DCC – Capítulo 83 – 3Lobos

DCC – Capítulo 83

Jomons e Brards

 

— Isaac!? — eu disse estupefata.

Ele apressadamente saltou para cobrir a minha boca com sua mão.

— Shiiiii!! — Ele me calou nervoso, — Não diga esse nome aqui! Eu não quero que ninguém saiba quem eu sou!

Eu acenei a cabeça em sinal de concordância e ele relaxou.

— Mas o que você está fazendo aqui? — ele me perguntou ligeiramente constrangido.

— Eu vou começar a estudar no Centro de Artes Mágicas no sexto anel. — eu expliquei.

— Você está falando sério? — ele ficou boquiaberto.

— Sim, é claro que estou! — eu disse — E você? Que faz aqui?

Ele me encarou como se decidisse o que fazer.

— Onde está Henry? — ele perguntou olhando ao redor. Era de se esperar que Henry estivesse próximo a mim.

— Ele está resolvendo umas coisas sobre o trabalho… e você não vai me responder? — eu insisti.

— Você não pode contar pra ele que eu estou aqui! — ele pediu com urgência.

— Isaac! — Eu coloquei as mãos nos ombros dele. Como ele era baixinho, ou seja, quase da minha altura, ao menos eu pude olhar diretamente nos olhos dele. — Eu não vou entender se você não me explicar o que está acontecendo. Pare de fazer mistério e me diga!

Ele olhou de um lado para o outro e me puxou para um canto mais reservado. Eu agarrei na mão de Amelie para ela não se perder.

— E ela? — ele perguntou olhando desconfiado para Amelie.

— Ela não vai ser problema, a mente dela está vazia… uma longa história que eu conto depois da sua! — eu disse seriamente.

— Tudo bem… Eu vim aqui em segredo pra estudar no Centro de Artes Mágicas também… — ele disse olhando para os pés. — Mas ninguém pode saber quem eu sou. Eu queria vir aqui viver como uma pessoa normal, e encontrar outras pessoas. Todos me tratam como se estivessem pisando em ovos lá no palácio e isso é tão ruim. Por favor não conte pros meus pais.

— Marco não sabe que você está aqui? — eu perguntei levantando uma sobrancelha.

— Não…

— E como você conseguiu vir até aqui sem o conhecimento dele? — eu perguntei levemente impressionada.

— Bom, eu pedi permissão pra ter um segredo. Eu só precisei prometer que não era nada perigoso e que manteria contato todos os dias, e que usaria um localizador no corpo o tempo todo pra ele poder me achar instantaneamente caso houvesse algum problema, e que eu deveria voltar ao palácio regularmente pra vê-lo, e…

— Eu entendi… — Pelo que eu imaginava de Marco como controlador, ele provavelmente só tinha permitido Isaac sair sob uma lista enorme de condições. — Pelo visto ele confia bastante em você para deixar o precioso filho dele sair sem saber para onde.

— Eu sei que você não gosta dele… — Isaac comentou — Ele é bastante duro e exigente, mas ele nunca fez nada que não fosse para um bem maior. Mesmo sendo o imperador, ele sempre me deu atenção e sempre foi bom pra mim, por isso eu nunca trairia a confiança dele…

— Mas você mesmo assim quer encontrar mais pessoas que você goste e que gostem de você além dele… — eu disse com um sorriso de compreensão.

Ele me olhou emocionado.

— Então você vai manter o meu segredo?

— Ué, por que não? Além do mais, para quem eu contaria?

— Não pode contar pro Henry! — ele disse ansioso.

— Certo, eu dou um jeito nisso! Mas… se não posso te chamar de Isaac, como devo chamá-lo?

Tecnicamente esse era um dos lugares mais difíceis da galáxia de usar uma identidade falsa. Então imagino que deveria ser complicado para ele simplesmente trocar de nome.

— Meu nome completo é Isaac Rael Maran da Casa de Gionardi, publicamente apresentado no nascimento como Isaac Gionardi — ele disse animado estendendo a mão como se tivéssemos acabado de ser apresentados. — Mas pode me chamar de Rael Maran.

— Muito prazer Rael! — eu estendi a minha própria mão para cumprimentar a dele.

Ele abriu um imenso sorriso. e estendeu a mão para Amelie também, que ficou olhando para ele como se fosse algo brilhante sem dizer nada.

— Eu… posso contar com você? — ele insistiu, levantando a mão mais alto para Amelie.

Amelie então ergueu a própria mão e agarrou o dedo indicador de Isaac e começou a sacudir de qualquer jeito parecendo achar aquilo muito divertido.

Eu agarrei a mão de Amelie e a arrastei comigo. Nós três fomos até o centro de credenciamento. Uma moça elegante no balcão recebia os retardatários que ainda se apresentavam com um olhar entediado.

— Documentos por favor… — ela pediu com a voz arrastada.

— Com licença, plebeus! — um rapaz passou pela nossa frente com toda a pompa e arrogância, furando a fila e entregando um brasão azul para a balconista. — Duque de Abrazael. Terceiro anel: Bioengenharia médica.

Alguns murmúrios ao nosso redor começaram, assim que viram o brasão, todos parecendo extremamente impressionados.

— Caramba… é um brasão azul!

— Puts! Esse é o mais alto que eu já vi…

— não esperava que esses nobres ainda frequentassem a academia…

— Mas você não soube quem está ministrando aula lá agora?

— Com licença uma ova… — eu disse pro rapaz à minha frente. Imediatamente Isaac me puxou de novo gesticulando para que eu ficasse quieta. — Qual é o problema? Ele furou a fila na minha frente!

