DCC – Capítulo 94 – 3Lobos

DCC – Capítulo 94

Pedindo Favores

 

Eu senti meu corpo ficar tenso e a temperatura ao meu redor baixou significativamente após as palavras de Henry. As crisálidas obliterantes foram o principal alicerce do plano ardiloso que Emil e Louie tinham tramado contra nós. Não fosse pela ideia prévia de Henry de fazer a mãe assistir à cena inteira pelos olhos dele, eu provavelmente teria saído como culpada. Principalmente se Henry tivesse morrido.

A principal vítima disso tudo tinha sido Amelie, que tinha que recomeçar tudo do zero. Ela tinha perdido tudo. Tudo o que amou, aprendeu, viveu, gostou, sentiu… tudo foi esquecido por conta da maldita crisálida que Emil usou nela.

Feitiços de obliquação eram um tipo muito singular de antítese. Eles não funcionavam como as outras magias “naturais”. Eu sabia, pois eu mesma era uma obliterante. Mas eu não era capaz de alcançar as memórias que foram trancadas na mente de Amelie. Talvez apenas o obliterante que tinha conjurado tal feitiço fosse capaz. E olhe lá. Caso contrário, poderia dar um novo entendimento pro ditado de “trancar e jogar a chave fora”.

— O que é uma crisálida obliterante? — Briane perguntou.

— Vocês já se perguntaram qual foi a natureza do acidente que apagou as memórias de Amelie? — eu disse olhando para a mesa bagunçada onde todos estávamos. As meninas ficaram caladas respirando pesadamente aguardando — Ela foi sequestrada por uns caras pra ser usada como falsa testemunha depois que alterassem a memória dela. Mas o plano deles deu errado e eles fugiram com a crisálida. Deixaram ela pra trás com as memórias trancadas. Ela simplesmente nunca mais pode viver a vida como antes.

— Que cruel! — Michelly exclamou levando as mãos à boca.

— Enquanto houver gente com acesso a esse tipo de magia proibida, vão haver crimes cada vez mais hediondos. O de Briane e o de Amelie são apenas os que temos notícias… — Henry disse.

— Sim, mas… nos envolvermos nisso não vai ser perigoso? — Márcia perguntou encolhida.

— É realmente bastante arriscado Henry… — eu disse preocupada.

— Quanto a isso eu tenho um pequeno plano que pode funcionar para mantê-las a salvo. Vou precisar de um tempo para preparar. Mas enquanto isso, eu vou cuidar pessoalmente para que vocês não sejam envolvidas em nenhum problema.

As meninas realmente ficaram bastante animadas ao ouvirem isso. Não era todo dia que recebia promessas de segurança de uma das pessoas mais influentes da galáxia.

— Eu vou atrás desses idiotas até o fim do mundo nem que tenha que apostar tudo o que eu tiver na vida por isso. Eu ainda acredito no sistema. Essas aberrações obliterantes não vão se safar. Quem quer que esteja por trás desse negócio de vender essas crisálidas com propósitos malignos vai pagar muito caro. — Isabel disse com um leve vigor, apesar de ainda estar severamente abalada.

Márcia se espantou com a súbita demonstração de isabel, mas não se deixou ficar para trás.

— Se é assim, pode contar comigo também. Qualquer um desses malucos que quer comprar dessas crisálidas para encobrir uma fachada de bom cidadão vai ter a cara jogada na sarjeta.

— Eu vou com a minha irmã — Michelly engoliu em seco e disse visivelmente assustada, mas com firmeza.

Faltava Briane. Ela ainda olhava para baixo e às vezes lançava um olhar perdido e envergonhado para Henry. Ela parecia estar tomando uma decisão bem séria em sua cabeça.

— Por que não? — Ela disse simplesmente.

Eu olhei para Briane. Esse não era o tipo de resposta que ela normalmente daria para esse tipo de situação.

— Muito bem. Então eu irei começar a fazer os arranjos necessários para vocês. Entrarei em contato em breve. — Henry disse e desapareceu do lugar ali mesmo na mesa deixando as meninas impressionadas e cheias de perguntas. Seria uma caça às bruxas. Mas pelo menos agora eu poderia fazer alguma coisa a respeito dessa situação com todas as minhas amigas.

E sobre aqueles imbecis que mecheram com Briane. As quatro não precisavam participar da retaliação…

 

Cásira Kairoh:


Por um momento louco eu pensei que tinha errado entendido errado, mas então eu permiti a conexão e o meu Link pessoal projetou na minha frente a imagem perfeita de outra pessoa, como se ele estivesse bem ali na minha frente.

— E não é que é mesmo você! Há que devo a honra?

— Preciso de um favor.

Urg. Direto ao ponto como sempre. Emendei minha voz melosa de veludo de novo e continuei suavemente:

— Henry, modos! Por favor, você está falando com uma dama! Ao menos pergunte como estou.

Henry revirou os olhos e me olhou como se meu comportamento fosse absurdo.

— Corte essa pra quem te conhece. Já lhe disse que não precisa ser uma dama comigo.

