DCC – Capítulo 92 – 3Lobos

DCC – Capítulo 92

Eu entendi

 

Márcia e Michelly correram para o nosso lado completamente em choque.

— O que vocês viram?

— O que aconteceu?

Elas perguntaram. Isabel já estava deitada no chão ao lado do próprio vômito enquanto chorava em pose fetal. Desde quando eu pude me adaptar ao frio mais facilmente estando sempre perto de Henry, eu nunca mais tinha ficado com os nervos tão à flor da pele e sentido meu corpo tremer tanto.

Briane, por outro lado, olhava para mim e Isabel com a mesma preocupação que Márcia e Michelly. Ela não entendia o que havia de errado. Ela não lembrava. Como ela podia simplesmente não lembrar? Foi nesse momento que uma chamada de voz soou pelo meu Link.

— Você está bem? O que aconteceu? Eu estou indo para ai agora mesmo…

Eu tinha me esquecido que Henry era informado sempre que alguma coisa acontecesse comigo. Nada tinha acontecido, mas eu definitivamente estava abalada. Isso não passaria despercebido pelos sensores de sei lá o que dele.

— Não… tudo bem, termine sua aula… — eu respondi lentamente. — Não aconteceu nada comigo. Parece que Briane… Briane foi…

Eu não consegui contar pra ele.

— Tem certeza que está tudo bem? A sua amiga está bem? Se precisar de alguma coisa, não é problema nenhum pra mim ir até onde você está! — Henry insistiu.

— Não, mais tarde nos vemos. Qualquer coisa, eu te chamo se precisar de você, — eu respondi, encerrando a ligação em seguida.

— Com quem você estava falando? Seu namorado? — Michelly me perguntou preocupada.

— Era seu marido? — Briane perguntou. — O que aconteceu de errado? Ele não teria ligado do nada se não tivesse sentido que algo errado tivesse acontecido com você.

Briane deliberadamente havia comentado na frente de todas sobre meu marido. Isso não era uma coisa que ela faria em seu estado normal.

— Você é casada? — Márcia perguntou confusa enquanto tentava por Isabel de pé.

— Qual a última coisa que você se lembra? — eu ignorei Márcia e perguntei para Briane.

— Como assim? Você saiu voando atrás de alguma coisa, e eu voltei direto pra cá!

— Como ela pode simplesmente não lembrar? — Isabel perguntou enquanto agarrava os próprios ombros com as mãos. — Eu vi… eu senti como se fosse comigo! Eu… eu…

— Que está acontecendo?

— Que foi que houve?

— Por que vocês estão assim?

Que droga. Eu tinha que tomar as rédeas.

— Chega! Se acalmem. Michelly, por favor, pode ficar aqui e olhar Amelie enquanto Rael não chega? Nós tínhamos combinado de passear mais tarde, — eu comecei a instruir. — Abra a porta apenas pra ele. Márcia, pegue Isabel, nós vamos até o Posto Administrativo. Precisamos fazer uma denuncia e levá-las ao hospital.

As meninas se acalmaram o suficiente para fazer o que eu estava pedindo. Isabel estava em choque. Não é como se ela não soubesse que esse tipo de crime não existia, mas “ver” acontecer era outra coisa completamente diferente. Ainda mais “sentir” como se tivesse acontecido com ela mesma. Ela não estava lidando muito bem.

Chegamos rapidamente no Posto Administrativo mais próximo. Uma recepcionista com o crachá escrito Magna e com uma cara de fantasma estava atendendo os alunos.

— Nós queríamos fazer uma denúncia! — eu disse assim que cheguei no balcão. Briane ainda estava assustada sem entender o que estava acontecendo.

— Qual a natureza da sua denúncia? — Dona Magna perguntou com a voz monótona.

— Minha amiga foi… — Só de pensar nisso, a lembrança que eu tinha tirado dela revirava na minha mente me dando tremores e náuseas. — Minha amiga foi estuprada por um grupo de alunos.

Dona Magna levantou uma sobrancelha surpresa com a “natureza da minha denúncia”, e virou o olhar para Isabel, que parecia a mais abalada de nós quatro.

— Então seria possível ela fornecer algum registro através do Link pessoal dela desse ocorrido?

Essas perguntas idiotas estavam me deixando impaciente.

— Não senhora. As pessoas que fizeram isso levaram o Link pessoal dela.

— Ela pode vir aqui fazer a denúncia sozinha? — A recepcionista perguntou levemente mais interessada, mas ainda com a expressão vazia.

— Não sei. As pessoas que a agrediram esconderam a memória dela mesma! — eu respondi sem rodeios.

Briane estava mortificada. Todo o ar leve, descontraído e sonhador que ela sempre carregava tinha desaparecido. Eu mesma estava tentando manter a calma, mas doma Magna que me olhava sem mudar a expressão por tanto tempo finalmente perdeu a compostura primeiro:

— Escute, menina. Eu não tenho tempo a perder com esse tipo de brincadeira.

Eu respirei fundo.

— Me desculpe, mas eu não entendi onde é que eu possa estar brincando. Estou fazendo uma denuncia séria aqui.

— Francamente… Como se alguém pudesse ter a memória apagada nas dependências da academia. Isso é absolutamente impossível! — ela reclamou irritada.

— Mas foi isso o que aconteceu! Então a senhora pode por favor levantar essa bunda gorda daí e registrar a denúncia? — eu bati com as mãos no balcão.

— Quanta selvageria… Irei registrar uma ocorrência em seu nome por má conduta no campus, — ela disse zangada.

— Do que está falando? Eu vim aqui seriamente pedir ajuda e a senhora, a responsável aqui, está me negando! Eu quem deveria registrar uma ocorrência em seu nome! — Eu estava possessa. — Eu vi as memórias que foram escondidas na mente dela!

— Garotinha… nem sequer a vítima é capaz de fazer a denúncia por si só. Você está simplesmente fazendo um espetáculo.

— Então você acha que eu viria aqui mentir sobre esse assunto? — eu reclamei exasperada.

— Eu não estou dizendo que você está mentindo. Eu apenas quis dizer que você não sabe do que está falando. — Dona Magna me disse como se eu fosse estúpida. — Você é apenas uma aluna novata. Provavelmente o que viu foi um sonho lúcido ou coisa assim que sua amiga teve. Você com certeza não tem proficiência suficiente para entrar na mente de alguém e absorver as memórias.

— Eu sei o que eu vi! Qualquer outro onisciente que se preze e entre na mente dela antes que a memória seja completamente selada vai saber que é verdade, — eu disse quase gritando.

— Francamente! Escute o que você diz! — Dona Magna ficou de pé para brigar comigo. Pelo menos agora ela não estava mais com a cara de fantasma. Então ela chamou Briane, — Menina! Você pode corroborar com plena certeza no que a sua colega está dizendo? Você foi violentada?

Briane foi pega de surpresa com a atenção toda voltada para ela. Inclusive das outras pessoas que estavam lá para fazer outras denúncias.

— E-eu… eu não… — ela balbuciou enquanto lágrimas caiam.

— Está vendo? Ela mesma diz que não aconteceu nada de errado! Você irá receber uma intimação em seu nome por desacato e tentativa de denúncia falsa. Então façam o favor de se retirar do meu posto! SAIAM! — Dona Magna gritou.

Eu olhei para a mulher na minha frente. Eu estava completamente indignada. Mas não ia adiantar nada eu continuar ali tentando. Não importa o que, o resultado não iria mudar.

— Ok… Eu entendi… — eu deixei meus braços caírem dos lados do meu corpo, como se eu estivesse derrotada. — Vamos meninas… Eu entendi…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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