LAB – Capítulo 108 – 3Lobos

LAB – Capítulo 108

Eco (Parte 1)

Os Meses dos Demônios já haviam terminado há duas semanas e a neve finalmente estava se transformando em riachos que corriam para o Rio Vermelho.

A paisagem impecavelmente branca desaparecia lentamente, e as árvores de ambos os lados começaram a brotar de novo, tornando-se verdes novamente.

A terra ao leste de Vila Fronteiriça era a terra que Anna já havia limpado, cortando as árvores e derretendo a neve, e por isso ela já havia sido transformada por Sua Alteza no campo temporário de treinamento para o Primeiro Exército.

No campo de treinamento, Carter estava segurando uma pistola de pederneira e verificando se a baioneta estava encaixada de forma segura.

Esta era a mais nova invenção de Sua Alteza, mas em comparação com a máquina que trabalhava automaticamente e o pó de neve modificado[1], esta nova invenção parecia ser um pouco … simples demais. No momento em que Carter pegou pela primeira vez a arma nova em suas mãos, ele soube quase que imediatamente que não era uma arma qualificada.

Em suma, era apenas um triângulo de ferro afiado, com a linha média como a base, que tinha duas pequenas peças de ferro apontando para baixo. Embora tivesse uma ponta afiada, era absolutamente impossível cortar com esta arma, pois a lâmina era muito curta, e se tivesse que dobrar, ela iria quebrar instantaneamente. Fora que ele não fazia ideia de como usar a outra ponta que era da grossura de um dedo. Mesmo que ele fosse capaz de atacar um inimigo, se tentasse cortar horizontalmente, Carter não poderia afirmar com certeza que ele seria capaz de cortar ao menos suas roupas.

Esta arma tinha apenas um uso: esfaquear. E antes que ela pudesse ser usada, ainda precisava ser conectada à pistola de pederneira. Usada por si só, até uma adaga seria uma arma melhor.

Aos olhos do Cavaleiro, era totalmente desqualificada para ser usada como uma arma e um grande desperdício de ferro para criar uma arma com apenas um tipo de ataque. Se um ferreiro dentro de seu território tivesse se atrevido a criar uma arma desse tipo, Carter teria amarrado o homem e dado uma bela surra.

Mas, mesmo que fosse uma arma tão ruim, Carter ainda podia ver a originalidade de Sua Alteza e sua paixão por todos os detalhes. Por exemplo, o projeto para a conexão entre a pistola de pederneira e a baioneta. A boca do tambor tinha dois sulcos com um ângulo reto na extremidade e desde que as duas pequenas peças de ferro na baioneta fossem encaixadas nos sulcos e girasse até a metade, a baioneta ficaria fixa. Graças a este conceito, os sulcos e as peças de ferro não precisariam se encaixar perfeitamente, pois se estivessem um pouco frouxas, o soldado poderia apenas inserir alguns pedaços de papel entre as duas peças de ferro e os sulcos, e depois girar a baioneta para ver se estava bem encaixada. No caso de não terem papel, as folhas das árvores também serviriam muito bem.

— Encaixem a baioneta na pistola!

Quando eles ouviram a palavra-chave, a Equipe de Fuzileiros tirou a baioneta de suas bolsas e encaixou nos tambores de suas pistolas. Até agora, eles só conseguiram produzir quarenta das novas armas e suas bolsas de apoio. Então, o soldado que não recebeu uma baioneta teve que colocar uma vara curta em suas pistolas.

Como este tipo de exercício foi feito quase durante toda a manhã, agora, a maioria dos soldados só precisava ajustar a baioneta duas ou três vezes até que estivesse encaixada firmemente. De acordo com as palavras de Sua Alteza, a baioneta só deveria ser usada como último recurso. Ele não queria que seus homens começassem um ataque de combate corpo-a-corpo sozinhos com a baioneta. Carter discordava dessa afirmação, pois, se um homem não perfurar o inimigo com uma arma, ele ainda seria considerado uma criança. Estes mineiros e caçadores só se transformariam em soldados de fato, após derramarem seu primeiro sangue de seus inimigos.

