LAB – Capítulo 113 – 3Lobos

LAB – Capítulo 113

Aviso

Desde o fim dos Meses dos Demônios, choveu apenas por dois dias no Oeste. Todos os outros dias foram dias de sol e, aparentemente, esta era uma compensação por toda a neve durante o inverno. O cheiro de mofo e o ar bolorento no escritório também tinha sido levado embora, tornando-se fresco e limpo como a natureza, e quando Roland abria as janelas, ele podia sentir, de vez em quando, a doce fragrância perfumada da primavera.

Neste momento, a estrada entre Vila Fronteiriça e Forte Cancioneiro estava quase restaurada para sua qualidade anterior. Mas a cada dia que se passava, Roland estava particularmente mais preocupado com o assunto pendente com a fortaleza.

Todos os anos, após a restauração da estrada e do fluxo de pessoas, haveria também comerciantes que chegariam em Vila Fronteiriça vendendo seus produtos frescos, mas até hoje ele ainda não viu nenhum vendedor de Forte Cancioneiro. Raio estava voando duas vezes por dia até Forte Cancioneiro, para garantir que eles tivessem um aviso suficientemente rápido e se preparassem com antecedência para a chegada do inimigo.

Na semana passada, o Primeiro Exército entrou no estágio de exercícios abrangentes, que incluía o estabelecimento da linha de defesa para receber o ataque de um inimigo e também o treinamento para perseguir e atacar. Quanto à linha de defesa, eles dependiam fortemente de Raio para sempre informá-los da distância entre eles e o inimigo. Dessa forma, as Equipes de Fuzileiros e de Artilharia[1] disparariam de acordo com suas ordens, tornando o processo muito mais fácil, seja dando ordens ou seguindo elas. Por exemplo, os artilheiros disparariam projéteis sólidos quando o inimigo estiver entre 800 m a 500, ou metralhas[2] quando o inimigo estiver a 300 m. Da mesma forma, e os fuzileiros disparariam suas pistolas de pederneiras quando o inimigo estiver a 50 m, e assim por diante. Enquanto eles vissem Raio levantar a bandeira correspondente, o líder da equipe daria o sinal à sua equipe para atacar.

A chave para a vitória no campo de batalha estava na fase de perseguição e ataque. De acordo com o plano de Roland, quando o inimigo for derrotado, eles dariam meia volta e bateriam em retirada para Forte Cancioneiro, necessitando de três dias para chegar no forte. Mesmo que o Duque fuja por conta própria, deixando sua milícia e os mercenários contratados para trás, ele ainda precisaria de dois dias de viagem, então, ele teria que ficar por pelo menos uma noite na floresta.

Isso daria ao Primeiro Exército a oportunidade perfeita para persegui-los. Todo o processo de monitoramento seria feito por Raio, enquanto o Primeiro Exército sempre estaria fora do alcance do inimigo, mas pronto para se recuperar a qualquer momento. A artilharia e as munições seriam transportadas pelos civis da cidade. Quando o inimigo estabelecesse seu acampamento noturno, essa seria a hora de o Primeiro Exército cercá-los completamente, e ao amanhecer do dia seguinte, eles começariam o ataque, aniquilando completamente o inimigo.

Mesmo que o plano não parecesse complicado, era quase impossível coordenar as duas tropas devido à ausência de dispositivos de comunicação modernos. Roland só poderia confiar essa tarefa às bruxas, o que compensava a falta de comunicação. Como tudo isso acabaria, mesmo ele não tinha certeza.

Outro ponto crítico era que suas reservas de pólvora estavam baixas, por isso, o Primeiro Exército não conseguia usar munições de verdade durante seus exercícios. No entanto, o principal objetivo do treinamento era aumentar a colaboração entre Fuzileiros e Artilharia, bem como a coordenação entre o Primeiro Exército e as bruxas. Roland enviou pessoas para ir adiante no Rio Vermelho até a Serra do Dragão Caído e a Cidade Carmesim, na esperança de encontrar novas fontes de salitre.

