DCC – Capítulo 95 – 3Lobos

DCC – Capítulo 95

Hacker

 

Alesia Latrell:


Isaac me devolveu Amelie algumas horas depois. Ele não confessava, mas ela também era uma excelente válvula de escape para ele que não tinha muita gente com quem conversar e podia livremente ser ele mesmo. No dia seguinte, a primeira aula era de Mentalização. Nem Briane e nem Isabel saíram pra assistir.

O desenvolvimento de um artista mágico estava no quanto uma pessoa conseguia aprender e dominar essa técnica. Isso era sempre deixado bem claro. O professor Theo Yuri gesticulava no ar enquanto imagens eram projetadas holograficamente pelo sistema de projetores da sala de aula.

Minha cabeça girava desatenta pensando nos caras que haviam atacado Briane. Também havia o cara que tinha me reconhecido. Eu não tinha decidido ainda o que ia fazer a respeito dele e nem tinha contado a Henry. Ele ficaria furioso se soubesse e com certeza iria atrás do panaca sozinho, mas eu queria pôr as mãos nele eu mesma e lidar com isso devagar.

Então eu parei de prestar atenção na palestra do professor sobre nomenclaturas clássicas para feitiços comuns e comecei a investigar os dados das minhas futuras “vítimas”. Cedo ou tarde isso deveria ser feito de qualquer forma. Porém minha prioridade no momento era vigiar se alguém faria algum movimento contra Briane ou alguma de nós depois de tentarmos fazer uma denúncia na noite anterior.

Henry e eu não alertamos as meninas para não deixarmos elas mais alarmadas ainda, mas era bem provável que assim que os canalhas se dessem conta que o feitiço de obliquação demorou pra funcionar ao ponto de deixar testemunhas, eles talvez despachariam alguém para lidar com a gente, e era minha função monitorar os passos deles para prevenir casualidades. Com as habilidades de Henry, no segundo em que eu soubesse que algo estivesse pra acontecer, eu o comunicaria e ele se teleportaria imediatamente pra onde quer que fosse.

A beleza da Relíquia da Sabedoria é que eu poderia acessar simplesmente os arquivos de qualquer dispositivo eletrônico de qualquer instância na galáxia apenas pensando na existência deles. Não existia firewall que imperia o meu acesso, nem sequer se os arquivos tivessem sido apagados e os hardwares destruídos sem chance de restauração. Meu único problema nesse caso era que eu não tinha como converter nenhum desses dados em dados reais. Eles eram projetados diretamente na minha mente como se eu tivesse visto em algum lugar. Não tinha como utilizar isso como prova de qualquer coisa,. Há não ser que eu usasse outro dispositivo para baixar os dados com os acessos de segurança que eu obtivesse diretamente dos dispositivos dos proprietários, em outro aparelho, não havia nada que eu pudesse fazer por enquanto pra conseguir encrencar esses caras.

Então para começar eu separei todos os arquivos públicos através do meu Link que dissessem respeito às pessoas que eu estava procurando. Na hora em que eu estava falando com dona Magna no dia anterior, ela recebeu uma ligação de um cara chamado Esdras Portos. Ele estava de olho nos passos de Briane apenas no caso de algo ter dado errado. Quando chegamos no Centro Administrativo para fazer a denúncia, ele fez uso de algumas conexões que ele já tinha com a dona Magna pra se livrar do “problema”.

Acabei descobrindo que dona Magna era apenas uma ponta de uma enorme teia de conexões proscritas de gente de dentro “da lei” apenas pra fazer vista grossa perante os nobres antes mesmo que eles chegassem nas mãos dos Inquisidores.

Tecnicamente os Inquisidores iriam expurgar qualquer um que cometesse um crime justamente. Eu tinha acabado de ver uma falha gigantesca nesse sistema. Os inquisidores iriam sim julgar justamente todos os criminosos que encontrassem, mas eles precisavam encontrar os criminosos.

Se a maioria esmagadora da população não tinha a habilidade de desenvolver poderes oniscientes e confiavam apenas nas aparências de que ninguém deve mentir e que ninguém deve ser desonesto, então era tudo uma questão de não ser pêgo.

Não era a toa que a grande maioria da população não tinha a habilidade de desenvolver onisciência. A humanidade estava podre por dentro, escondendo suas malditas falsidades, mentiras, cinismos e hipocrisias.

— Está tudo bem? — Isaac me perguntou baixinho me tirando brevemente do meu devaneio enraivecido.

— … que? Sim… por que? — eu olhei ao redor e a turma parecia um pouco alarmada sussurrando uns para os outros. Isaac mesmo estava abraçando o próprio corpo tremendo de frio enquanto a respiração pesada estava visível diante dele. — Céus! Desculpa… eu me distraí com uns pensamentos… — eu sussurrei de volta pra ele.

O restante da turma estava mais ou menos na mesma situação tremendo convulsivamente. Em minha raiva, eu tinha perdido o controle da Criação e roubado sem querer todo o calor da sala. O professor me lançou um olhar rápido como se pra confirmar que eu tinha “voltado pra casa”.

— Muito bem, vamos todos ficar calmos. Tenho certeza que foi apenas uma pane rápida no aquecimento. — Ele tentou contornar a situação — Daqui a pouco o sistema volta a prestar atenção no próprio trabalho e tudo volta ao normal.

Ai. Essa eu mereci. Ele não podia chamar minha atenção sobre a Relíquia na frente de todo mundo, mas ele com certeza sabia que eu não estava prestando atenção na aula.

— Você tem que tomar cuidado com esses pensamentos intensos em público! — Isaac sussurrou de volta pra mim. O sistema levaria um tempo para realinhar a temperatura da sala, então ele esfregava com força os braços pra tentar se aquecer mais rápido.

— Sim, me desculpe. — eu disse, me encolhendo na cadeira. Eu tinha perdido completamente a minha linha de pensamento.

Droga, mesmo que eu tivesse acesso a maior biblioteca do universo, eu estava me perdendo nisso aqui. Era um trabalho vão se eu não pudesse organizar os dados que eu fosse coletando. Eu tinha que fazer algumas preparações. Se eu estava utilizando a Sabedoria como um grande programa de computador. Eu precisava de um computador.

Um super console que desse conta de captar todo o fluxo de informações que eu estava afim de usar. Eu precisava de uma tecnologia que me permitisse transformar minhas ondas cerebrais em dados computáveis. Minhas memórias em imagens, áudios e dados registráveis. Ao ponto de eu poder remover diretamente da minha mente toda a informação que eu estava captando da Relíquia da Sabedoria.

Assim, eu poderia monitorar, catalogar e registrar todos os passos desses cretinos corruptos que abusaram de Briane, de todos os outros que faziam uso das crisálidas obliterantes e de todos os que davam suporte pras suas atividades ilegais.

Parece que meu novo objetivo agora era aprender a ser uma hacker.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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