LAB – Capítulo 151 – 3Lobos

LAB – Capítulo 151

Negociação (Parte 1)

Depois de visitar o motor a vapor, Roland e Margaret voltaram para o escritório no castelo e continuaram a discutir os detalhes do contrato comercial. Se tal discussão envolvesse a negociação em si de preços, poderia demorar um ou dois dias. Inclusive, para diminuir o estresse, o Lorde geralmente confiava ao seu tesoureiro a negociação, ao mesmo tempo em que este deixava claro os limites de gastos e investimentos. Mas desta vez, Margaret insistiu que o preço não era negociável, o que deixou Roland muito satisfeito e economizou muito tempo e esforço.

— Acredito que estarei novamente aqui daqui a um mês, com três embarcações cheias de salitre. — Margaret, a comerciante, disse enquanto anotava rapidamente os detalhes em um pergaminho — Calculado por noventa por cento do preço de mercado, vale cerca de trezentos e quinze peças de ouro.

— Até lá, Vila Fronteiriça deverá ter fabricado dois motores a vapor. — Roland baixou o número deliberadamente — Eles valem mil peças de ouro. Você pode pagar a diferença de preço com peças de ouro ou outros produtos.

— Quais produtos, Vossa Alteza?

— Ferro, cobre, chumbo, vitríolo verde[1] —Roland disse —, nada além de minerais comuns. Mas, para os três primeiros itens, o que eu preciso não são minerais, mas lingotes[2]. Além disso, eu também preciso de dez conjuntos de taças de cristais transparentes. Na verdade, não precisam ser exatamente taças, podem ser vasos, copos normais, taças de vinho, o importante é que sejam os melhores produtos da oficina alquímica da Cidade Real de Castelo Cinza. Se o preço destes conjuntos for superior ao preço dos dois motores a vapor, posso pagar em peças de ouro ou deduzir do valor a ser pago nos dois motores a vapor no próximo mês.

— Parece que o senhor está me tratando como sua comerciante exclusiva. — Margaret disse com um sorriso largo — Embora eu não esteja envolvida no gerenciamento de minas, eu conheço alguns colegas que estão nesta linha de negócios. O que me surpreende é o fato de haver tantas oportunidades nesta área isolada e estéril. Por exemplo, não existem muitos nobres aqui em Vila Fronteiriça, mas seu consumo de salitre já é altíssimo. A vila foi estabelecida por causa da mina da encosta norte, mas ainda precisa terceirizar minas. Tudo o que está acontecendo aqui realmente contradiz meu conhecimento comum. Vossa Alteza, todo o seu território é notável.

Uma das principais características da produção industrial é o grande consumo de matérias-primas para a produção. Roland cruzou as mãos e disse:

— Esta vila precisará de muito mais matérias-primas no futuro. Eu acho que podemos ter um contrato a longo…

Naquele momento, Margaret de repente olhou surpresa atrás de Roland com os olhos arregalados. Roland ficou assustado e depois se virou inconscientemente. Ele então viu Raio, que estava encharcada e pingando, parada ao lado de fora da janela francesa. Suas mãos estavam contra o vidro, seu rosto pálido, e seus cabelos estavam em sua testa escorrendo água. Parecia que ela tinha acabado de sair de uma lagoa.

Roland apressadamente levantou-se e abriu a janela. Raio entrou e se jogou nos braços de Roland. Nesse ponto, ela foi capaz de conseguir relaxar, ela liberou a tensão e descansou totalmente seu corpo nos braços Roland, desmaiando logo em seguida.

— Rouxinol, vá buscar Nana. — Roland disse ansioso.

— Sim, senhor. — Uma resposta veio do seu lado sem que ninguém estivesse à vista.

O que será que pode ter acontecido? Já que ela é capaz de voar, ela não deveria ter encontrado bestas demoníacas ou até mesmo demônios. Será que eles também podem voar? — Roland avaliou a condição física de Raio e não encontrou nenhuma lesão óbvia. Ele ficou um pouco aliviado.

— Vossa Alteza, ela é… a menina que o senhor mencionou, Raio? — Colocando uma mão em sua boca, Margaret caminhou lentamente até o Príncipe e examinou cuidadosamente a menina em seus braços.

Maldição! Como eu esqueci dela? — Roland ficou assustado e gritou em direção à porta:

— Sean!

O guarda entrou no escritório.

— Sinto muito, senhorita Margaret. Não tenho escolha senão mantê-la aqui por algum tempo. — Segurando Raio em seus braços, Roland se levantou e disse ao guarda — Leve esta comerciante da Cidade Real de Castelo Cinza para o quarto de hóspedes no primeiro andar. Fique atento e acompanhe ela. Não deixe que ela saia sem meu consentimento.

— Sim senhor!

— O quê? Não, Vossa Alteza… espere um momento. — Margaret de repente percebeu algo — Eu não guardo rancor das bruxas. Além disso, ela é filha do Trovão. Eu não direi nada à Igreja…

— Isso é apenas por precaução. — Roland a interrompeu — Mais tarde eu voltarei a vê-la para verificarmos a verdade.

