DCC – Capítulo 99 – 3Lobos

DCC – Capítulo 99

Fazendo compras

 

Assim que eu me separei de Isaac, eu corri para o meu apartamento e comecei a catalogar todas as informações que eu tinha passado a tarde reunindo. Amelie estava sentada num canto brincando com um cubo mágico tentando calcular sozinha quais os algoritmos para montar as cores corretamente.

Eu não conseguia organizar corretamente as coisas que eu estava investigando e as pessoas que eram suspeitas. Tudo o que eu sabia era que o ponto de partida era um cara chamado Esdras Portos. Para que eu pudesse levantar todas as informações sobre as vidas desses caras, eu precisava também poder armazenar essas informações e poder usá-las como provas.

Eu ainda tinha que resolver o problema de como eu iria tirar as informações de dentro da Sabedoria, mas por enquanto, o teste com os totens tinha me dado uma ideia. Eu podia simplesmente roubar as informações que eu precisava. Eu poderia ter todas as informações que eu precisasse pra isso. Todos os dados, senhas e informações pessoais de todos estavam em minhas mãos. Eu só precisava de um computador melhor pra fazer essa operação dar certo.

Pela segunda vez na minha vida, eu me sentei na frente do espelho e comecei a me maquiar como se eu fosse uma Jomon. Eu tinha roupas e joias suficientes para “passar despercebida” como uma bem metida a besta. Então eu me arrumei do jeito mais chique que consegui imaginar, me cobri com uma capa e saí. Ninguém podia me ver por enquanto.

O melhor lugar onde eu poderia conseguir o que eu precisava era justamente no Distrito Violeta. Andando por lá, mesmo com toda aquela roupa extravagante, eu não estava nada chamativa comparada ao restante dos nobres que perambulavam de um lado para o outro com seus queixos levantados e seus egos inflados.

A melhor loja de eletrônicos da academia ficava no Distrito Violeta. Porém, era uma loja exclusiva para nobres. Eu tinha dado uma pesquisada rápida no melhor dispositivo que poderia dar conta do que que eu precisava fazer, sem deixar rastros, e eu poderia conseguir facilmente.

— Por aqui, madame! Em que posso ajudar? — um senhor prestativo fez uma reverência exagerada assim que eu atravessei a porta. O layout da loja era completamente diferente de qualquer outra loja de eletrônicos. Sequer parecia com uma loja qualquer. Mais parecia com um belíssimo salão de visitas perfeitamente decorado para receber convidados ilustres.

— Meu marido trabalha em um centro de pesquisa, e ele faz uso de um console pessoal bastante avançado, que permite a ele fazer simulações em tempo real, — eu comecei a explicar. — Eu estou procurando por aparelhos que sejam capazes de fazer esse tipo de simulação.

Isso iria ser difícil. Eu não queria deixar rastros até as meninas, então eu não podia deixar meu nome por aqui. Por isso eu tinha que fazer parecer que eu não sabia o que eu queria. Se eu chegasse pedindo diretamente pelo melhor console dele, já especificando as configurações, ele provavelmente acharia suspeito se eu pedisse segredo.

— Eu não sei se entendi seu requerimento… — o senhor disse com simpatia enquanto servia uma travessa de doces finos.

Eu comecei a construir rapidamente uma história na minha cabeça.

— Meu marido é muito atarefado. E ele faz pesquisas muito importantes. Eu não sei ainda como isso funciona, mas parece que às vezes acontece de gente de fora querer roubar a pesquisa dele. O que você tem de mais avançado para impedir isso?

— Ah, claro… temos os melhores hardwares e softwares preparados para lidar contra tentativas de invasões externas. Se quiser solicitar algo personalizado, estaremos mais do que satisfeitos em preparar algo que esteja de acordo com as especificações do seu marido.

— Maravilhoso! — eu disse com a voz mais enjoada possível e provando um dos docinhos.

— A madame tem ideia das configurações que quer para o dispositivo? — ele perguntou mostrando uma planilha de combinações de processadores, drivers, memórias, discos…

— Oh… como eu posso escolher qual a melhor configuração? — eu perguntei tentando parecer perdida.

— Vai depender do objetivo pretendido para o console.

— Qual foi o melhor modelo personalizado que você já vendou? — eu perguntei tentando parecer que essa seria a linha de raciocínio lógica.

O vendedor exibiu no display um pequeno console com uma excelente configuração, feito para controlar o tráfego aéreo de um planeta particular inteiro. Era realmente uma máquina e tanto. Mas eu queria um pouco mais.

— Isso é capaz de… de… — eu fingi esquecer a palavra que queria — renderizar! Isso… renderizar os dados das simulações que forem feitas?

— Bem… — o vendedor fez mais alguns cálculos no display dele, — acredito que se acrescentarmos algumas camadas de placas de vídeo, deva ser suficiente para satisfazer as necessidades do seu…

— Então coloque tantas quantas puder! — eu disse como se fosse qualquer coisa.

O vendedor me olhou como se eu estivesse louca, mas é claro que ele não me contradisse. Desde que eu pagasse e fosse possível, ele não iria achar ruim. Provavelmente ele só estaria achando que seria um desperdício e que nenhum trabalho exigiria tanto assim de um console.

— Sobre a capacidade, também, que seja melhor que esse último que vendeu. O que puder melhorar, pode melhorar, não importa o quanto custe. E principalmente. Deve ser o mais seguro possível. E o mais importante: ninguém deve ser capaz de roubar as pesquisas.

— Claro madame! — ele começou imediatamente a preparar uma proposta para um excelente console. — Caso não seja muito incômodo, posso perguntar quem seria o marido da madame?

— É mesmo necessário saber? — eu disse, deixando claro que era um problema.

— Bom, caso faça questão de guardar segredo, não há problema nenhum. Mas já que o marido da madame é um pesquisador renomado, então ele deve ser conhecido entre a nobreza, para tanto, é mais fácil para mim preparar uma proposta que atenda melhor as necessidades dele.

Eu fingi pensar um pouco no assunto.

— Não, não… desde que possa me oferecer a melhor e mais segura ferramenta, será o suficiente.

Ele finalizou o projeto e me mostrou o display com a proposta. Iria ser um excelente console. Eu não poderia dar conta de retirar diretamente as informações da Sabedoria, mas ele tinha uma capacidade de processamento muito mais cabulosa do que vários planetoides. Com ele eu poderia facilmente invadir qualquer sistema que eu quisesse sem deixar rastros.

— Eu acho que é suficiente. Vou querer quatro.

O vendedor me olhou por um momento como se eu fosse gritar a qualquer momento que era brincadeira.

— Apenas um desses é suficiente para controlar todos os sistemas internos de um planeta inteiro madame, e a senhora quer ordenar quatro?

— Sim! Tem algum problema se forem quatro?

Ele limpou a garganta em choque.

— N-não… nenhum problema. Quando gostaria de receber sua encomenda? — ele voltou a perguntar.

— Hoje mesmo. Eu tenho um tempo sobrando, então ficarei esperando até estarem prontos, — eu disse como se fosse algo simples.

O vendedor engoliu em seco.

— Mas madame… algo assim…

Pra evitar mais discussões eu simplesmente mostrei meu brasão dourado para ele. O vendedor simplesmente congelou no ato. Até mesmo ele tinha esquecido de respirar. Ele apenas olhava para o brasão como se nunca tivesse visto nada tão magnífico ou assustador durante toda a vida.

— Então… já posso confirmar a compra?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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