Se eu não conseguir reabastecer minhas reservas de pólvora, receio que após duas batalhas, o Primeiro Exército terá que parar de usar as pistolas e usar somente lanças. — Roland pensou.

Roland escreveu uma série de itens que ele tinha que adquirir em um papel, que incluía salitre, grãos, sementes e outros suprimentos, pretendendo enviar um aprendiz de Barov para a Cidade Real de Castelo Cinza e tentar a sorte. Esse lugar tinha mercadoria suficiente, especialmente, tinha salitre suficiente. Com o verão se aproximando, o Rei certamente já teria começado a reunir salitre[3] até o dia de hoje. Como uma cidade cheia de aristocratas e comerciantes ricos, quando o clima começasse a ficar quente, o consumo de salitre se tornaria assombroso. Por isso, Roland esperava encontrar um fornecedor estável que pudesse fornecer à Vila Fronteiriça um fluxo estável de matérias-primas necessárias para produzir pólvora.

Antes disso, ele já havia enviado dois dos seus guardas pessoais, um para implementar o plano chamado ‘Reunir Bruxas’ e outro para trabalhar no programa ‘Encontrar Frutos’.

O guarda do primeiro programa se passaria por viajante ou comerciante e espalharia rumores nas ruas, becos, bares e outros lugares, de que em Vila Fronteiriça existia um refúgio seguro para bruxas. Claro, ele não diria que o anfitrião deste refúgio era o 4º Príncipe, mas sim, que a Associação Cooperativa das Bruxas encontrou a Montanha Sagrada e agora estava recrutando novas bruxas.

O outro guarda iria diretamente até o Porto de Água Clara e compraria algumas sementes de plantas peculiares de Fiordes, que fica do outro lado do oceano. Claro, se ele encontrasse alguma semente diferente em qualquer uma das cidades durante a viagem, ele também compraria.

Tendo terminado com sua lista de compras, Roland entregou para Pergaminho, pedindo a ela para ir até a Câmara Municipal e entregar a lista a Barov. Depois disso, Roland se esticou e foi pegar um copo d’água, apenas para descobrir que a xícara estava vazia. Roland estava prestes a se levantar para tirar a chaleira do fogo, mas Rouxinol já estava trazendo a chaleira. Estando bastante sorridente, ela encheu a xícara e colocou a chaleira de volta no fogo.

Roland tomou um pouco de chá enquanto tentava pensar no que teria acontecido para fazer Rouxinol sorrir assim. Recentemente, Rouxinol estava um pouco afastada.  Mas nos últimos dias, ela sempre estava com um sorriso no rosto e, ainda mais, agora estava tendo a inciativa de servir chá.

Será que ela secretamente quer um aumento em seu salário? Anteriormente, ela só sentava no sofá enquanto segurava um prato cheio de peixe seco e passava toda a tarde comendo. — Roland pensou.

Embora Roland já tivesse perguntado a Rouxinol se tinha acontecido alguma coisa, ela apenas riu e se recusou a responder, então, ele não perguntou mais nada.

Será que jogar Gwent deixa as pessoas tão felizes assim? Mais tarde, quando eu ‘inventar’ o Pôquer e o Mahjong, eu poderia simplesmente abrir um cassino, e o dinheiro entraria por conta própria … Não, já chega. — Roland balançou a cabeça, tentando jogar esse pensamento para longe.

Agora não era o momento para buscar o prazer, ele ainda tinha que considerar o que faria após sair vitorioso na batalha contra Forte Cancioneiro.

Será que devo mudar meu escritório para Forte Cancioneiro? — Roland considerou este ponto por um longo tempo.

Mudar para uma terra mais próspera parece ser bastante tentador, mas na verdade não seria uma escolha muito boa. Forte Cancioneiro tinha cem anos a mais de história do que Vila Fronteiriça, então existiam muitas forças lutando pelo poder agora, enquanto os outros nobres também possuíam muito poder em suas terras.

