DCC – Capítulo 85 – 3Lobos

DCC – Capítulo 85

Primeira aula

 

— Não sei se você já usou um desses no lugar de onde você veio, mas esse é o melhor jeito de ir até o próximo anel! — Briane apontou para um grande portal que parecia emoldurar uma cortina translúcida de energia branca.

O portal era cercado por uma série de catracas de acesso, onde os alunos faziam uma identificação, escolhiam o destino e atravessavam o portal.

— É simplesmente uma das maiores maravilhas da combinação entre magia e tecnologia que nossa sociedade já inventou, — Isabel disse orgulhosa, com os olhos brilhando de emoção. — Utiliza os princípios da onipresença para quebrar as leis do espaço e enviar as pessoas de um lugar para o outro sem a ajuda de um artista onipresente. Basta ter um console capaz de operar o fluxo de energia que quebra essas leis, e pontos de acesso por onde essa energia será liberada ou absorvida, que é pra onde as pessoas são enviadas. A academia é o único lugar na galáxia que possui acesso civil a esse tipo de tecnologia mágica.

Eu não pude deixar de sentir meu queixo cair. Era realmente uma coisa impressionante. Eu não entendia o que significava “quebrar as leis do espaço” ou o que viria a ser essa energia capaz de quebrar elas, mas sem dúvida era impressionante. Henry já havia me levado por fendas no espaço algumas vezes, e eu já tinha sentido como era a sensação, mas nunca deixava de me impressionar todas as vezes que via algo sobre isso.

Assim que entrei no portal, foi como dar um passo para dentro de uma cortina de água gelada e no passo seguinte, abrir os olhos para uma paisagem diferente. Eu estava no sexto anel. Isabel se despediu de mim e Briane e seguiu para o Centro de Onipresença, enquanto nós duas seguimos para o Centro de Onisciência.

— Você vai adorar o professor Yuri. Sorte a sua que perdeu apenas a primeira aula, em que ele apenas explicou sobre o curso, testou nosso potencial e pediu para falarmos de nossas expectativas.

O Centro de Onipotência era extremamente elegante e tinha uma arquitetura quase idêntica ao palácio imperial, inclusive com caríssimas portas de madeira. O diferencial eram vitrais multicoloridos circundando o alto de todas as paredes, dando ao ambiente uma atmosfera mais alegre e descontraída que o palácio.

A nossa sala já estava parcialmente cheia quando chegamos. Logo identifiquei Isaac sentado meio encolhido na penúltima fileira.

— Oi Rael!

Ele sorriu para mim em resposta.

— Arrumei um dormitório pra mim. Fica na Seção XXI dos dormitórios das artes mágicas.

— Ué, eu pensei que você fosse… — eu lancei um olhar de advertência para ele que por sorte ele pegou. Ele estava para falar que achava que eu iria morar com Henry. Da mesma forma que ele queria nossas “relações especiais” em segredo, eu também queria. — Deixa pra lá.

— Oi fofinho! — Briane o cumprimentou. — Rael, não é? Você parece ser tão novo, mas… é mestiço também? Vocês são parentes?

— Ahh… — Isaac travou. — Algo… assim? — e me olhou pedindo ajuda.

— Rael nunca teve oportunidade de conversar com muitas pessoas, especialmente garotas. Então ele está um pouco tímido, — eu expliquei para Briane.

— Oun, que fofo! Não se preocupe. Eu não vou te morder ou coisa assim. Qual a sua idade?

Isaac corou um pouco antes de responder:

— Quinze…

Eu me espantei com a resposta.

— Nossa! E pensar que temos quase a mesma idade! — Briane comentou alegre.— E você Alésia?

A mesma idade? Que estranho. Eu olhei para Briane intrigada. No meu entendimento Jomons jovens deveriam ter pelo menos mais de um século de vida.

— Bom… — eu fiz as contas mentalmente. Já haviam se passado cinco anos desde que parti de Sátie, então agora eu estaria com vinte e dois. Mas meu corpo tinha parado de envelhecer aos dezessete, então essa não era uma resposta errada. — Dezessete, eu disse por fim.

— Uau! — Briane estava realmente impressionada. — E pensar que mestiços podem envelhecer nas mesmas proporções que os Jomons puros… Eu tenho dezoito décadas! É uma vergonha pra mim ter demorado tanto para conseguir vir pra academia, mas se vocês conseguiram vir tão mais novos, isso quer dizer que vocês devem realmente ser bem talentosos.

Dezoito décadas??? Caramba! Eu vi a boca de Isaac se abrir na intenção de corrigir Briane, mas eu o parei. Esse era outro dos mal entendidos convenientes. Só que o meu era ainda pior. Isaac provavelmente quis dizer quinze anos imperiais — bem mais velho do que eu — enquanto eu quis dizer dezessete anos de Sátie, que tinha a contagem de tempo Brard. Eu não poderia dizer no meio de uma sala cheia que eu tinha simplesmente APENAS NOVE ANOS!

