DCC – Capítulo 91 – 3Lobos

DCC – Capítulo 91

Tréguas

 

Com o poder da Sabedoria, eu pude ver perfeitamente que aquela casa pertencia àquele rapaz e também saber quem ele era. Eu não precisava mais me demorar ali. Eu também não era idiota de me meter em problemas de graça. Então, eu não tinha por que ter pressa.

Retornei imediatamente para o apartamento. Entrei diretamente no meu quarto e abri meu armário para trocar de roupas.

— Bom dia… — uma voz sonolenta me cumprimentou assim que eu terminei de abotoar o casaco e calçar as luvas.

— Bom dia Amelie! Me desculpe… acordei você? — eu perguntei carinhosamente para ela.

Amelie estava aprendendo muito rápido. Eu tirava pelo menos três horas dos meus dias apenas para ensinar coisas a ela com a ajuda da Sabedoria. Basicamente apenas conversávamos sobre coisas aleatórias enquanto eu respondia para ela as perguntas que ela tinha, e ensinava a ler, escrever e falar. O engraçado é que ela agora mantinha uma inocência e uma ingenuidade dignas de uma legítima criança.

Para todo mundo, eu disse que Amelie tinha sido minha melhor amiga antes de sofrer um grave atentado que lesionou terrivelmente a mente dela ao ponto dela perder irreversivelmente a memória. Tecnicamente isso era a verdade. As outras meninas do apartamento todas gostavam de Amelie, a tratavam bem e às vezes me ajudavam a tomar conta dela. Até que elas tinham levado um tempo para se acostumar comigo, mas no fim, eram todas pessoas legais. Uma questão interessante sobre o preconceito é que ele morre depois de um pouco de conhecimento. Eu não poderia dizer se o preconceito delas contra Brards havia morrido, mas pelo menos o preconceito comigo não estava mais lá.

— Não… eu estava acordada… apenas com preguiça! — ela disse entre bocejos enquanto se esticava. Por conveniência, como a academia não tinha um horário definido de dia e noite, eu tinha organizado para que ela estivesse dormindo sempre que eu estivesse nas aulas. Assim, não teríamos que nos preocupar em deixá-la sozinha.

— Ok… Pode dormir mais um pouco se quiser. Mas não demais. Hoje é dia de passear, então você deve tomar banho, arrumar o cabelo e ficar bem bonita pra mais tarde, ok? — eu disse saindo da suíte.

— E aí, Alésia! — Isabel me cumprimentou da mesa na área coletiva.

As outras garotas, Márcia e Michelly, estavam sentadas também, estudando.

— E aí, meninas! Começaram a trabalhar cedo! — eu disse me aproximando.

— Ainda não terminamos o trabalho de Dinâmica do professor Cássio… — Michelly disse, escorando o rosto contra a mesa exibindo uma cara de quem queria desistir.

— E qual o problema afinal? — eu perguntei intrigada.

Dinâmica era uma disciplina básica para quem queria aprender a voar. Mas fazia parte da grade de disciplinas da onipotência. Márcia e Michelly eram irmãs gêmeas com o mesmo corte de cabelo chanel, mas pintados de cores diferentes. Márcia usava o cabelo azul e Michelly gostava de roxo. As duas praticavam onipresença, então seria bem mais difícil para elas entender algo da onipotência. Isabel tinha capacidade de aprender as duas áreas, onipresença e onipotência, assim como eu estudava onipotência e onisciência.

— Essa parte sobre a maleabilidade das coisas é muito confusa. — Márcia apontou.

— Qual parte? — eu perguntei me debruçando sobre a mesa para ver o que elas estavam escrevendo.

— Todas as partes! — Michelly levantou as mãos para cima dramatizando. — Você podia nos ajudar…

— Não há muito o que eu possa fazer. Se vocês não entenderem por si mesmas o trabalho não vai adiantar pra nada, — eu respondi enquanto me afastava até a cozinha e me servia com um copo de suco.

— Mas é muito difícil! Tenta nos explicar só mais uma vez? — Michelly pediu.

— Certo… vejamos: olhem para a mesa em que vocês estão sentadas. Vocês conseguem sentir a presença dela, não é mesmo? — elas murmuraram em concordância — Agora fechem os olhos. Vocês ainda conseguem sentir ela? Sim! Vocês conseguem sentir o ar? A teoria da Dinâmica é basicamente a mesma coisa. Vocês tem que tentar sentir a existência de todas as coisas, inclusive de si mesmas. Cada partícula de oxigênio do ar, cada átomo de hidrogênio… cada próton e nêutron em tudo o que existe também podem ser sentidos, entendidos e manipulados. Se vocês podem abanar o ar com as mãos, vocês também podem fazer isso com magia! Vocês podem deslocá-lo. E isso vale pra todas as coisas, até pra vocês mesmas! Basta encontrar o sentido correto.

