DCC – Capítulo 86 – 3Lobos

DCC – Capítulo 86

Mentalização

 

– Agora sobre o assunto: Metalização! – O professor Yuri começou a explicar. – Esse é o princípio básico da magia de modo geral. Ela se divide em três etapas: “Conhecimento”, “Domínio” e “Técnica”.  O conhecimento é a chave que abre todas as portas. No universo em que vivemos, pode-se dizer que apenas aquilo de que sabe-se que existe, realmente existe. E aquilo que todos desconhecem não existe de modo algum.

Eu absorvi as palavras dele. Era de fato uma forma interessante de se pensar. Eu poderia muito bem dizer que Jomons não existiam se eu não soubesse da existência deles. Ou mesmo as Relíquias. Quem diabos iria dizer que existiam objetos mágicos tão absurdos entre nós?

– A segunda etapa é o dominar o conhecimento. Ter o conhecimento à mão é uma coisa. Dominá-lo já é outra completamente diferente. Um exemplo bem básico de como isso ocorre, é quando assistimos documentários. Você ver um documentário de um engenheiro montando um motor estelar de dobra espacial etapa por etapa não significa que você seja capaz de fazer o mesmo.

Isso realmente fazia sentido quando eu pensava sobre a Relíquia da Sabedoria. Eu às vezes sentia que ter a Sabedoria comigo era o mesmo que ir a um banco de dados ou uma biblioteca e não ler coisa alguma. O professor Yuri continuou:

– A terceira etapa é a técnica. Voltando ao exemplo do motor estelar de dobra espacial: quem assiste o documentário, pode ter conhecimento sobre como se monta um. Um estudante de engenharia é capaz de dominar esse conhecimento. Mas apenas um verdadeiro profissional é capaz de executar a técnica por trás. É a boa e velha diferença entre a teoria e a prática.

Alguns murmúrios de concordância se espalharam pela sala. E da mesma forma, eu associei isso a como eu tinha dificuldade de invocar escudos grandes o suficiente. Eu sabia como fazer, e sabia fazer. Agora, fazer bem era outra história completamente diferente. Ainda era extremamente difícil e exigia o máximo da minha concentração. Diferente de voar, que já era fácil como respirar, mesmo que eu ainda não soubesse como manobrar, acelerar, ou frear e principalmente, como pousar.

– Dito isso, Mentalização é a única disciplina comum para todas as três artes mágicas e é obrigatória para cursar de Contemplação, para quem vai cursar as específicas de Onipresença, Inspiração de onisciência e Expressão de onipotência.

– Professor, qual a diferença entre essas três disciplinas? – uma garota na primeira fila perguntou.

– Bem, cada arte mágica demanda o conhecimento e o domínio de alguma força natural diferente. Onipresença domina o espaço, então entender como o espaço é constituído é o primeiro passo para dominá-lo. Contemplação é a disciplina que explica as leis do espaço. Da mesma forma, a Inspiração é a disciplina que ensina o domínio da alma, e a expressão é o que explica o domínio da matéria.

O professor continuou explicando os primeiros princípios da mentalização. A matéria era inteiramente teórica, então ele passou de cara várias leituras e trabalhos já para serem entregues. Algumas coisas pareciam bem simples, mas eu notei que ele estava tocando apenas superficialmente no assunto. Mas à medida que ele começou a exigir mais, os murmúrios de concordância foram diminuindo pelos bons e velhos olhares de alunos: “deixa eu fingir aqui que tô entendendo”. E enquanto isso o professor continuava.

– A mente funciona por um estímulo desencadeado por um dos sentidos. A visão por exemplo é um dos principais responsáveis pela significação das coisas. Você vê uma cadeira, e você sabe o que ela é. Você não precisa tentar definir. Você apenas sabe. Essa significação também ocorre com a audição, quando você escuta a voz de um amigo e você sabe a quem pertence antes mesmo de ver a pessoa. Ou quando você prova a comida preferida sem saber o que é e você descobre apenas pelo paladar. E assim também com o tato e o olfato.

– Uma mentalização eficiente ocorre quando você consegue associar a sensação ao efeito desejado na hora de conjurar qualquer arte mágica. Para quem ainda não conseguiu conjurar nada sólido, um bom exemplo seria: Me descrevam o cheiro de algo que nunca cheiraram!

 

O professor Yuri olhou para a turma esperando.

– Vamos! Não foi um pedido retórico! – ele apontou para a menina da frente que fez a primeira pergunta.

– Um cheiro forte, doce e irritante. – ela disse apressada.

– Amargo e encorpado. – disse outro colega ao ser apontado.

– acre e pungente – disse outro.

– Amadeirado, mas envelhecido – e mais outro.

– Picante e salgado – e mais outro.

– temperado e doce. – e mais outro.

Todos na sala estavam inventando descrições para aromas que nunca haviam sentido. Deliberadamente eu percebi que ele nos deixou por último. Então o professor apontou para Isaac.

– Ah… Grande? – ele respondeu.

