LAB – Capítulo 39 – 3Lobos

LAB – Capítulo 39

O Inverno está chegando

Roland estava parado na muralha da vila de frente para o norte. Durante todo este mês, ele repetidamente verificava o castelo, a mina e a muralha da vila em uma espécie de circuito de três pontos. Ele verificava todos os detalhes possíveis para não deixar passar nada em branco.

A milícia já manipulava as armas com habilidade. Com a repetição de exercícios supervisionada por Carter, eles já eram capazes de segurar o pique firmemente até o Capitão da Milícia dar a ordem para atacar.

De pé atrás da milícia estava o esquadrão de caçadores. Cada caçador que permaneceu em Vila Fronteiriça e era bom tanto com o arco ou a besta foi incorporado neste esquadrão. Estes caçadores experientes eram a espinha dorsal para matar as bestas demoníacas. Estando a apenas 3,6 m de distância das bestas demoníacas na muralha da vila, era quase impossível para eles errar o alvo.

A última linha de defesa era composta por Machado de Fero, Carter e dois caçadores do esquadrão de elite que estavam sob a liderança de Machado de Fero. As peças fabricadas pelos ferreiros foram suficientes para deixar Anna construir quatro pistolas de pederneira. Eles só iriam atirar com as pistolas quando uma espécie mista atacasse ou quando nem o arco nem a besta conseguisse perfurar a pele das bestas demoníacas. Este esquadrão de elite não possuía um lugar fixo na muralha, então os quatro precisavam patrulhar toda a linha de defesa da muralha, o que dava aproximadamente 180 m. Se algum lugar precisasse deles, para lá eles iriam.

Quanto aos explosivos, eles foram mantidos sob máxima proteção próximo ao armazém. Para manter a segurança de todos, a pólvora era armazenada em seus três componentes e só iriam ser misturados na muralha da vila, e somente quando necessário. Afinal, se o pó detonasse no momento errado, o dano auto infligido seria ainda maior do que o dano das bestas demoníacas. Os dentes das bestas demoníacas podem ser capazes de esmagar o cimento, mas se a pólvora detonar, toda a muralha seria destruída.

Até agora, Roland tinha realizado dois testes, ambos já com os explosivos. Graças a estes dois testes, a milícia pôde ouvir os rugidos altos das explosões e já não estavam tão assustados a ponto de largarem suas armas e correrem para longe. A outra vantagem é que, quando os defensores descobriram que o Príncipe possuía tais armas incríveis em suas mãos, o moral da equipe de repente começou a subir rapidamente.

— Vossa Alteza — Barov apertou o colarinho —, nós já gastamos a maior parte da renda de minério na última metade do mês, por isso, se os Meses dos Demônios realmente vierem quando os astrólogos previram, temo que o estoque de alimento que temos não irá durar até o fim do inverno.

— Então eu preciso que você encha os cofres novamente. — Roland disse, sem hesitação — Faça outro acordo com Vila do Salgueiro e não somente um. O primeiro motor a vapor já foi transportado para a mina e o cascalho do colapso já foi completamente limpo. Durante todo o inverno, nós ainda poderemos obter um pouco de rendimento das minas. Pedras brutas possuem uma demanda especial. Não foque no preço. Em vez disso, tente vender o mais rápido possível para conseguirmos armazenar o máximo de trigo e carne que for possível.

Barov assentiu.

— Eu vou dar as ordens imediatamente, Vossa Alteza. É que …

Vendo o olhar hesitante no rosto de seu ministro adjunto, Roland certamente entendeu o que ele queria dizer.

— Não se preocupe, eu já deixei um barco atracado. Se a linha de defesa for quebrada, eu vou deixar a vila imediatamente.

— Excelente ouvir isso, Vossa Alteza. — Barov disse, aliviado.

Roland sorriu para ele.

— Você pode ir. Afinal, você já tem muita coisa para fazer. E eu preciso encontrar alguém.

Após Barov sair, o Príncipe lentamente subiu os degraus de uma torre de vigia. Este lugar estava no centro da muralha da vila e era seu ponto mais alto. Desta torre ele conseguia observar toda a linha de frente, partes da floresta e as colinas próximas. O vento soprava muito forte nessa altura, mas Roland não se importava. Somente nesta plataforma alta e aberta ele conseguia se acalmar e esquecer a próxima guerra.

— Você mentiu para ele — alguém próximo a ele de repente disse — você não pretende deixar esta vila.

— A vida já é tão difícil, manter alguns segredos, às vezes é bom para todos.

— Você está falando bobagem e não entende mesmo a situação. Se você acha que um príncipe tem dificuldades, então o que você pensa de nós? — Rouxinol emergiu da névoa — Mesmo se você não se tornar um rei, você ainda precisa encarar os cinco anos da luta pelo trono, porque você é uma das partes principais. Comparado a se preocupar com tais assuntos sem importância, você deveria acompanhar Anna mais de perto. Eu tenho medo … que ela não tenha muito tempo.

