidos para pilotar o navio.

Conforme a tradição, Raio quebrou uma garrafa de vinho de trigo na proa[1] do navio para a primeira partida, e então ela deu a ordem para navegar. Carter, como capitão, estava naturalmente relutante em deixar a menina tomar sua posição como comandante, então, sempre que ela desse um comando, o cavaleiro-chefe seguiria com o mesmo comando.

As velas de Vilazinha foram costuradas com peles de animais, sendo a grande maioria peles de vacas e carneiros, mas também com algumas das especialidades de Vila Fronteiriça, como pele de lobo, urso dentre outros animais. Por causa disso, a vela tinha uma miríade de cores: marrom, cinza e branco, como se fosse uma vela remendada de vários trapos. As velas possuíam a forma de um trapézio e eram divididas por quatro feixes separados. No topo da vela, um cabo passava pelos anéis de ferro para conectar a vela ao mastro, enquanto a parte de baixo caia no convés. Somente um marinheiro era necessário para puxar a vela e içá-la completamente.

Para que o navio fosse o mais simples possível, Vilazinha só tinha duas velas paralelas entre si, e perpendiculares na linha de centro do navio. Em geral, se um veleiro de dois mastros fosse construído dessa maneira, ele iria pegar tão pouco vento que a segundo mastro seria praticamente irrelevante. Mas, com a habilidade de Wendy de controlar o vento, esse design permitiria que ela distribuísse seu poder uniformemente em ambos os lados da linha de centro do navio, tornando mais conveniente para o timoneiro mudar a direção do navio.

Quando Raio viu que a vela estava içada, ela ordenou aos trabalhadores portuários em terra para soltarem o cabo. No momento, o tempo estava muito bom. A neve que caia de vez em quando estava sendo conduzida por um vento leve, assim como a água, quando o navio deixou lentamente o barranco.

A menina desceu ao lado de Brian e ordenou:

— Todo leme para à direita!

Carter também gritou:

— Todo leme para à direita!

— Hã, o que é esse leme mesmo? — Brian coçou a cabeça e perguntou — Quantas voltas inteiras eu giro à direita?

— Não, você tem que girar o timão para a esquerda — Raio disse enquanto se afastava —, vamos, ou eu tenho que ir aí?

Ela tinha esquecido que essa era a primeira vez que essas pessoas controlavam um navio, então eles não tinham a mínima instrução de como fazer isso.

Se isso fosse um brigue normal, eu acho que eles não seriam capazes nem de içar a vela. Mas também, com menos de dez pessoas, eles só foram capazes de fazer esse navio navegar por conta dessa forma tão única e diferente.

Raio pegou o timão, que era ainda mais alto do que ela, e com os pés afastados do chão ela girou para a esquerda. Ao fazer isso, ela pensou — esse timão é tão grande e tão pesado que uma mulher normal não ia conseguir nunca girar ele.

Na ausência de energia mecânica e transmissão de energia direta, Raio tinha que sobrepujar toda a força da água ao mover o timão de ferro[2]. No entanto, Raio podia voar, então isso não era um problema para ela. Além disso, Raio notou que havia uma peça fina instalada na base do leme para evitar que o leme virasse do outro lado, então, quem quer que seja que estivesse girando o timão, não se preocuparia em ‘girar demais’. Ao ver isso, Raio ficou bastante impressionada, pois ela ouviu dizer que o design desse navio era um projeto original do Príncipe. Sendo assim, ela pensou:

Como ele pode saber de todos esses detalhes? Até os marinheiros que ficam no mar o dia todo não sabem de todos os detalhes de um navio assim, com essa exatidão!

— Irmã Wendy, você pode começar a produzir seu vento.

Wendy, que estava no topo da cabine, não sabia se ria ou se chorava — então essa era a verdadeira razão pela qual Sua Alteza tinha me perguntado se eu tinha medo de altura. Então, agora, eu devo mover o navio com minha habilidade?

Ao pensar sobre sua vida chata habitual, como a secagem de carnes ou roupas, isso dava uma sensação completamente diferente para Wendy. Ela abriu as mãos, entrou em seu estado de prática usual e deixou o vento soprar de seus pés para a cabeça de forma equivalente, equilibrando o vento o máximo possível ao soprá-lo em ambos os lados da vela.

Na verdade, Wendy não esperava que essa tarefa, aparentemente simples, fosse tão difícil de executar.