Algumas pessoas na sala riram baixinho. O professor não questionou a resposta, apenas apontou para Briane.

– Romântico! – ela disse sorridente, olhando para o tento com o rosto entre as mãos.

Agora vários colegas riram abertamente.

Então ele apontou pra mim.

– Diferente? – eu respondi.

– Ora, se é algo que você nunca sentiu é claro que é diferente. Pra que dizer o óbvio? Não é falta de imaginação? – Disse uma moça na terceira fila.

– É de fato uma sugestão óbvia. – O professor disse acompanhando os risos, mas logo em seguida sua expressão ficou séria – Mas para uma atividade subjetiva, apenas aqueles três de quem vocês estão rindo acertaram.

Os risos todos morreram quase no mesmo segundo que a fala do professor terminando com arfadas incrédulas e sem graça.

– Eu lembro bem de ter começado a aula dizendo que aquilo que não se conhece, não existe. Então como poderiam descrever algo que nunca cheiraram? Todos vocês descreveram apenas combinações de aromas que já conhecem. Briane gosta de literatura romântica, então para ela, um cheiro novo seria algo que lembrasse o romance. Maran admira as grandes figuras, então ele imagina como seria o cheiro de todas essas pessoas se elas cheirassem igual.

– Mas Latrell foi a que mais se aproximou de uma resposta satisfatória. – ele disse como se estivesse dando um sermão. – Se vocês sentirem um cheiro que nunca sentiram antes, a primeira coisa que pensariam é que é um cheiro novo ou diferente. Então sim, a resposta óbvia é a resposta correta. Por que toda a magia já está ao redor de vocês. Vocês apenas precisam saber sentir ela, e não inventá-la. Ela já existe. Vocês devem abrir a mente de vocês como um sexto sentido e simplesmente sentir a magia.

O sermão do professor sobre o problema das mentes fechadas durou até o final da aula. Quando acabou, ele passou mais um trabalho para a turma sobre como estimular o tal sexto sentido ou sentido da magia e por fim ele liberou a turma.

– Latrell! Maran! Uma palavrinha por favor. – o professor Yuri pediu assim que a todos estavam saindo.

Eu olhei intrigada para Isaac e Briane, mas pelo menos dessa vez eu não tive o pavor inicial de ter feito alguma coisa errada para ser chamada pelo professor. Isaac suspirou profundamente cansado e fomos até a mesa do professor. Ele esperou até todos saírem para falar.

– Então, Isaac. Seus pais sabem que está aqui? – ele foi direto ao ponto.

Senti meu corpo desequilibrar violentamente. Que? Ele conhece Isaac?

Isaac sorriu sem graça enquanto coçava a cabeça e respondeu:

– Não necessariamente, senhor.

– “Não necessariamente”… – o professor repetiu – Realmente um legítimo filho de um imperador. E como anda Henry? – ele se virou para mim para perguntar.

Eu realmente tinha ficado confusa agora.

– Desculpe, mas o senhor já me conhecia? – eu perguntei.

– Eu estava na festa de ano novo em que você foi apresentada. Realmente uma situação constrangedora! – ele riu alto ao lembrar. – Você provavelmente não lembra de mim porque não conversamos. Eu fiquei estarrecido quando soube do acontecido. E pensar que você foi resgatada faz menos de dois meses e já está praticamente como nova. Também estou bastante surpreso com o quanto você desenvolveu nesse curto período de tempo. Se continuar assim, em poucos anos é possível que supere Henry. Essas Relíquias são mesmo assustadoras.

Eu sorri sem graça.

– Não foi lá grande coisa. Meio que me vi obrigada a aprender o que deu. Mas agora, eu realmente quero aprender magia o suficiente para poder me defender sozinha antes mesmo que coisas ruins aconteçam.  – eu realmente estava séria sobre isso.

– Certo… mas pelo que pude sentir quando toquei sua mão, você já tem um domínio equivalente a um Jomon de talento normal. Isso é sem precedentes. É bom mesmo manter sua idade real em segredo. E pra você – ele disse voltando a falar com Isaac – vale o mesmo. Quando nasceu tivemos muitas especulações sobre quais seriam as consequências de um nascimento sobre a influência direta as três Relíquias sobre o corpo dos pais. Pelo visto isso realmente repercutiu em você. Imagino se isso também afetará a sua longevidade.

– Pai Marco acha que se tudo der certo na minha vida, eu vou viver pelo menos o dobro de um Jomon normal. – Isaac respondeu como se não fosse nada demais.

– É… isso realmente é alguma coisa… – Professor Yuri se esforçou para não transparecer, mas eu pude ver que ele tinha ficado bem impressionado. – Enfim, não vou gastar mais tempo. Ainda tenho mais uma turma hoje. Qualquer problema que tiverem, podem falar comigo. E não esperem nenhum tipo de predileção ou colher de chá. Pelo contrário. Eu serei muito mais exigente com os dois do que com o resto justamente porque eu sei das capacidades de vocês. Por isso entreguem pontualmente os trabalhos na próxima aula!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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