LAB – Capítulo 160 – 3Lobos

LAB – Capítulo 160

Confronto

Roland estava pensando sobre as munições para as armas de fogo de repetição. Balas de chumbo esféricas e pólvora sem qualquer substância para ignição, era um arranjo simplesmente ultrapassado. Levando em consideração a capacidade de Anna, a fabricação de invólucros de cobre para munição era tecnicamente viável. A principal preocupação de Roland era que ele ainda não possuía uma substância segura para ser o iniciador dentro do invólucro da munição para, assim, disparar a bala.[1]

Nos primórdios, para se carregar uma cápsula explosiva, ou seja, a munição, primeiro se colocava um pouco de pólvora pela culatra, depois empurrava a bala por cima, fechando a parte de trás com uma coifa de fulminato de mercúrio, que agia como iniciador da ignição. Quando alguém puxava o gatilho, um pino de disparo seria movido e acertaria a parte de trás da bala, como um martelo. Como o fulminato de mercúrio é um explosivo bastante sensível à fricção e ao impacto, este impacto faria o fulminato explodir e iniciar a ignição da pólvora, causando uma explosão controlada dentro do invólucro de cobre, expelindo a bala para fora.

É lamentável que, mesmo depois de quebrar a cabeça sobre isso, Roland ainda não conseguia lembrar as matérias-primas necessárias para a fabricação do fulminato de mercúrio. Partindo da reação direta, ele iria precisar de ácido nítrico e mercúrio. Entretanto, sempre que ele olhava para a equação química que ele acabara de escrever com o produto da reação de duas substâncias, parecia que somente produziria ácido nítrico e nada mais.

Além disso, ele sabia que não era tão simples, pois as matérias primas poderiam produzir esse resultado na teoria, mas na prática exigiria muitos testes. Roland ainda teria que descobrir a concentração correta dos reagentes e a temperatura para o processo ocorrer, além disso, talvez ele ainda precisaria de um catalizador para reação ocorrer como o esperado. Ainda, por causa das propriedades sensíveis do mercúrio, era muito fácil provocar uma explosão se fosse manuseado de forma incorreta. Se caso ele explodisse alguma coisa, ele poderia perder facilmente os dedos, e esta era uma das razões pela qual Roland não queria fazer estes testes.

Logo, Roland não teve alternativa senão se contentar com a segunda melhor opção, usando invólucros de metal, mas mantendo a ignição antiga feita de pederneira. Esse tipo de ignição exigia que uma pequena fagulha entrasse dentro do invólucro para acender a pólvora. Então, ele tinha que deixar um buraco no fundo do invólucro e tentar descobrir um jeito para a pólvora não vazar.

Obviamente, estes dois pontos eram contraditórios um com o outro. Se o buraco fosse pequeno, a pólvora não vazaria, mas seria difícil para a faísca acender a pólvora. Se o buraco fosse grande, a faísca entraria facilmente, mas também seria mais fácil para a pólvora vazar.

Ele precisava de algo que permitisse que a faísca inflamasse a pólvora, e ao mesmo tempo bloqueasse o buraco para evitar que a pólvora vazasse. O primeiro pensamento de Roland foi a nitrocelulose, também conhecido como algodão-pólvora. Era um dos poucos produtos químicos que ele ainda se lembrava que poderiam ser usados ​​para armas de fogo, porque tinha um método de fabricação muito simples. Primeiro, ele precisaria de algodão e dois ácidos fortes, respectivamente o ácido nítrico e o ácido sulfúrico. Ambos estes ácidos seriam fáceis de se obter e sua fabricação não envolvia muitos problemas. Uma vez tendo estes três materiais, era necessário embebecer o algodão nestes dois ácidos. Mesmo que Roland quisesse esperar um alquimista chegar, e ele tinha esperanças de que chegaria em breve, ele só tinha sete dias! Era hora de arregaçar as mangas e começar a trabalhar.

Pegando a pena, Roland começou a escrever sua ideia de longa data sobre um pergaminho.

O primeiro ingrediente que ele precisava era de algodão, e o melhor algodão era aquele que não ainda não foi tecido ou tingido. Foi exatamente este tipo de que ele trouxe com ele a partir de sua visita ao castelo do Duque Ryan, e agora também estava bem guardado em seu armazém. Mas antes de tudo, Roland precisava retirar o óleo do algodão, pois se o algodão ainda tivesse sua oleosidade natural, isso impediria a nitrificação. Ele já estava familiarizado com o material responsável por tirar essa oleosidade, que era o hidróxido de sódio, também conhecido como soda cáustica. Esta era também uma das matérias-primas para fazer sabão.

Para produzir sabão, primeiro se adiciona gordura na soda cáustica, e, em seguida, deve-se mexer até ficar uma pasta bem grossa, deixando descansar até ficar sólido. Depois disso ele pode ser usado como sabão. Mas Roland estava sempre muito ocupado desenvolvendo tecnologia industrial e agrícola, além de tecnologias para defender Vila Fronteiriça contra os inimigos estrangeiros. Ele não teve nenhum tempo disponível para fabricar este tipo de utensílio diário.

Quanto à forma de preparar hidróxido de sódio, o método mais simples era provavelmente a eletrolisação da água salgada. Então, o Príncipe descobriu que, a fim de construir uma nova bala, a primeira coisa que ele precisava desenvolver era um gerador de corrente contínua.

Cinzas caminhava pelo Rio Vermelho, sentindo-se um pouco deprimida. Assim que as outras bruxas descobriram que ela tinha vindo até Vila Fronteiriça para levá-las embora, as bruxas já não tratavam ela com tanta cordialidade assim. Não havia mais aquele calor que ela tinha recibo na noite anterior.

