DCC – Capítulo 81 – 3Lobos

DCC – Capítulo 81

Exotitã

 

Permanecemos mais dois dias na Casa dos Siever após eu ter despertado. A maior parte das pessoas de lá ainda me olhava com uma cara de quem não me queria por perto, mas ao menos não me desrespeitaram mais abertamente.

As buscas por Emil e Louie continuavam, mas tudo dentro do mais absoluto sigilo. Apenas eu, Henry, Petra e Dominik sabíamos o que aconteceu, os demais tinham apenas suas especulações e suspeitas. Depois de tudo, tinha ficado inclusive bastante óbvio que a culpa não tinha sido minha nem de Henry. Não tínhamos como sair de lá completamente machucados se fossemos nós mesmos quem tivesse feito todo o esquema.

De qualquer forma, não era tão ruim. Henry saia todos os dias para lecionar, e voltava entre uma aula e outra. Ninguém mais sabia que ele voltava para me ver nos intervalos dentro da Casa. Porque para todos os outros, viajar toda a distância entre a academia e Nefrandir através de uma fenda espacial era impossível, e considerando que Petra e Dominik queriam ambos que Henry assumisse a frente da Casa, deixar transparecer a extensão de seus poderes apenas iria dificultar as coisas.

Petra havia ficado bastante abatida, mas se ela ainda insistia em trazer Henry de volta para Casa, ela havia deixado de transparecer o sentimento. Parecia muito mais que ela buscava alguma forma de redenção para si mesma. Também fiquei sabendo que Dominik passava os dias em frente ao Campo de Falésias, onde ele mesmo tinha amarrado o corpo do próprio filho lugar através de um Laço de Sangue. Todos os dias, apenas para constatar que o Laço de Sangue estava ativo, ou seja: Emil estava vivo, mas sofrendo o tão falado castigo da traição.

Pelo menos depois de tudo, com as posturas culpadas e o reconhecimento de todos os erros, Henry tinha se aberto mais para os pais e permitido alguma aproximação. Mas além disso ele havia cortado qualquer mera possibilidade de retornar para a Casa. E apenas eu entendi que a razão por trás disso era para manter a separação entre seus familiares e a Relíquia da Transformação.

Eu passei o tempo que deu ensinando Amelie a andar de novo e controlar o corpo. Ela realmente parecia ter se tornado um bebê completamente dependente, tirando pela parte do choro, já que ao menos isso ela não fazia, de resto…

Mas felizmente, sem ninguém saber, eu liguei minha mente à dela, e transmiti algumas coisas com a ajuda da Sabedoria. Então, mesmo sem muito esforço real da minha parte, ela iria aprender bem rápido.

Ao final do segundo dia, Henry trouxe a nave de volta, e fomos embora juntos, ele, Amelie e eu. Henry não me falou muito da academia em si, e eu resisti ao impulso de procurar. Eu queria ter a surpresa e ver pela primeira vez.

Como ela não ficava no quadrante Cepheus como Keret e Nefrandir, a viagem demoraria um pouco mais, mesmo estando no quadrante ao lado. Quase quatro horas de viagem, depois de atravessar os vários parsecs que ligavam os quadrantes, a nave chegou no sistema estelar de Beta Antliae, segunda estrela do Quadrante 02: Antlia.

A princípio, eu acreditava que a academia era uma instituição de formação superior, como outras quaisquer que eu conhecia em Sátie. Ledo engano. À medida que eu vi a “Academia” diante de meus olhos, eu não pude deixar de ficar abismada.

Era simplesmente, impressionantemente, um inigualável centro espacial completamente artificial, com diversas estações orbitando a sua volta em perfeita harmonia. O que me deixou mais abismada foi o tamanho da coisa. Dizer que era equivalente a um pequeno planeta ou a uma lua gigante não era exagero. Era imenso!

Apesar disso, o formato não era esférico. Incrivelmente além do centro relativamente pequeno, uma sequência de anéis ia crescendo do menor para o maior, um dentro do outro, todos eles independentes uns dos outros. Ao todo, sete anéis orbitavam sem perder por um centímetro sequer a distância constante um dos outros.

— A academia fica nesse exotitã… — Henry começou a explicar, — ele é uma imensa estação que foi construída exclusivamente para abrigar a aristocracia das cinco grandes áreas do conhecimento humano. O anel menor e mais antigo é atualmente o anel administrativo, mas originalmente ele era ocupado pelos cursos de Engenharia e os de Teoria Pura. Agora, as Teorias Puras ficam no segundo anel, e as Engenharias no terceiro. No quarto ficam os cursos de Ciências da Terra, no quinto as Ciências Orgânicas e no sexto ficam as Ciências das Mentes. O sétimo é apenas residencial, então ele é aberto às pessoas em geral, mas nos anéis internos, apenas os estudantes podem entrar.

À medida que nos aproximávamos é que eu pude ter uma noção mais clara da imensidão daquilo. Logo pousamos, e eu sequer podia sentir a curva do anel externo. Sequer ver o anel seguinte que eu sabia estar girando logo acima de minha cabeça, era difícil. Além da atmosfera artificial criada ali eu podia distinguir apenas as linhas que contornavam os limites da estrutura seguinte girando a várias dezenas de quilômetros de distância.

O anel externo possuía uma infinidade de alojamentos, casas e até mansões para hospedar os alunos e professores, além de restaurantes, centros de estudo e lojas. Era uma gigantesca cidade completamente independente e auto-sustentável.

Havia uma quantidade impressionante de pessoas andando de um lado para outro. Grupos animados, e a parte mais interessante é que nem todos eram humanos!

Apesar da academia ser a maior instituição superior do império humano, ela contava com um grande número de intercambistas de outras raças, que pareciam ser ao mesmo tempo parecidos e ao mesmo tempo completamente diferentes.

A grande maioria dos que eu pude ver tinha uma morfologia inteiramente semelhante à nossa, mas haviam grandes diferenças, já que alguns pertenciam a classes completamente diferentes de seres vivos. Desde à quantidade de pelo no corpo, até a cor e textura da pele e o formato da cabeça e dos membros, algumas raças eram bem nítidas. Além disso, a quantidade diferente de Jomons e Brards só podia ser comparada com o festival de ano novo em Keret. Era tudo simplesmente impressionante e magnífico.

Henry sobrevoou por um tempo depois de termos entrado no espaço aéreo do anel externo, até chegarmos em um enorme hangar onde as naves ficavam estacionadas. Só que mesmo depois de um tempo pousados, eu não quis descer. Me virei para Henry e disse:

— Eu não quero que ninguém saiba que eu estou com você! — eu disse de supetão.

Henry franziu o cenho.

— Posso perguntar o porquê?

— Por que eu não quero ter que conseguir mais nada aqui pela sombra da sua influência… — eu comecei a explicar. — Eu já entrei aqui com sua ajuda… Então, se eu for sozinha, o que eu conseguir, se eu conseguir, eu vou saber que foi por mim mesma.

Henry pensou por um momento antes de responder, enquanto eu mantinha firme meu olhar decidido para ele.

— Faz sentido… bom, se é o que você deseja, assim será feito!

Henry me deixou com deixou com Amelie, e fomos andando para um prédio administrativo no anel externo. Havia pouquíssima gente fazendo o credenciamento, já que as aulas já haviam começado na semana anterior.

Aquele era um momento completamente novo na minha vida. Tudo tinha que dar certo!

— Sai da minha frente! — Eu ouvi uma mulher resmungar enquanto empurrava um garoto de capuz baixinho ao ponto dele perder o equilíbrio e cair. — Se você vai ficar parado aí com essa cara de perdedor, não devia nem ter vindo pra esse lugar.

Ela se afastou com a cara amarrada, resmungando grosserias. Eu detestava aquele tipo de gente. Então me aproximei do garoto ainda caído e estendi a mão para ajudar.

— Não deixe esses tipos te amedrontarem, as coisas só pioram se você baixar a cabeça! — eu disse, olhando para as costas da mulher que já estava distante.

O garoto agarrou a minha mão e se levantou.

— Não tem problema, acho que isso vai ser comum já que eu sou mestiço, mas de qualquer forma obri… Alésia?? — O garoto falou, olhando surpreso.

Então eu finalmente virei os olhos para ver o rosto dele pela primeira vez. Tecnicamente não era para ninguém me conhecer nesse lugar. Quem diabos saberia o meu nome? Mas então senti meu queixo cair assim que percebi quem era:

— Isaac!?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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