Por um momento Roland permaneceu em silêncio.

— Eu não acho que ela vai morrer durante os Meses dos Demônios.

— Por quê?

— Ela disse que vai vencer a tortura do diabo[1] — ele parou por um segundo —, e eu acredito nela.

— Você realmente acredita no que uma bruxa diz — Rouxinol balançou a cabeça —, mas estamos amaldiçoadas pelo demônio.

— Você está? Bem, eu também acredito em você.

Brian estava vestindo suas roupas civis e estava em pé na frente do túmulo de Galgo.

Ele acariciou delicadamente a superfície da lápide nova. Era uma pedra branca pura e em sua superfície estavam gravadas as palavras: Em memória de um dos heróis silenciosos de Vila Fronteiriça.

— Galgo, eu já realizei meu maior sonho. No final dos Meses dos Demônios, Sua Alteza, o 4º Príncipe vai realizar a cerimônia de consagração para mim. Mas, eu não quero ficar sentado esperando minha consagração. Minhas feridas já estão curadas, então a muralha da vila é o lugar onde eu deveria estar. Os Meses dos Demônios estão próximos e as bestas demoníacas podem ser forte, mas elas terão que passar agora pela linha de defesa da milícia, e não serão mais capazes de avançar. Além disso, vou assumir sua parte na defesa da vila e brandir a minha espada em seu nome. E tem mais. Seu assassino ainda está vivo …, mas ele não vai viver muito mais tempo. Sua Alteza já prometeu isso para mim. A próxima vez que eu vir te visitar, eu vou trazer uma boa notícia.

Brian inclinou-se e colocou um buquê de flores na lápide.

— Então, adeus, meu amigo.

— Irmã Anna, você está com medo? — Nana, que estava deitada na cama de Anna, perguntou.

— Com medo de quê?

— Da tortura do diabo que teremos que enfrentar neste inverno. Eu me tornei uma bruxa no outono desse ano, por isso vai ser a primeira vez que eu vou enfrentar essa coisa …

— Bem, por ser a primeira vez — Anna pensou —, vai doer tanto, que em alguns momentos você vai querer desistir de suportar e vai desejar morrer para acabar com o sofrimento.

— Ahhh! — Nana começou a gritar de choque, mas imediatamente cobriu a boca.

— Mas você vai sobreviver, assim como eu.

— Eu não sei … — Nana sussurrou —, eu não sou como você, tão forte e não tem medo de nada.

— Eu não sou tão forte assim — Anna disse enquanto fechava os olhos. Em sua mente, veio a cena em que ela conheceu Roland pela primeira vez. Lá embaixo no calabouço frio e escuro, Roland cobriu o corpo de Anna com suas próprias roupas. Ele suavemente disse que iria contratá-la e até hoje, ela ainda tinha arrepios ao lembrar isso. — Às vezes você vai encontrar situações ou coisas que vão fazer você ter a vontade de viver, mesmo que você precise lutar muito para sobreviver.

— Hum … por exemplo?

— Por exemplo, a carne marinada no molho de soja — Anna suspirou — como eu poderia saber o que você sonha? Ah!

Vendo que Nana estava totalmente focada nela, Anna limpou o rosto com a mão.

— O que você está olhando? Tem alguma coisa no meu rosto?

— Não … — Nana balançou a cabeça — Eu só fiquei um pouco surpresa, você nunca falou tanto comigo… irmã Anna, a cara que você fez quando fechou os olhos e pensou sobre o passado, ai, você ficou tão linda.

Anna revirou os olhos, pulou da cama e foi até a janela.

Nana seguiu logo atrás dela.

— O que você está olhando, você quer fugir para a floresta?

— A floresta é ao oeste — Anna respondeu toda animada —, daqui você só pode ver o Rio Vermelho.

— Irmã Anna, olha lá! — Nana apontou para o céu.

Anna ficou surpresa e rapidamente abriu a janela. Uma onda de vento misturado com pequenos flocos de neve entrou no quarto.

Ela estendeu a mão, pegando um floco de neve que parecia uma flor. Ela pôde sentir o frio do floco de neve em seus dedos.

— Está nevando.

Depois de um longo silêncio, Rouxinol começou a falar mais uma vez.

— Você realmente não mentiu.

— Claro — Roland riu — eu não tenho motivos para mentir.

Rouxinol não disse nada. Ela só inclinou a cabeça e um olhar desconhecido surgiu em seus olhos.

De repente, ela sentiu algo frio em seu pescoço e acabou se afastando com calafrios. Ela olhou para cima e percebeu que a neve começou a cair sem avisar. Sob o céu cinzento, parecia haver um número incontável de flocos de neve. Os flocos de neve estavam dançando ao vento, voando por todo o lugar, acompanhado pelos gritos da milícia.

… os Meses dos Demônios tinham começado.


 

 

[1] Você pode conferir de novo, se esqueceu, aqui no Capítulo 20.

Deodoro
Tradutor nas horas vagas. Só joga no hard.
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