Isaac parecia estar passando pela mesma reflexão. Então ele não insistiu em corrigir que estava falando em simples quinze anos e não quinze décadas inteiras. Para nossa sorte, logo depois todos sentaram-se como se tivessem recebido algum comando, e eu percebi que o professor havia chegado.

O professor caminhou até o centro do tablado na frente da turma e nos olhou com severidade. Ele era um senhor que parecia ter passado da casa dos sessenta anos, mas mostrava uma aura muito mais resplandecente e centrada do que qualquer Brard de sessenta anos mostraria — se é que eu já conheci qualquer Brard que fosse que tivesse domínio de magia.

O olhar dele pairou por alguns segundos sobre alguns alunos, mas se demorou um pouquinho mais em Isaac e em mim.

— Vejo que temos algumas caras novas… — a voz grave reverberou pela sala — e interessantes… — Ele riscou o ar com o dedo, como um comando para o Link pessoal dele. Assim ele poderia abrir uma tela exclusiva e consultar qualquer coisa.

— Bruno Fabian! — ele chamou, virando os olhos pela sala até parar em um rapaz duas fileiras à frente, mas sequer esperou uma resposta e já prosseguiu para o próximo nome. — Alésia Latrell! — Os olhos dele bateram diretamente em mim, antes de prosseguir quase imediatamente também. — Jeneviv Laurence, Rael Maran, Ane Rhonda, Denis Samir… — ele chamou cada um dos nomes e olhou brevemente para cada um de nós.

Eu senti um leve arrepio imaginando se já era alguma encrenca da qual apenas nós tinhamos sido envolvidos. Mas não podia ser isso. Nem tinha dado tempo de eu fazer alguma coisa! Então ele continuou:

— Bom, pelo visto todos os que faltaram na última aula resolveram aparecer. Aproximem-se na ordem em que foram chamados um de cada vez.

Bruno Fabian, que havia sido o primeiro, levantou-se trêmulo da cadeira, assim como eu, que não sabia o que esperar. O professor estendeu a mão para o rapaz. Então, foi nesse momento mesmo que ele ficou nervoso. Apertar as mãos com qualquer pessoa era um simples cumprimento. Um ato de cordialidade. Mas apertar mãos com um onisciente só significava uma coisa: inquisição.

— Os melhores oniscientes poderiam entrar nas mentes dos outros e capturar os pensamentos e emoções sem sequer tocar. Mas, a partir do momento em que um contato é estabelecido, toda a vida dessas pessoas estarão abertas um para o outro, — professor Yuri disse, ainda com a mão estendida para o hesitante Fabian. — Vamos, o que está esperando?

Fabian apertou a mão do professor, completamente assustado. Porém, nada realmente interessante aconteceu. O professor apenas segurou a mão dele por uns dez segundos e chamou o próximo.

Droga, era eu! Eu me levantei e desci apressada e sem jeito até estar frente à frente com o professor. Estendi minha mão e ele a agarrou naturalmente. Depois que ele tinha falado sobre como dar as mãos era como abrir portas de um para o outro, eu não pude deixar de reparar como eu poderia sentir a presença dele de forma bem mais significativa.

— Você tem certeza que pertence à minha aula? — ele perguntou depois de alguns segundos.

Eu fiquei confusa. O que ele queria dizer com isso? Só para garantir, dei uma conferida rápida no meu horário. É claro que eu estava matriculada! Então qual era o problema?

— Posso saber por que? — eu perguntei por fim.

— Bom, — ele baixou o tom da voz para que apenas nós dois escutássemos — Você é alguém que sabe guardar segredos. Não é um nível para estudantes dessa classe… é bem superior.

Eu abri a minha boca pra falar umas seis vezes antes de desistir. Ele apenas soltou a minha mão e me enviou de volta para a cadeira. Pelo menos era um progresso, já que dessa vez alguém não me fez a pergunta “O que é você?”.

Laurence desceu logo depois de mim, e ficou poucos segundos de mãos dadas. Na vez de Isaac porém, o professor também o deteve por um tempo a mais. Perguntou alguma coisa com as sobrancelhas franzidas e o deixou ir. Por fim, Rhonda e Samir também foram dar as mãos com o professor, sem maiores complicações.

— O que ele perguntou para vocês dois? — Um rapaz à nossa frente sussurrou por cima do ombro. — Ele não tinha falado nada com ninguém, só com vocês dois!

É sério isso? Isaac ao meu lado se encolheu um pouco. Que belo jeito de não chamar atenção.

— Muito bem, vamos começar! — o professor Yuri chamou a atenção da turma.

Imediatamente todos voltaram suas atenções para ele como se fosse algo mágico. O que eu precisei me relembrar que provavelmente fosse.

— Devo apenas relembrar, como foi explicado na aula anterior, que essa pequena medição que fiz com todos é algo particular, e pertence apenas aos envolvidos, que podem querer ou não compartilhar qualquer informação pessoal. Ele lançou um olhar diretamente ao rapaz na minha frente, que imediatamente endireitou a postura torta.

— Agora sobre o assunto: Mentalização!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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