— Falando assim, parece tão fácil… — Isabel comentou também se aproximando do trabalho. — Eu não entendo é como você consegue ter uma percepção tão aguçada de si mesma ao ponto de já ter aprendido a voar. Tem pessoas que praticam por vários séculos e nunca saem do chão.

Eu era muito mais proficiente em onipotência do que em onisciência. Tinham me pulado direto para a aula de prática de voo por conta disso, coisa que raramente acontecia. A maior parte da turma já eram pessoas relativamente bem mais velhas que as pessoas que praticavam as disciplinas iniciais comigo. Tecnicamente eu tinha aprendido à força. Eu tinha sentido a dor de cada um dos meus ossos serem quebrados em batalhas sem fim. Então eu senti bastante o meu próprio corpo até não querer mais. Mas isso não era algo que poderia ser dito como “segredo do sucesso”.

— Bom, eu apenas aprendi a conhecer meu corpo com a palma da minha mão, — eu disse sorrindo, perfeitamente consciente do duplo sentido da frase.

As meninas começaram a rir animadas.

— Falando nisso, quando vai nos apresentar o seu namorado misterioso afinal? — Márcia perguntou com uma expressão de falsa malícia.

— Uuuh… com essa sua cara ai, você vai me roubar ele. Prefiro manter em segredo, — eu brinquei.

— Qual é… Por que guardar segredo sobre ele? — Michelly insistiu. — Nós duas já te apresentamos várias vezes nossos namorados…

— Não tenho nada a ver se vocês trocam de namorados como trocam de roupa!

Elas riram orgulhosas.

— Ué, como vamos saber o que existe de bom no universo sem provar?

— Não escute elas, Alésia — Isabel me defendeu. — Elas se comportam como se ainda tivessem apenas um século de idade…

Passamos um bom tempo conversando tentando montar o trabalho das gêmeas, quando Briane finalmente chegou no apartamento.

— Nossa, você demorou bastante pra chegar! E ainda trocou de roupa… — eu comentei, então percebi a expressão dela. — Qual o problema?

Briane me olhou perdida por um momento como se não soubesse onde estava, então piscou algumas vezes até voltar ao normal.

— Uau, você ainda chegou aqui primeiro do que eu!

— Do que você está falando? Já tem horas que saímos da aula!

— H-horas? — Briane realmente parecia confusa sobre isso.

— Onde está seu Link? — eu perguntei séria.

Ela colocou a mão na cabeça, passando os dedos pela orelha, apenas para perceber que o Link dela não estava mais lá.

— Ah… Não está aqui! — ela disse surpresa. Era difícil alguém simplesmente não notar quando um Link cai. Era absolutamente difícil um Link simplesmente cair. Eles ficavam sempre presos na cabeça de uma forma que apenas com o comando correto ele se desprenderia do dono. E essa cara dela de quem estava perdida, eu já tinha visto antes.

— Me desculpe Briane… eu preciso verificar uma coisa…

Eu toquei na têmpora dela com dois dedos da mão direita. Instantaneamente ela fechou os olhos desacordada. Era quase o mesmo truque que eu tinha visto Dominik usar contra Emil para controlá-lo. A diferença é que Emil estava plenamente funcional e com a guarda levantada. Briane e eu tínhamos dado permissão uma para a outra para fazer isso para praticar.

Isabel, que apesar de não estudar Onisciência, conhecia um pouco, colocou a mão sobre meu ombro, assim ela também poderia ver o que havia de errado, como se nós mesmas estivéssemos vendo o que aconteceu com nossos próprios olhos.

Se arrependimento matasse, Isabel não estaria viva depois disso. Assim que as lembranças do ocorrido fluíram para nossas mentes, ela removeu a mão do meu ombro como se tivesse levado um choque, virou para um lado e vomitou no chão.

Eu puxei a mão para longe das têmporas de Briane e recuei vários passos, sentindo meu corpo tremer de nervoso. Lágrimas escorreram pelos meus olhos antes que eu pudesse contê-las.

Briane abriu os olhos, como se nada tivesse acontecido, e nos perguntou assustada:

— O que aconteceu com vocês?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: