DCC – Capítulo 90 – 3Lobos

DCC – Capítulo 90

Relatório e Espionagem

 

Marco Gionardi:


— Quanto tempo? — eu perguntei, largado em meu trono.

— Um ano senhor. Talvez mais, — o emissário reportou completamente curvado e olhando para o chão.

— Eu lhes dou oito meses… — eu exclamei entediado. — E prepare com o dobro da meta atual.

O emissário levantou o corpo e chegou a me encarar incrédulo, mas levou pouco mais de um segundo pra perceber o que estava fazendo e voltar a se encolher.

— Mas… mas… — ele tentou argumentar. Eu podia ouvir os gritos patéticos de pânico e estresse crescendo pela mente dele. Essas pessoas comuns era muito medíocres e se impressionavam facilmente.

— Sem mais. Apenas faça o seu trabalho. Eu não aceito atrasos e nem qualquer outra reclamação. Faça o que for preciso, gaste o que for necessário, desde que me garanta isso pronto em oito meses!

O emissário se retirou, pronto para ter um acesso de faniquito. Contanto que tudo o que eu pedi estivesse pronto, havia alguma chance. O fato de eu ser um humano realmente pendia contra a balança no meu caso, mas eu não iria simplesmente me render ou desistir.

Depois do meu confronto com Dhar, eu não havia percebido de imediato. Aquele idiota tinha selado meu corpo e agora eu estava preso nesse palácio sem poder ir para mais lugar nenhum. Se tivesse sido um simples Laço de Sangue, eu poderia muito bem estalar os dedos e me livrar. Mas era algo bem mais tenebroso ligado à arte mágica específica dele. Com o meu atual poder eu não poderia me libertar sozinho. Seria necessário que roubasse o livre arbítrio dos seres sencientes e me alimentasse do poder eles para aumentar o meu próprio.

Minha única chance era que eu conseguisse controlar a mente de Henry antes do que Dhar e tomar posse da Destruição para mim, e isso seria extremamente complicado. As antíteses das Relíquias estavam à flor da pele. As antíteses de todas as artes mágicas estavam. Seria uma simples questão de tempo até que tudo o que eu consegui saísse do meu controle. Mas Dhar não estava realmente levando em consideração contra quem ele estava lidando. Acima de tudo, nesse momento eu era Marco Gionardi, supremo regente do império humano. E tudo o que dizia respeito ao meu império me devia obediência… quer queira, quer não.

Eu entraria em Guerra contra Dhar pelo controle desse universo se fosse preciso. Mas lutar contra um deus, tendo a força de um homem… Mesmo que este homem fosse eu contra um reles deus caído como ele, ainda seria uma derrota humilhante para mim.

Alésia Latrell:


— A Ruiva de Sangue! — Eu ouvi alguém comentar surpreso.

Mas no instante que virei a cabeça, eu não pude ver ninguém por perto. Será que alguém havia me reconhecido? Haviam pessoas por aqui que tinham estado em Laplantine?

Por algum motivo, muitas pessoas acharam bem mais assustador o meu passado sem história do que eu acharia merecido. Aparentemente o fato de eu ter revidado a intimidação da Princesa de Kanis se espalhou rapidamente entre o campus e, somado ao fato de que um professor havia me defendido durante a aula, fez com que a imaginação de todos crescesse ao ponto de imaginarem que eu sequer era uma Brard ou mestiça.

Não era tão incomum filhos de nobres comparecerem à academia para algum curso e manterem o status em segredo. Então todos imaginaram que esse fosse o meu caso. Caso contrário, ninguém nunca acreditaria que eu simplesmente tinha tido a ousadia de blefar contra a princesa.

Desde que minhas aulas haviam começado, já tinham se passado três meses. Também faziam três meses desde que eu havia me tornado a Sra. Siever através de um Laço da Alma. Agora, sobre meu seio esquerdo, uma reluzente marca prateada contrastava contra a minha pele de cobre.

Henry também havia estabelecido uma Ponte Espacial que ligava o meu quarto no dormitório dos alunos do Centro de Artes Mágicas para a casa dele, para que ninguém pudesse nos ver juntos, e assim eu poder manter uma vida tranquila sem uma multidão de pessoas atrás de mim, ou as prováveis ameaças de morte por ser uma reles Brard me relacionando com ele.

Estaria tudo bem não fosse esse pequeno descuido por alguém me reconhecer como a Ruiva de Sangue. Não era algo que eu gostava de fazer, já que não me ajudava a melhorar, mas eu utilizei a Sabedoria para ampliar meus sentidos e encontrar qualquer um suspeito.

Poucos segundos depois, eu percebi um rapaz se afastando rapidamente do ponto em que eu estava com o coração acelerado e o ânimo inquieto. Não era uma reação normal de se ter no meio de uma estrada do sexto anel.

— Briane, eu tenho que conferir uma coisa rapidão. Pode ir na frente sem mim? — eu disse mantendo boa parte da atenção no rapaz que se afastava.

Ela me olhou com curiosidade, mas não perguntou qual o problema. Ela apenas balançou o rosto angelical e doce dela. Os cabelos, que ela tinha pintado de verde, dançaram emoldurando suas feições delicadas.

— Não tem problema. Nos encontramos no apartamento.

Briane tinha se tornado uma ótima amiga. Ela era madura, esforçada e não fazia perguntas desnecessárias. Atualmente ela era a única pessoa que sabia que eu estava casada — apesar de não saber quem era meu marido.

Como estávamos no Centro de Onisciência, pouca gente sabia realmente como voar. Então eu dei um impulso contra o chão e decolei o mais alto possível dentro da atmosfera artificial do sexto anel. De tão alto, eu não chamaria atenção dos pedestres, e desde que eu tivesse os meus sentidos travados na pessoa que eu estava seguindo, eu não o perderia de vista.

O rapaz andou apressado até uma ponte espacial que levava até o Distrito Violeta, uma zona comercial nobre do anel externo. Eu esperei um pouco para descer até o portal. Se eu aparecesse logo depois dele, e ele percebesse, ele iria se ligar que estava sendo seguido.

Eu já tinha andado algumas vezes no Distrito Violeta. Era um lugar elitista e cheio de gente implicante que se achava melhor que os outros. As grandes famílias mágicas que dominavam cada uma das áreas da magia, todas tinham residências nessa área do anel externo, onde seus representantes estabeleciam residência para frequentar a academia. Incluindo uma residência da Casa dos Siever, do Platô Egor e da Hus Stanislav, que eram respectivamente os maiores oniscientes, onipotentes e onipresentes da galáxia.

A quantidade de pessoas capaz de voar por aqui já era bem maior que no Centro de Onisciência. Tentei localizar o rapaz, e ele estava ainda andando bastante alterado vários metros à frente. Então eu levantei o capuz do meu casaco e o segui de longe.

O meu problema com ele não era por ele saber minha identidade como Ruiva de Sangue. Por mim, pouco me importava se isso viesse à tona, apenas deixaria minha vida tranquila menos tranquila. O meu problema com ele é que, se ele sabia quem eu era, ele fazia parte da nobreza lixo que consumia os espetáculos sangrentos na Arena do Laplantine. Se ele sabia quem eu era, ele sabia que eu estava viva no meio daquele inferno e não fez nada.

O rapaz continuou andando até chegar a uma residência particular. A casa era revestida por proteção padrão contra espionagem mágica, mas eu não era padrão. Tudo o que precisei fazer foi investigar junto à Sabedoria a quem pertencia aquela casa, e todas as informações sobre a vida daquele cara estariam nas minhas mãos.

 


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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