Embora ela tivesse despertado como uma bruxa há quinze anos atrás, ela nunca tentou obter uma compreensão e controle mais profundos sobre seus poderes. Se era chamar o vento para atacar o inimigo ou convocar uma tempestade para varrer o inimigo, esses eram movimentos únicos que exigiam uma grande quantidade de magia. No acampamento, ao fazer as tarefas domésticas, de vez em quando ela precisava usar muito poder, mas assim que o objetivo da tarefa era alcançado, ela dificilmente usava muito. Agora, pensando em Anna, que sempre usava seu poder com fervor, Wendy de repente sentiu um pouco de vergonha.

— A primeira coisa que você precisa fazer é praticar sua habilidade várias vezes até que você a compreenda completamente, assim como Anna.[3]

Então essas palavras não são palavras vazias … bem, de agora em diante eu vou começar a … — Wendy respirou fundo e concentrou toda a sua atenção em criar o vento.

Embora o vento não estivesse perfeitamente equilibrado, as velas ainda estavam infladas, e sob o fluxo constante de vento, o mastro emitiu um som estridente, e a proa começou a girar para a direita.

— Está realmente em movimento! — Carter exclamou.

— Sua Alteza Real transformou pedra em um navio e ainda fez ele flutuar na água! — Sir Pinheiro riu e perguntou — Será que existe alguma coisa que ele não possa fazer?

Vilazinha se afastou cada vez mais longe do barranco, indo gradualmente para o meio do rio.

Wendy conseguia produzir o vento do nada, mas ela não conseguiu fazer o vento norte existente desaparecer, então o vento estava vindo de duas direções, tornando impossível mover o navio em linha reta usando apenas seu poder. Por causa disso, eles também tiveram de pilotar o navio para ajustar a direção. Raio não conseguiu ensinar Brian apenas por palavras. Isso era algo que Brian tinha que experimentar por si mesmo. Para permitir que ele dominasse esse sentimento o mais rápido possível, Raio dava ordens o tempo todo para Brian mudar a direção do navio com frequência, para que ele pudesse aprender a relação entre o ângulo de rotação do timão e o balanço da proa, o que permitia a ela fazer pequenos ajuste.

Depois de navegar por mais de uma hora sobre o Rio Vermelho, Wendy não conseguia aguentar mais. Ela ainda tinha poder mágico sobrando, mas seu corpo já tinha atingido seu limite.

Mesmo que seu corpo estivesse envolto em tantas camadas, fazendo ela parecer um bolinho de tanta roupa, Wendy ainda não era capaz de resistir completamente ao vento frio constante. Uma camada de neve já havia acumulado em cima de sua roupa de algodão e ela já não podia sentir mais suas mãos e pés enquanto estava naquele piso instável. Se não fosse Raio que viu Wendy agindo de forma estranha, talvez ela tivesse caído em coma.

Então Raio rapidamente voou para Wendy e agarrou seu corpo enquanto gritava para Brian que ele deveria navegar de volta para as docas.

Brian girava o timão na direção certa, conduzindo bem, deixando o navio virar lentamente para a esquerda. Raio voou para baixo na cabine enquanto carregava Wendy. Dentro da cabine, elas só tinham as velas para parar o vento, mas pelo menos não era tão frio quanto antes, de modo que elas conseguiam manter a temperatura do corpo. Além disso, se quisessem chegar ao barranco, eles precisariam de uma pessoa com um bom controle, e Raio nunca se atreveria a deixar um novato assumir essa importante tarefa, mesmo que ela nunca tivesse feito isso sozinha.

Quando eles finalmente atracaram e o barranco do rio colidiu com o casco, emitindo um som alto, toda a tripulação sentiu seus corações palpitarem mais rápido. Mesmo que o som da colisão com o barranco tenha sido alarmante, no fim, não pareceu tão ruim assim. O marinheiro rapidamente arreou as velas juntas e pôs a escada de embarcação na terra.

Felizmente, eles não foram capazes de navegar em linha reta durante esse primeiro teste, então, graças ao treinamento para fazer uma trajetória em forma de U no rio, eles não estavam tão longe de Vila Fronteiriça.

Raio voou em direção ao castelo enquanto carregava Wendy. Carter olhou para o navio de pedra e suspirou alto. Sem a ajuda de uma bruxa, ele não iria tentar trazer o navio de volta às docas.


 

 

[1] A frente do navio se chama proa e a parte de trás popa. Em alguns locais, como no Capítulo 74, acabamos deixar passar esse ponto e chamamos a proa de arco. Contudo já foi corrigido.

[2] A ideia aqui é como quando você dirige carro com ou sem direção hidráulica. A força necessária para girar o volante em um carro com direção mecânica é muito, mas muito maior do que um carro com direção hidráulica. E ainda temos agora o carro com direção elétrica. Recomendo este último.

[3] Caso você não se lembre, isso foi o que Roland disse a Wendy no Capítulo 63.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
FONTE
Cores: