DCC – Capítulo 82 – 3Lobos

DCC – Capítulo 82

Líderes

 

Marco Gionardi:


A incompetência humana estava me dando nos nervos. Por que todos eventualmente acham que podem simplesmente me esconder as coisas? Eu caminhei lentamente até a frente do salão e me sentei na cadeira mais alta. Então, me virei pros dois ajoelhados à minha frente.

— Fale… — Eu estava relativamente frustrado, então eu tinha que me conter para que minhas palavras fossem o mais suaves possível, mesmo assim, todo o salão estremeceu com a pressão do meu poder.

— Vossa majestade… por favor… — a mulher começou a pedir. Essa era a primeira vez que eu a encontrava fora das ocasiões oficiais, então é claro que ela estava um pouco eufórica e aterrorizada ao mesmo tempo.

— Eu não estou interessado em seja lá que desculpa você for interpelar para se livrar dessa situação. Eu quero os fatos!

— Mesmo que lhe falemos tudo o que sabemos, ainda assim sabemos muito pouco. — O homem ao lado dela insistiu.

— Como é mesmo seu nome? — eu perguntei impaciente.

— É… é Dominik, majestade.

— Muito bem, Dominik, agora me explique que espécie de brincadeira foi essa no mês passado, e por que eu estou sabendo sobre isso apenas agora?

Eles todos estavam apavorados. Ninguém entendia por que eu tinha me dado ao trabalho de vir pessoalmente apenas para interrogá-los. Porém, eu obviamente não tinha vindo aqui pessoalmente, era apenas uma versão minha representada por um autômato biossenssorial. Eles não iriam suportar me ver pessoalmente se tivessem que encarar a minha raiva agora.

— Meu senhor… Há um mês nosso filho mais velho retornou para nossa casa acompanhado de uma Brard. Por conta de termos o banido de nossa Casa, são poucos os que sabem que Henry Siever na verdade é nosso filho, e não apenas alguém que coincide ter nosso nome.

— Eu já conheço esses detalhes, — eu o repreendi. — Eu lembro bem de quando Henry foi banido. Fizeram de tudo para apagar quaisquer traços que fossem sobre a relação dele com esse lugar. Agora prossiga.

— Meu segundo filho tramou a morte de Henry com a ajuda de um laçado dele, com a intenção de incriminar a menina Brard.

— E em que espécie de contexto bizarro um plano desses daria certo? — era essa a parte que eu realmente queria ouvir.

— Bom, de alguma forma, ele conseguiu por as mãos em uma crisálida obliterante…

— Você tem certeza do que está me dizendo? — eu perguntei, tenso.

Dominik e todos os que estavam por perto sentiram o aumento significativo da pressão que eu estava impondo sobre ele.

— S-sim, vossa majestade… e-e-eu sinto muito pela vergonha que meu filho possa ter causado ao império…

— Dane-se a sua lamentação! Aproxime-se! — eu ordenei estendendo a minha mão para ele.

Dominik retesou o corpo completamente tenso, enquanto tremia nervoso. Ele levantou-se e se aproximou de mim. Como eu não tinha ido até lá pessoalmente, eu podia exercer apenas uma parcela dos meus poderes sobre eles. Se eu quisesse uma investigação mais detalhada, o melhor era pegar a informação direto na fonte, olhando as memórias dele. Através do autômato, eu só conseguia fazer isso se eu o tocasse. Ninguém gostava de ter as memórias vasculhadas, mas também ninguém poderia simplesmente me negar isso.

Ele tocou a mão na minha e imediatamente eu pude observar todas as memórias dele, como se eu mesmo as tivesse vivido. Pude ver tudo o que ele pensou e sentiu durante esses momentos, além de saber exatamente o que aconteceu. Quando terminei de vasculhar, Dominik cambaleou tonto e confuso de volta para onde estava, então chamei a mulher:

— Você, Petra. Venha! — eu disse estendendo a minha mão para ela.

De acordo com as memórias Dominik, ela deveria saber um pouco mais sobre o que aconteceu, graças a sua ligação com Henry por um Elo de Conceito. Ela se aproximou hesitante e estendeu a mão junto a minha. Imediatamente eu pude ver todos os demais detalhes, inclusive a hora em que… Henry morreu?

Eu me levantei chocado, ainda olhando dentro das memórias de Petra. O corpo estendido de Henry no chão sem vida, enquanto Alésia obstinadamente segurava a alma dele. O olhar de Petra ia diretamente para a menina enquanto a menina, completamente arrasada, se recusava a deixar Henry partir.

Mas aquele olhar… Aquela sensação estranha que ela passava… como se carregasse o peso do universo…

Eu soltei a mão de Petra, e ela me olhava confusa enquanto eu tinha certeza que minha expressão horrorizada parecia não fazer sentido para nenhum deles.

— Meu senhor…? — Petra chamou depois de um tempo em que eu sequer consegui me mover.

Eu pisquei várias vezes para voltar a mim e poder encerrar esse assunto.

— Vocês… tem certeza que investigaram pessoalmente todos os outros membros da Casa? — eu perguntei lentamente.

— Sim, sim! — Dominik respondeu ansioso. — Todos foram minuciosamente investigados a procura de inconsistências na memória ou atitudes suspeitas.

Eu os olhei ainda abalado.

— Então… Sobre esse assunto, que mais nada venha a público. Qualquer um que mencionar o ocorrido ou as crisálidas obliterantes será considerado um traidor do império e será tratado como tal.

Todos os presentes respiraram profundamente em choque. Poderia parecer a princípio uma reação muito pesada para esse caso, mas era de longe suficiente. Mesmo matar todos os envolvidos ainda seria pouco.

Dhar tinha razão. A menina iria acabar de uma forma ou outra despertando a Destruição. E o pior… isso estava acontecendo mais rápido do que eu imaginava. Aquela expressão de Alésia que vi pelas memórias de Petra era algo que humano nenhum deveria ter.

E essas crisálidas obliterantes? Como diabos conseguiram criar crisálidas obliterantes? Se de uma coisa que eu me certifiquei de averiguar quando as crisálidas foram inventadas, era que elas não seriam capazes de carregar nenhum feitiço da Obliquação! E além do mais, elas estavam sendo vendidas por aí como drogas. Como isso era possível? Quem poderia ter passado por cima da minha resolução tão facilmente?

A ideia de que Dhar deveria estar por trás disso de alguma forma ficou dançando em meus pensamentos, mas eu não conseguia ligar ele aos fatos. O plano de Dhar era desfazer todo esse universo, mas ele ainda assim estava no plano dos vivos, então ele deveria seguir as regras dos vivos assim como todos os outros.

Então por que não espalhar crisálidas obliterantes entre os oniscientes? Parecia uma excelente forma de expandir os próprios poderes, devorando as memórias dos humanos idiotas que se deixavam levar. Mas mesmo assim… ele não deveria ter a capacidade de fazer isso. A Obliquação era a minha antítese… Então como?

Como?

Centro do Platô Egor — Planeta Kendra
Zasha Egor


— E então?

— Eu consegui alguma informação senhor… — o espião se ajoelhou à minha frente com a cabeça baixa.

Ele não se atreveria a me olhar. Ninguém se atreve. Mas ele parecia estar esperando permissão para continuar. É por isso que eu detesto lidar com essa gentinha.

— Pois fale! — eu ordenei.

Ele estremeceu completamente antes de continuar apressado:

— Os boatos de que algo aconteceu dentro da Casa dos Siever são verdadeiros. Pelas minhas investigações, parece que o primeiro filho da família havia retornado para uma visita e foi mal recebido por Emil Siever. Não consegui identificar quem seria o primeiro filho, mas parece ser alguém com peso suficiente para fazer frente à Casa. Também pude confirmar o uso da Esfera Caótica e o desaparecimento do Mestre Emil e outros três funcionários.

— O que aconteceu lá afinal? — Eu já estava de pé ao ouvir o final do relatório.

— Sobre isso, senhor… — o espião já estava ainda mais encolhido ainda enquanto tremia à minha frente. — Parece ter havido pelo menos uma morte, mas não posso confirmar o boato e nem consegui os nomes dos envolvidos. Estão acobertando isso com todas as forças.

Eu ainda não consegui me sentar após ouvir as notícias. Isso era sem precedentes! A Casa dos Siever estava um caos… isso significava que uma oportunidade como essa não poderia ser desperdiçada!

Hus Stanislav — Planeta Loven

András Stanislav

 

— Você está me dizendo a verdade? — eu realmente nunca poderia me atrever em acreditar em tais coisas despreocupadamente.

— Sim, senhor. Investiguei pessoalmente a veracidade dos boatos. Quanto ao paradeiro atual de Mestre Emil, ainda não conseguimos rastrear. Mas tudo indica que o Laço de Sangue que Mestre Dominik impôs sobre ele ainda está intacto, então é de se esperar que algo ainda mais aterrorizante deva ter o impulsionado a fugir.

— Eu não quero estimativas. Descubra o paradeiro de Emil antes que os outros e o traga a mim, e quanto ao primeiro filho dos Siever, descubra quem ele é e se ele realmente voltou para a Casa dos Siever.

— Sim, senhor!

O informante se retirou, me deixando sozinho com meus pensamentos. Se tal fato trivial tivesse acontecido em qualquer outro lugar da galáxia, não valeria a pena sequer mencionar. Mas foi na Casa dos Siever. Algo realmente grande tinha acontecido e nem mesmo eles foram capazes de limpar a própria sujeira.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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