O tal Duque se virou para nós com um olhar intrigado. E nos deu o bom e velho olhar de cima a baixo, nos medindo.

— Posso saber a cor do brasão de vocês? — ele perguntou ligeiramente desdenhoso.

Eu estava prestes a falar de novo, quando Isaac tomou a minha frente. Ele abaixou a cabeça e falou para os pés do Duque:

— Nos desculpe, ela ainda não sabe se comportar diante dos nobres.

O Duque olhou para mim e um ar de compreensão passou pelo seu rosto. Depois ele se virou para a balconista de novo provavelmente achando que a gente não valia o esforço.

— Por que você fez isso? — eu perguntei mentalmente para Isaac.

Depois dele ter recuado tão resolutamente, eu não tinha mais cara de tomar a frente por ele. Isaac olhou para mim com um leve choque por eu conseguir enviar a mensagem para ele, mas respondeu de volta:

— Eu quero estudar aqui sem chamar atenção pro meu status. Se eu chegar mostrando um brasão dourado, todo mundo vai querer se aproximar de mim com interesses…

— Entendo… Mas o que tem a ver a cor do brasão? — eu perguntei olhando ao redor para a comoção de murmúrios pro brasão azul mostrado pomposamente pelo duque.

— Existem 9 tipos de brasão. — Isaac começou a explicar enquanto esperávamos a balconista liberar o duque. — Eles são, do de menor para o de maior influência: o violeta, o azul, o verde, o amarelo, o laranja, o vermelho, o prata e o dourado e o branco. Enquanto existem incontáveis bilhões de pessoas na galáxia, apenas alguns milhares tem algum título e direito ao brasão. Então pessoas com brasão são rapidamente cercadas de admiradores e pessoas com interesse. Não seria nada bom cair no mal gosto de um nobre justo no primeiro dia.

— E o que isso tem a ver com ele ter furado a fila? — eu insisti. — de acordo com sua explicação, os nossos brasões são inclusive muito mais superiores que o dele.

— Exatamente! — eu pude sentir que Isaac estava ficando ligeiramente exasperado — Nossos brasões são dourados! Brasões dourados são apenas para membros da corte imperial! O que chamaria mais atenção para mim do que isso?

— Você tem um argumento válido… se mostrarmos nossos brasões dourados, vamos virar celebridades instantâneas. Também não quero isso pra mim. — Eu não iria querer depender de algo que fosse me relacionar diretamente com Marco.

— Obrigado! — Isaac disse aliviado. Ele realmente não parecia muito alguém do tipo que entraria em combate desnecessário. — Vamos apenas apresentar nossas identificações discretamente e partir pro sexto anel!

Eu concordei. Não tinha o que fazer. Isaac agora parecia um jovem adolescente de uns quinze anos. Ele havia crescido bastante desde o dia que o conheci no ano novo em Keret. Eu não teria o reconhecido, se não fosse pela vaga semelhança que ele tinha com o pai…

Eu me arrepiei nervosamente ao pensar nisso. Tecnicamente eu era a namorada de Henry, então, o filho dele, que ainda era consideravelmente mais velho do que eu, era meu enteado. Viver entre Jomons era algo realmente bagunçado. Mas então para piorar eu lembrei, que sendo a encarnação de Nádia, eu era objetivamente falando, a encarnação da própria mãe dele! Ah… eu podia sentir meu estômago revirar pensando sobre isso.

A balconista finalmente deixou o Duque partir e nos atendeu. Isaac apresentou os documentos e recebeu as credenciais e um bracelete polido que a balconista colocou pessoalmente nele. além de conceder a ele o acesso ao guia da Academia e todos os horários e informações necessárias pelo Link.

Quando Isaac saiu, eu me aproximei ainda segurando Amelie pela mão. A balconista nos olhou e se dirigiu para Amelie:

— Documentos por favor…

Eu girei os olhos conformada. Não podia realmente ser diferente.

— Alésia Latrell. Curso de Artes Mágicas. Eu disse entregando minha identificação. A balconista recebeu meus documentos sem se importar comigo e deu baixa no sistema. pegou o meu material pessoal e o entregou para Amelie, que o recebeu cheia de curiosidade. Ela já estava puxando o pulso de Amelie para colocar o bracelete quando eu tive que intervir.

— Com licença, mas eu que sou a aluna, — eu disse calmamente.

A balconista me olhou como se eu fosse louca, depois olhou para Amelie, e de volta para mim. Por fim ela respirou fundo e respondeu com a voz arrastada.

— Muito bem, me desculpe pelo engano. Como apareceu ao lado de uma ária, achei que fosse apenas uma serva.

— Ok, obrigada. — eu disse recebendo o bracelete e olhando para Amelie. Agora que eu parava pra pensar, eu nunca tinha me importado com as sub-raças dos humanos. Na academia deveria ter alguma espécie de status idiota dependendo da sub-raça de cada um. Os Jomons do tipo altos com olhos em tons entre o rosa e o violeta eram chamados de “árias”. Os calvos atarracados de olhos azuis e narizes grandes eram os “glabros”. E assim como tinham os tipos de Jomons, tinha os dos Brards. Eu era o tipo mais genérico, sem nenhum traço marcante e consequentemente facilmente identificável, conhecido como “turba”.

Porém eu não pude deixar de sorrir quando recebi meu bracelete. Olha só… uma turba na maior e mais prestigiada academia de formação superior da galáxia! Se a minha mãe pudesse me ver agora…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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