DCC – Capítulo 87 – 3Lobos

DCC – Capítulo 87

Princesa de Kanis

 

Briane tinha ficado nos esperando do lado de fora.

— Essa foi uma aula realmente interessante! E o professor parece bem competente. A aura dele é magnífica! — ela comentou assim que nos viu.

Eu estranhei a posição dela. Desde o primeiro momento que a vi ela sempre foi cordial e excessivamente otimista. Isso ia contra a natureza da maioria das pessoas que eu conhecia.

— Você não vai perguntar o que o professor queria? — eu perguntei.

Ela me olhou como se tivesse percebido a minha desconfiança. Depois de tudo, acho que era normal eu ter ficado com um pé atrás.

— Bom, de onde eu venho, não se faz perguntas sobre a vida pessoal de outra pessoa além do que a cordialidade determina, como “tudo bom?” ou “você está bem?” e variações. — ela explicou séria e depois vestiu o sorriso simples. — Se você quiser contar o que ele queria eu vou ouvir com interesse e então posso fazer perguntas. Mas se você não quiser começar falando, seria rude da minha parte demonstrar curiosidade.

— Eu acho que vamos ser boas amigas, Briane! — eu disse feliz, e nós três seguimos em direção ao portal para retornar ao anel externo.

— Sabe o que seria interessante? Essa noite não teremos aula, e parece que O Henry Siever vai dar aula no Centro de Engenharia Forense! É uma excelente oportunidade pra ir dar uma olhadinha nele.

Eu e Isaac quase tropeçamos ao mesmo tempo. Mas que merda! Ela queria tietar?

— Até parece que vocês teriam alguma chance de sequer se aproximar dele! — alguém disse por trás de nós.

Era a garota que havia rido da minha “resposta óbvia”, e outras três colegas da turma que tinham levado a bronca do professor. A sensação de impaciência que eu tinha com gente babaca começou a sinalizar.

— Hahahahaha! — Briane riu animada, sem se importar com um pingo sequer da malícia da outra garota. — É claro que nós não temos! Ninguém tem! Mas você já ouviu falar que de vez em quando alguns malandros conseguem entrar nas aulas dele? Isso é tão atrevido… Seria muita sorte se conseguíssemos algo assim.

— Mas por que quer ir ver ele? — eu perguntei, seguindo a deixa de Briane e ignorando completamente a outra menina.

— Ouvi dizer que ele ainda continua o maior gato! — Briane riu animada.

Eu mordi minha língua tentando não rir. Isaac não teve tanto auto controle. Ele envergou gargalhando. Briane interpretou isso como normal e continuou:

— Mas ninguém nunca consegue tirar uma foto dele. Dizem que foi ele quem inventou o aparelho que bloqueia completamente o corpo de uma pessoa ou lugar contra fotos ou filmagens dois anos atrás e que ele anda com um o tempo todo. Ninguém em lugar nenhum tem fotos novas dele.

— É… eu soube desse aparelho, usam ele no palácio imperial… — Isaac comentou casualmente.

— Uau! Você também acompanha essas notícias! — Briane voltou-se para Isaac com os olhos brilhando. — Você é de Keret?

— Cof, cof… — Isaac engasgou sem jeito, e começou a passar uma mão no cabelo — É… sou… mas não é grande coisa.

— Realmente, um mestiço de Keret deve ser no mínimo o bastardo de algum velho asqueroso que não tem cuidado em espalhar o próprio sangue.

Eu apertei o meu punho com força e respirei fundo. Estava prestes a me virar para encarar a engraçadinha quando Briane falou de novo ignorando a menina com o tom animado e otimista de sempre, mas com um tom leve de admiração.

— Nossa, e pensar que você é mesmo de Keret! Isso por si só é tão mais extraordinário que qualquer nobreza de qualquer outro planeta do império…

Isaac ficou espantado. Eu devo dizer que eu também. Briane era brilhante. Além de ignorar completamente as quatro que estavam nos seguindo atrás de confusão, ela ainda as insultou de forma tão singela e elegante. Esse era um nível de maturidade que eu com certeza não tinha. E isso não passou batido pela garota.

— Escute aqui sua… — a garota avançou contra Briane que continuou estável.

— Oh, se não é a princesa de Kanis e suas damas da corte! Me desculpe por não ter lhe cumprimentado antes. — Briane sorriu com leveza. — Há algo que possa fazer para vossa alteza?

— Você por acaso teve a intenção de dizer que eu sou inferior a um mestiço? — A tal princesa se colocou na frente de Briane com uma postura impositiva e ameaçadora. Eu já teria descido a mão na criatura não fosse por uma leve curiosidade que desenvolvi no mesmo instante em saber como Briane sairia dessa situação.