Machado de Ferro também estava entre as fileiras dos soldados em treinamento. Embora ele tenha afirmado anteriormente que não era apenas um caçador, Carter poderia afirmar que, com toda a certeza, Machado de Ferro tinha recebido um treinamento de combate especial anteriormente. Suas habilidades não ficavam para trás das habilidades de qualquer outro Cavaleiro.

Sua Alteza Real pediu a Carter para ensinar os soldados a usar a nova arma corretamente. Tendo recebido esse pedido, Carter se sentiu um pouco preocupado. A baioneta era uma espécie de arma que ele nunca tinha visto antes, por isso, ele não poderia afirmar com absoluta certeza de que era capaz de usá-la.

Entretanto, após ver o protótipo, Carter ficou bastante confiante mais uma vez, afinal, a baioneta não era senão o equivalente a uma lança curta. Além disso, devido à sua lâmina especial, era muito mais fácil de usar do que o pique.

Devido ao exclusivo design de sua lâmina, o método de treinamento da baioneta também se tornou muito especial. Eles não precisavam aprender a atacar de baixo para cima, na diagonal, bloquear, desviar e outros movimentos com a baioneta, eles só precisavam treinar um único movimento de ataque frontal, que era esfaquear. Então, o Cavaleiro deixou todos os soldados se alinharem e começou a ensinar a eles o método mais adequado para esfaquear: colocar um pé na frente do outro, dobrar os joelhos e movimentar os braços para a frente com toda a força.

Este tipo de método de treinamento repetitivo era extremamente chato. Então, Carter ficou surpreso com o fato de que todos estavam completando os exercícios de forma tão meticulosa. Antes do inverno, eles ainda eram um grupo de civis fracos e preguiçosos, mas agora eles se comportavam como um grupo decente de soldados em treinamento. Quando Carter gritava um comando, eles imediatamente agiam, e ele precisava reconhecer que eles ainda colocavam mais esforços no treinamento do que os escudeiros que ele havia treinado anteriormente. Claro, se Carter desse uma espada a estes soldados, ou dizendo isso com as palavras de Sua Alteza Real, se Carter desse a estes soldados ‘armas frias’, ele ainda seria capaz de derrotá-los com uma vareta em três golpes. Mas em relação à força de vontade destes soldados, seu progresso já era digno de reconhecimento.

Depois de uma hora de treinamento, Carter deixou a Equipe de Fuzileiros se sentar e fazer uma pausa. Neste momento, Sua Alteza Real, o Príncipe, também apareceu no campo de treinamento, seguido por uma mulher que estava usando um capuz. Isso não surpreendeu o Cavaleiro. Anteriormente, no início do treinamento, Sua Alteza Real já havia informado Carter com antecedência que, durante a prática de hoje, eles seriam assistidos por uma bruxa. No entanto, Carter não sabia que a bruxa era tão alta.

Se meus olhos não estiverem me traindo, ela parece ser tão alta quanto Sua Alteza. Entretanto, ela ainda é requintada e bonita. — Carter pensou.

Então Carter voltou sua atenção e pediu aos soldados para se levantarem, ordenando-os para cumprimentar o 4º Príncipe com uma saudação.

— Vossa Alteza! — Os soldados gritaram e levantaram as mãos.

— Obrigado pelo seu empenho! —  Roland assentiu, recebendo a saudação dos soldados.

Em seguida, Roland continuou caminhando, pois, sua intenção era conversar com Carter a sós. Mas neste momento, um soldado de repente se precipitou na direção do Príncipe. Descobrindo isto Carter franziu a testa, colocou a mão no punho de sua espada e deu um passo à frente, deixando o Príncipe atrás de si. Rouxinol reagiu ainda mais rápida, pois, sua mão saiu da névoa e agarrou o braço de Roland. Se a situação se desenrolasse para o pior, ela seria capaz de puxar o Príncipe para a névoa.