— Vossa Alteza, ela acordou. — Rouxinol abriu a porta e disse.

Roland assentiu com a cabeça. Acompanhando Rouxinol, ele entrou no quarto. As roupas molhadas de Raio já estavam enchendo de água o balde ao lado. Um grupo de bruxas estava em volta a cama. Wendy sentou na cabeceira da cama penteando os cabelos de Raio. Seu cabelo ainda estava molhado, mas seu rosto já não estava pálido. Raio estava inclinada ao lado da cama com dois travesseiros nas costas. A colcha foi puxada tão alta que apenas a metade superior do rosto estava à mostra. Ela olhava fixamente para Roland.

— Como ela está?

— Sem ferimentos. Foi um trauma causado pelo esgotamento de seu poder mágico. — Rouxinol respondeu — Depois que Wendy ajudou ela a se trocar e se limpar, Raio acordou na cama.

Roland caminhou até a cabeceira e disse com um sorriso:

— O que aconteceu? Por que você voltou com tanta pressa na chuva?

— Encontrei a ruína. — Raio murmurou — Mas os demônios estavam lá dentro!

Todos no quarto ficaram assustados ao ouvir isso.

— Você entrou lá? — Pergaminho perguntou.

— Não. — Raio balançou a cabeça e começou a contar toda a história — Um demônio estava guardando a porta. Ouvi alguém lá dentro pedir ajuda, mas fiquei tão assustada que não tive como salvá-la, e acabei fugindo sozinha. — Ela encolheu ligeiramente a cabeça na colcha — Será que posso ser qualificada ainda para ser uma exploradora?

— Claro que sim, você fez bem. — Roland a consolou — Uma excelente exploradora entende que precisa agir de acordo com a situação, sem se colocar em perigo. Já que você não conseguia salvá-la, escapar era a sua melhor escolha.

— Então tem uma bruxa na torre de pedra? — Wendy perguntou — Se não for uma bruxa, ninguém mais poderia chegar tão profundamente na Floresta Oculta.

— As bruxas também não vão para lá. — Pergaminho balançou a cabeça — Estamos falando de uma ruína de quatrocentos e cinquenta anos. Sem a orientação de um mapa, localizar a torre de pedra entre as inúmeras árvores é tão difícil quanto subir ao céu. A menos que…

— A menos que? — Roland perguntou.

— A menos que ela tenha vivido lá este tempo todo. — Pergaminho respondeu lentamente.

— Você quer dizer que ela não foi explorar lá sozinha, mas que vive na torre há quatrocentos e cinquenta anos? Que as bruxas vivem lá sozinhas, geração após geração? — Mesmo sem dizer explicitamente, o Príncipe começou a negar esta especulação.

Isso significaria viver em uma floresta primitiva! — Roland pensou — Cheia de animais silvestres, insetos horríveis e plantas tóxicas, sem uma fonte segura e estável de alimentos… nem Bear Grylls[3] poderia viver nesse lugar por muito tempo. Neste mundo, o inverno dura meses e neva muito, além de ter feras e bestas demoníacas correndo soltas na floresta. Viver na Floresta Oculta basicamente significa cometer suicídio.

Roland olhou para Raio e perguntou:

— Havia algum vestígio de pessoas que viviam perto das ruínas?

— Não. — A menina disse enquanto balançava a cabeça.

— Talvez haja mais de um mapa. — Soraya disse — Talvez existem outras pessoas que buscam o paradeiro de Taquila como nós.

— De toda forma, nós não podemos ajudá-los. — Ramos suspirou — Exceto Raio, ninguém pode chegar rapidamente à torre de pedra.

— Receio que não saberemos a situação atual até irmos lá. — Roland pôs a mão no queixo como se tivesse pensando e continuou — De qualquer forma é muito bom saber que você voltou sã e salva. A aula desta noite será cancelada. Vamos ter um bom descanso que a verdade será revelada quando for a hora de colhê-la.

Depois de deixar o quarto de Raio, Roland disse a Rouxinol:

— Temos mais um problema para resolver.

— Basta pedir para ela tirar a Pedra da Retaliação Divina — Rouxinol disse com um sorriso —, que eu faço o resto.


 

 

[1] Como vocês bem se lembram, Roland trabalhava como engenheiro em um departamento estratégico do governo. Então, é comum ele saber muitas coisas sobre armamentos em geral. O sulfato ferroso, também conhecido como vitríolo verde, era utilizado antigamente para a produção de ácido sulfúrico, que também tinha o nome de óleo vitríolo. Tudo isso com a ideia de conseguir fabricar o fulminato de mercúrio, visto no capítulo 129 e 141.

[2] Estes metais geralmente são encontrados em minerais. No caso, Roland está especificando que não quer um mineral que contenha ferro, por exemplo, ele já quer o ferro purificado em lingotes, ou barras, como conhecemos aqui também.

[3] Roland está pensando em um famoso apresentador do programa À prova de Tudo.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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