DCC – Capítulo 93 – 3Lobos

DCC – Capítulo 93

A proposta de Henry

 

— Vamos deixar as coisas por isso mesmo? — Isabel perguntou indignada.

— Isso é muito grave! Vocês duas tem certeza do que viram? — Márcia perguntou, ainda segurando Isabel.
Briane caminhava ao nosso lado chorando quietamente.

— Me desculpe não ter confirmado a sua denúncia Alésia… A pergunta dela foi bem específica. Mas… — Briane disse olhando para o chão. — Is-isso… isso realmente aconteceu? — Ela me olhou suplicante.

Eu podia sentir que ela acreditaria em mim não importa o que eu falasse. Mas ela desejava com todas as forças que eu falasse que não.

— Não, eu que tenho que me desculpar… A culpa foi minha. Eu não devia ter te deixado sozinha! — Eu a abracei enquanto me desculpava.

— Eu simplesmente não consigo lembrar de nada! — Briane disse aturdida.

— De certa forma, é melhor assim… — Isabel comentou voltando a ficar com o rosto perigosamente verde. — Eu mesma queria esquecer isso.

— Mas eu sempre pensei que apagar memórias fosse impossível! — Márcia disse, afastando Isabel com cuidado para o lado.

— Não, não é… só é extremamente raro… e proibido… — Briane disse enquanto novas lágrimas escorriam pelo rosto dela. — Eu pensei que todos os alunos que entrassem pra academia fossem examinados por um Inquisidor à procura de antíteses. Se eles deixaram um obliterante passar, isso vai ser uma ferida muito grande pra reputação do império.

— Eu ainda não paguei essa disciplina, então o que é antítese? — Márcia perguntou.

— Bom, explicando da maneira mais fácil, é um oposto. Todas as magias tem um oposto. O oposto da onisciência é a obliquação, o da onipotência se chama desídia, e o oposto da onipresença é a inubíquidade, — eu respondi por alto. — E não é impossível um obliterante entrar na academia. Os Inquisidores não investigam todo mundo. Por que eles investigariam os parentes nobres deles?

O rosto de Briane se contorceu mais ainda. Ela não gostava dos herdeiros dos nobres. E pelo visto, só apareciam mais e mais motivos para não gostar.

— De qualquer forma, o que faremos agora? Se aquela mulher do Posto Administrativo não acredita na gente, então não tem como denunciar! Sequer sabemos quem são os caras! — Isabel disse inconformada.

— Quanto a isso… Ela acreditou em nós. E ela sabe quem são os culpados e está acobertando eles, — eu disse.

— Que??? — as meninas perguntaram surpresas.

— Como assim? — Briane perguntou.

— Ela perguntou diretamente para você se você era capaz de confirmar as minhas palavras, lembra? — eu disse. Briane concordou com a cabeça.

— E o que que tem isso? — Márcia perguntou sem entender.

— Em nenhum momento eu falei que a vítima tinha sido Briane.

As meninas abriram a boca completamente abismadas como se eu tivesse mostrado uma montanha na frente dos olhos delas.

— Mas será que ela não é uma onisciente e sentiu que estávamos acompanhando a Briane? — Márcia questionou.

— Não, ela não é onisciente… — Briane disse — Ela não emanava nenhuma aura mágica. Mas se isso é verdade, então o sistema é falho! Pra quem vamos denunciar?

— Vamos pra casa… precisamos pensar, — eu disse por fim.

No meio do caminho, eu fiz uma chamada de voz para Isaac. Ele já havia saído do apartamento com Amélie e estava passeando com ela, então pelo menos o segredo dele ainda seria mantido esta noite.

Assim que abrimos a porta, Michelly estava parada, em pé no meio da sala, completamente imóvel, olhando nervosamente para a mesa, como se tivesse medo até de se aproximar.

— Ah, você já está aqui… — eu disse para Henry, que estava sentado elegantemente, tomando uma xícara de chá gelado.