Mas então, eles descobriram que a pessoa correndo em direção a Roland era, na verdade, Machado de Ferro.

E ainda mais, ele não correu em direção ao Príncipe, mas sim para a bruxa desconhecida, imediatamente caindo de joelhos na frente dela. Não era um joelho, como de costume no Reino de Castelo Cinza, não, ele jogou todo o seu corpo no chão, com a cabeça profundamente enterrada entre os braços, gritando:

— Líder! Minha Líder do Clã!

Com isso, o treinamento da Equipe de Fuzileiros terminou abruptamente.

— Primeiro me diga, o que está acontecendo.

De volta ao castelo, Carter, Eco e Machado de Ferro estavam em uma fileira, enquanto Roland estava sentado na posição do Lorde perguntando, claramente insatisfeito.

— Disciplina, você sempre deve manter a disciplina! Esta é uma das regras mais importantes dentro da milícia e agora no exército, também deve ter a mesma disciplina de ferro! E mesmo se você ver o Líder do seu Clã, mesmo que você visse o Rei, você não deveria mover nem um dedo fora de sua formação. Este é o único requisito, e sempre haverá tempo para relatar mais tarde.

Desde o início, Roland teve uma boa impressão de Machado de Ferro, mas com a ação de hoje, ele só podia suspirar. Então, após analisar a situação, Roland entendeu que a cultura já estabelecida internamente não conseguia acompanhar os talentos práticos de Machado de Ferro. Ele claramente não entendera o significado da palavra disciplina.

— Vossa Alteza Real. — Machado de Ferro não conseguiu esperar por mais tempo.

Ele queria se ajoelhar, mostrando seu arrependimento. Mas quando ele já estava quase encostando o joelho no chão, ele foi parado por Roland.

— Dê um passo à frente, fique de pé e diga.

— Sim. — Machado de Ferro engoliu nervosamente um bocado de saliva e depois começou a falar — Eu cresci na Cidade da Areia de Ferro e prometi minha lealdade e devoção ao Clã Bravareia e à nova Líder do Clã, Lua Argêntea.

— Não, Kabago[2], eu não sou a Líder do Clã … — Eco rapidamente discordou.

— Não, não, você é! — Machado de Ferro retrucou — Seu pai e seu irmão já morreram e de acordo com o costume dos Bravareia, você se tornou a Líder do Clã do nosso Clã Bravareia após a morte deles. Quando eu ouvi dizer que você foi vendida para o Porto de Água Clara, eu imediatamente fui lá, mas não consegui encontrar você, pensei que você tinha … morrido.

— Mas eu …

Roland interrompeu Eco.

— Um de cada vez. Primeiro vamos deixar Machado de Ferro terminar sua história.

— Eu vou obedecer ao senhor até o fim da minha vida, Vossa Alteza.

A história não era complicada. Roland conseguiu compreender a ideia geral do que aconteceu.

Originalmente, Eco era um membro do Clã Bravareia da Cidade da Areia de Ferro. Seu nome anterior era Lua Argêntea, e seu pai tinha sido o Líder do Clã do Clã Bravareia.

O povo da Nação da Areia não tinha uma vida fácil. A Cidade da Areia de Ferro só conseguia acomodar uma população limitada, então, a cada três anos, cada Clã tinha que participar de um duelo sagrado, e os seis Clãs que ganhassem, receberiam o direito de viver na cidade, enquanto os outros Clãs eram banidos para fora da cidade, ou postos juntos no Mar Verde. Esses lugares eram locais perigosos para viver, embora oferecessem água, mas as bestas demoníacas e as tempestades de areia eram uma grande ameaça constante para o povo desta Nação. Assim, a cada duelo sagrado, os guerreiros de vários Clãs não poupariam esforços para vencer.


 

 

[1] Lembrando que é como os alquimistas de Castelo Cinza chamam a pólvora. Você pode conferir no capítulo 33.

[2] E este é o nome verdadeiro de Machado de Ferro.

JZanin
Professor de Química, mestre e jogador de RPG sem tempo.
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