— Mas é claro que não, vossa majestade! — Briane disse na mesma expressão límpida e sorridente. — Eu nunca diria isso tão descuidadamente! O que eu disse vale para todos os nobres, não apenas para a senhorita!

— Pfffff…. — eu não aguentei. Ri com gosto dessa vez. Eu já estava para pensar que Briane iria fazer alguma manobra pacifista e ela veio com essa.

— Você não sabe de quem você está rindo, ralé! — Uma das garotas atrás da princesa ralhou comigo.

— É… você tem razão. Eu não faço a menor ideia! — eu disse enquanto tentava me recompor. — Então muito prazer, passar bem! Vamos Briane, Rael…

Então eu dei as costas às quatro com cara de tacho enquanto puxei os meus dois companheiros para longe delas. É claro que elas não desistiram. Duas delas voaram bem para nossa frente, e as quatro nos cercaram. A ridiculisse da situação me deixou bem mais calma. A impaciência tinha diminuído bastante depois que eu ri.

— Então agora são os três que pretendem fazer frente a mim? — a princesa perguntou aborrecida, deixando transparecer uma aura opressiva bem pobre. Transeuntes que passavam por perto voltaram suas atenções para nós, alarmados ao sentirem a aura dela — Não bastasse essa insignificante, agora dois imundos acham que podem… ahh…

— Eu não estou achando coisa alguma princesa… — eu disse lentamente enquanto passava os dedos por uma mecha do cabelo dela. Eu não estava mais no lugar onde eu estava antes. Eu já era rápida o suficiente para surpreender pessoas do tipo dela que não treinavam o corpo, então enquanto a princesa falava, eu me coloquei exatamente na frente dela, flutuando para ficar no mesmo nível dos olhos, já que eu era mais baixa. — Mas pelo visto foi vossa majestade quem perdeu alguma coisa… posso ajudá-la a achar?

A princesa recuou alguns passos alarmada e puxou o cabelo para trás, como se tivesse medo de eu fazer algo contra ele.

— Como se atreve? — ela disse extremamente ofendida exalando mais ainda a pobre aura opressiva que ela tinha. — Se você tocar em mim de novo, eu farei com que nem você e nem nenhum dos seus jamais tenha permissão de entrar nessa academia de novo!

— Oh, a princesa resolveu partir tão rápido para as ameaças? — eu disse sorrindo tentando imitar a mesma expressão divertida e impressionável de Briane. — Então deixe-me ensiná-la algo bom!

No mesmo segundo em que terminei de falar, eu suguei boa parte do calor ao redor das quatro utilizando a habilidade da Relíquia que eu batizei de Buraco Negro, deixando o ar extremamente gelado e liberei minha aura para que apenas elas pudessem sentir. As quatro quase imediatamente caíram assustadas me olhando com horror. Eu continuei sorrindo enquanto me ajoelhei na frente da princesa para ficar olho a olho com ela e disse com a voz mais límpida que consegui usar:

— Se você falar perto de mim, sobre mim ou para mim e meus amigos de novo, eu farei com que nem você, nem nenhum dos seus jamais tenha permissão de entrar nessa galáxia de novo! — então eu dei um peteleco no nariz dela — Ok?

Eu encerrei o Buraco Negro e libertei as quatro da minha pressão. De alguma forma, eu podia sentir que meu poder tinha se tornado bem mais fluido desde a última vez que eu tinha usado magia. Por que será isso? Mas não fiquei muito tempo pensando. As quatro ainda assim continuaram um bom tempo caídas em choque.

— Vocês já podem ir! — eu disse relembrando elas que ainda estavam caídas.

As três damas da corte se levantaram apressadas, pegaram a princesa pelos ombros e voaram para longe. Os poucos transeuntes que tinham parado para assistir voltaram para seus caminhos.

— Por que você fez isso? — Briane perguntou com um misto de preocupação e uma cara impressionada. — Ela é uma nobre! Ela com certeza vai se voltar contra você e cumprir a ameaça dela.

— Ela que tente! — eu disse respirando fundo e voltei a andar. — Mas como eu ameacei ela de volta, ela vai nos deixar em paz por um bom tempo até descobrir se eu posso ou não cumprir a minha.

— Mas isso foi bem arriscado. Ela pode tentar investigar sobre você — Isaac disse mais preocupado do que Briane.

— E o que ela acharia? Até onde me consta eu sou só uma pessoa sem passado, história ou família! — eu disse me lembrando da identidade nova que me deram.

— Oun… que bonitinha! — Briane suspirou comovida. — É por isso que eu odeio nobres de nascença. Mas não se preocupe! Eu protejo você dela!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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