— Olá, meninas, é um prazer finalmente conhecer vocês cara a cara! — ele disse educadamente se levantando e indo cumprimentar as outras. — Alésia fala muito de vocês. Uma pena que nossa apresentação esteja ocorrendo em tais circunstâncias.

Eu imagino que se os ânimos estivessem melhores, principalmente o de Briane, as reações fossem completamente diferentes. Elas ficaram completamente imóveis olhando para Henry enquanto faziam o que pareciam ser cálculos complexos na cabeça para finalmente deduzirem que o cara sentado no sofá do nosso apartamento era o Henry Siever, e que ele era o meu marido.

— Isso é realmente uma surpresa — Isabel disse com as pernas tremendo e a voz fraca.

— Uau! Isso é simplesmente… Uau! — Márcia exclamou chocada.

Briane abriu a boca várias vezes mas não conseguiu dizer nada. Michelly ainda estava parada no mesmo lugar como se estivesse com medo de se aproximar demais e invadir o espaço pessoal dele ou coisa assim.

— Meninas, por favor, vamos nos sentar. Precisamos decir o que fazer…

Briane se sentou pesadamente na cadeira da mesa de jantar onde os trabalhos das gêmeas ainda estavam espalhados, e disse cansada:

— Por que temos que ter todo esse esforço? Eu nem lembro do que aconteceu… Então é como se não tivesse acontecido.

— Não! Você não pode pensar assim! — Isabel brigou, voltando a derramar lágrimas. Eu não sabia que ela era tão sensível — Isso foi um crime! Um crime terrível! Você não se lembra, mas você sofreu!

— Eu posso ver a memória? — Henry perguntou.

— Não! — Briane disse de uma vez se levantando de novo e corando violentamente. — Quero dizer… Não há necessidade, não é? Já entramos em consenso sobre o que aconteceu…

Eu podia sentir a vergonha emanar dela. E eu estava cada vez com mais raiva. Aqueles malditos haviam se aproveitado da certeza da impunidade para fazer o que quisessem com ela. Mas iria ter volta. Ah se iria….

Henry olhou para mim pedindo calma. Ele podia mais do que ninguém sentir como estavam minhas emoções, então ele tomou a frente naquele momento:

— Então não tem problema. Se você não quer que eu veja, eu não verei. De qualquer forma, Alesia tinha interceptado uma comunicação entre um dos culpados e a recepcionista do Posto Administrativo.

— Como isso é possível? — Isabel perguntou.

— A forma mais fácil de explicar é dizendo que eu sou um andróide. Então além do meu Link pessoal, eu tenho um ou outro truque na manga, — eu disse.

O fato de eu ser um andróide não tinha nada a ver com a minha capacidade de interceptar comunicações e roubar dados — habilidade que eu devia inteiramente à Sabedoria — mas era suficiente para explicar para as meninas. Apesar de eu não me importar, nem todos os meus segredos precisavam ser postos na mesa.

— Uau! Então você usa óculos para disfarçar suas próteses por que é uma andróide e não por que ficou cega durante a vida! — Márcia exclamou.

— Isso… — eu concordei.

— Mas por que você teve que virar uma andróide? Foi o mesmo acidente que vitimou a Amelie? — Michelly perguntou.

— Enfim! — Henry chamou a atenção para ele de novo. — Estamos saíndo um pouco do tópico aqui. Eu imagino que vocês estejam interessadas em denunciar esses canalhas pelos crimes deles, mas eu tenho outra proposta.

— O que? — eu e Briane perguntamos intrigadas.

— Faz um tempo que estou intrigado com uma coisa e esses caras podem ser uma porta de entrada para desmascarar algo bem maior! — Henry disse com a voz bem mais grave.

— O que? — Dessa vez, todas nós perguntamos.

— O tráfico de crisálidas obliterantes.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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