— Mas eu ainda sou uma mulher de negócios agora, não uma  garotinha espirituosa. Eu sempre devo me comportar como uma dama.

— Eu ainda preciso de um favor. — ele me cortou direto pro assunto de novo.

Eu levantei uma das minhas sobrancelhas. Isso era intrigante. Henry apesar de sempre ter sido direto, nunca foi tão… direto. Ele costumava trocar mais palavras comigo. Algo tinha mudado nesse maluco. Ha ha. Se ele não ia facilitar, eu ia deixar as coisas interessantes.

— É claro que precisa. — Estufei o peito, baixei o queixo, mudei levemente meu tom de voz, para um pouco mais grave. Não era mais tão aveludado e agudo, mas bem mais grave e sexy. Então eu virei de costas e fui para a minha poltrona, caminhando exageradamente devagar dando ênfase às minhas curvas e me virei e sem perder o contato visual fiz um arco bem exagerado e firme ao cruzar as pernas. — Do que precisa?

Dessa vez era Henry quem estava com as sobrancelhas arqueadas.

— Você é o demônio. — ele disse ligeiramente chocado.

— Foi você quem pediu para que eu agisse como o meu verdadeiro eu.

— Você foi sempre assim? — Ele disse ligeiramente confuso coçando a cabeça como se estivesse tentando lembrar — Ah, é mesmo. Sim, era pior! — Então ele riu.

— Como está sua garota, bundão? — eu perguntei levemente inclinada pra frente. Essa era a melhor postura para valorizar um bom decote.

— Progredindo assustadoramente. — ele disse orgulhoso. Eu revirei os olhos. Ele era muito bobo quando estava apaixonado. — Eu preciso de projetos base de crisálidas.

Ual.

— Esse é o favor? — Eu realmente não estava esperando por isso.

— Sim. Desde que você trabalha como representante comercial da maior fábrica de crisálidas da galáxia, então eu espero que você possa me arranjar os projetos base. — Henry disse.

Bem direto ao ponto como sempre.

Os projetos base eram a raíz da empresa. De onde todas as crisálidas eram desenvolvidas para depois serem produzidas. Haviam dois segmentos da empresa: O primeiro recrutava artistas mágicos que preenchiam as crisálidas com diversos feitiços nas mais diversas potências para então vendê-las e o segundo vendia as crisálidas vazias para os artistas mágicos da galáxia que a preencheriam com os feitiços para uso próprio.

A empresa para a qual eu trabalhava era simplesmente a maior do mercado e Henry me pedir os projetos base era o mesmo que ele pedir toda a fundação, corpo e alma que sustentava a nossa vida empresarial. Eu limpei a garganta levemente e minha voz foi para um terceiro tom, que seria um tom “normal”.

— Posso perguntar porque? — Henry ela louco de pedra. Mas se ele estava vindo me fazer um pedido tão absurdo ele deveria ter uma justificativa ao menos igualmente absurda, porém aceitável.

— Eu encontrei crisálidas obliterantes. — Henry disse. Simplesmente.

— Desculpa, o que? — eu perguntei. Eu não devia ter escutado direito. a conexão deveria ter falhado em algum momento.

— Crisálidas com feitiços de obliquação. Já esbarrei com dois casos. — Henry repetiu.

Eu o olhei em branco por um bom tempo antes de reorganizar os meus pensamentos para a grandeza dessa informação.

— E você acha que temos algo a ver com isso? — perguntei.

— É claro que não. Mas há uma grande chance de um de seus projetistas ter. Eu quero ver os projetos base da empresa e testar o processo de engenharia reversa neles. Quero descobrir qual ou quais modelos foram comprometidos e se a falha que permitiu que os feitiços de obliquação fossem aplicados nas crisálidas foi proposital ou acidental. E se isso tiver acontecido nessa era. Eu vou caçar esse projetista, nem que tenha que revirar todo halo da galáxia.

Ele realmente parecia bem decidido quanto ao que fazer. Porém havia uma grande falha no plano dele.

— Como você iria conseguir completar a metodologia reversa sem testar o processo de aplicação dos feitiços de obliquação dentro dos protótipos? — eu perguntei.

— Eu tenho os meus meios. — ele disse cheio de confiança.

Ah, esse idiota! Vinha aqui, pedia um favor desse tamanho, largava uma bomba dessas e ainda guardava segredos. Francamente.

— Eu vou falar com o papai, tenho certeza de que ele vai…

— Não! Não conte nada para ele ainda! — Henry pediu.

— Por que infernos eu não deveria informar ao dono da empresa que eu vou levar uma cópia do tesouro mais precioso dele? E se isso for interceptado? — Eu disse quase frenética. Fazia muitos anos que não tinha perdido a compostura a esse nível.

— Por que ele trabalha diretamente com os projetistas! Se seu pai ficar sabendo que algum deles pode ser corrupto, o cretino vai estar um passo à nossa frente e fugir.

— Muito bem. Você tem minha atenção. Eu vou preparar os projetos base em segredo e vou levar até você assim que possível. Absolutamente ninguém pode saber disso.

A conexão foi encerrada e a imagem de Henry desapareceu da minha frente.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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