Além disso, ela observou que a maioria das bruxas praticava sua habilidade no quintal do castelo. Roland também tinha encontrado a solução para evitar a tortura do diabo. Originalmente, Cinzas queria usar esta informação vital para mostrar a boa vontade dela para com as bruxas, mas o plano foi por água abaixo logo no início. Ela já não tinha quase nada para persuadir as bruxas a ir embora com ela.

O que mais surpreendeu Cinzas foi Roland Wimbledon. Sua aparência não mudou muito, mas havia um temperamento indescritível em seus gestos, muito diferente de sua imagem anterior como um boêmio.

Como essa mudança aconteceu? Antes ele sempre foi inconsequente. — Cinzas pensou —Sempre que ele estava em apuros, a primeira coisa que ele fazia, com certeza era escapar. Ele nunca se preocupou com outras pessoas e até mesmo os problemas que ele mesmo causava, ele fazia de tudo para culpar outras pessoas, pois tinha medo de assumir qualquer responsabilidade. Naquela época, quando ele tentou me assediar, eu só precisei olhar com ódio para ele e pronto, ele já caiu no chão assustado. Eu lembro que mais tarde, ouvi de Tilly que ele falou para todo mundo que caiu por acidente, e que a Princesa Tilly era culpada por ter uma guarda pessoal tão feia.

Desde então, a impressão que Cinzas tinha do Príncipe Roland caiu para a menor classificação possível.

Antes de vir para vila, Cinzas acreditava que seria muito fácil lidar com essa pessoa, mas durante a negociação de hoje ela não conseguiu nenhuma vantagem. Especialmente depois que ele sugeriu um duelo de um contra um, ela percebeu que sua ameaça de usar a força não iria funcionar, uma vez que ele não tinha pensado em fugir. Talvez, ameaçar o Príncipe poderia ter o efeito oposto, pois as impressões das outras bruxas sobre Cinzas poderiam cair ainda mais.

Cinzas suspirou. Se ela pudesse ser tão inteligente quanto Tilly, cada problema que aparecesse diante dela poderia ser facilmente resolvido. Se Tilly estivesse em uma situação como esta, ela certamente teria sido capaz de chegar a uma solução, certo? Se ela não estivesse disposta a ajudar Tilly o tanto quanto fosse possível, Cinzas já teria pego o próximo navio para o Porto de Água Clara e deixado o Reino de Castelo Cinza o mais rápido possível.

Inconscientemente, ela percebeu que já estava fora da vila. Do outro lado do rio, não havia mais um campo de trigo exuberante, mas uma floresta vasta e viçosa.

Quando Cinzas estava pronta para voltar, ela sentiu de repente uma flutuação de poder mágico por trás dela. Subconscientemente ela virou a cabeça e viu uma adaga vindo diretamente em seu rosto, voando horizontalmente. A flutuação de poder mágico tinha transformado em ondas poderosas, e Cinzas repente sentiu uma dor penetrante em sua bochecha. As habilidades excepcionais e o movimento lógico e sistemático desse ataque, revelava que não era advindo de uma pessoa comum. Cinzas não hesitou. Deixando de lado sua atitude passiva, ela se concentrou em evitar a adaga. Ela colocou toda a sua força em um pé e saltou para fora do caminho traçado pela adaga.

Seu oponente desapareceu no ar, e então apareceu atrás dela em um piscar de olhos. Cinzas foi totalmente incapaz de acompanhar o movimento de seu oponente.

Ela sacou sua espada-larga e girou rapidamente, criando um pequeno redemoinho e fazendo poeira subir no ar. O ataque que ela desferiu não possuía ponto cego e era perfeitamente capaz de lidar com qualquer tipo de ameaça, mas a realidade provou o contrário. Em um combate com essa pessoa, seu ataque total acabou se tornando uma falha vergonhosa. Quando sua espada-larga passou pelo local onde o inimigo estava anteriormente, ela acabou acertando o nada.

Que terrível! — Cinzas pensou. Cada músculo em seu corpo ficou tenso e ela estava pronta para encarar a próxima rodada de ataques, mas, em seguida, a sombra desapareceu na frente dela. A poeira baixou lentamente, e a pessoa apareceu novamente perto de Cinzas, brincando com a adaga que tinha em sua mão.

Era Rouxinol.

— Isto é um aviso? — Cinzas perguntou, franzindo a testa.

— Claro que não. — Rouxinol disse, colocando a adaga de volta em sua cintura — Eu só queria ver a força de uma Extraordinária.

— Sério? Eu pensei que você iria dizer…

— Você acha que eu iria forçá-la a sair Vila Fronteiriça tão rapidamente, ou até mesmo seria rude com você? — Rouxinol interrompeu — Se eu agisse assim, não haveria nenhuma diferença entre Kara e eu.

Kara? Por que ela mencionou a ex-líder da Associação Cooperativas das Bruxas? — Cinzas estava confusa.

— Você pode ter certeza que eu não vou impedir você de se aproximar de qualquer uma das minhas irmãs. Se alguma delas estiver disposta a ir embora com você, eu não acho que Sua Alteza Real irá impedir. Certamente eu não impedirei. Mas … — Rouxinol fez uma pausa —Se você ameaçar ferir Sua Alteza, eu garanto que da próxima vez eu não vou atacar o vento de novo.

Então ela sorriu e, em seguida, desapareceu no ar.

— Aproveite o seu tempo aqui em Vila Fronteiriça.

Com certeza, foi um aviso. — Cinzas balançou a cabeça.


 

 

[1] Você pode ver a anatomia de uma bala neste link.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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