O território foi todo assistido e supervisionado pelo princípio de dividir e conquistar, e mesmo que fosse o Lorde de Forte Cancioneiro, seria difícil lidar com assuntos nos territórios de seus subordinados. No caso de Roland querer todo esse poder para si mesmo, seria muito difícil de conseguir sem causar uma revolução. Mais que isso, era um território onde peixes e dragões estavam todos misturados em conjunto, de modo que sua própria segurança também não poderia ser garantida. Ele não queria andar nas ruas temendo que um aristocrata radical tentasse um assassinato a qualquer momento.

Por outro lado, Vila Fronteiriça era completamente diferente. Nestas terras, Roland sempre teria a última palavra. O território ao redor da vila era vasto, então ele não estava em uma necessidade urgente de expandir seu território. A maioria das pessoas eram mineiros ou caçadores, ou todas do mesmo nível social, e com o sucesso que ele conquistou durante os Meses dos Demônios, sua reputação entre as pessoas aumentou muito. Mais importante ainda, após a integração do Primeiro Exército e sua propaganda, a maioria das pessoas aceitou a existência das bruxas. Comparado a Forte Cancioneiro ou outras cidades onde a Igreja tinha muita influência, Vila Fronteiriça estava muito mais fácil de se transformar no abrigo seguro das bruxas. Portanto, Roland decidiu usar Vila Fronteiriça como sua área central.

Quanto ao forte, ele decidiu deixar outros gerenciá-lo em seu nome e que ele só estaria lá para prestar apoio à distância. Afinal, desde que lhe proporcionassem um fluxo constante de força de trabalho, bem como pagando impostos, Roland ficaria satisfeito. O que ele precisava agora eram pessoas e dinheiro.

Então, a ideia de Roland sobre Forte Cancioneiro era tornar o Forte um fornecedor de moedas e pessoas para a construção contínua de Vila Fronteiriça. Assim, as peças de ouro dos nobres derrotados retornariam às mãos dos plebeus, que depois as usariam nos mercados de Forte Cancioneiro, de onde ele recuperaria o dinheiro sob a forma de impostos. Além disso, talvez ele pudesse, através de uma série de políticas preferenciais, convencer algumas pessoas com habilidades especiais para permanecer a longo prazo em Vila Fronteiriça.

Mas tudo isto ainda eram apenas alguns planos. Coisas como quem administraria Forte Cancioneiro em seu lugar, ou as especificidades do sistema de tributação, teriam que esperar até o final da batalha.

Neste momento, uma figura em amarelo de repente voou pela janela apenas para parar ao lado da mesa do príncipe. Essa figura era Raio.

— Você trabalhou bastante, beba alguma coisa primeiro. — Roland pegou sua xícara e entregou a ela.

Ela pegou a xícara, mas não bebeu, apenas gritou:

— Vossa Alteza, eles estão vindo!


 

 

[1] Aqui estaremos padronizando os termos novamente. A Equipe de Fuzileiros e a Equipe de Artilharia. Os fuzileiros possuem as pistolas de pederneiras, enquanto os artilheiros são os que atiram com canhões.

[2] Metralhas são um tipo especial de munição usada em canhões, constituída de várias pequenas esferas de metal ou pedras. Quando o inimigo estiver muito longe, o canhão irá atirar os projéteis sólidos, aquelas esferas maciças de ferro. Quando o inimigo se aproximar, o canhão irá atirar metralhas, dessa forma, o inimigo será alvejado por uma chuva de projéteis menores, a uma velocidade rápida o suficiente para atravessar o corpo de um ser humano ou cavalo e ainda continuar sua trajetória.

[3] No mundo em que Roland está ainda é muito difícil conseguir sal marinho, então, o salitre é uma especiaria muito utilizada. Seja na agricultura ou na alimentação, o salitre ainda é utilizado para fazer o ‘pó de neve’, como é chamada a pólvora no mundo de Roland.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
FONTE
Cores: