DCC – Capítulo 80 – 3Lobos

DCC – Capítulo 80

Simples assim

 

Eu limpei a garganta nervosa e sem jeito.

— Enfim, e a academia? — eu perguntei tentando mudar de assunto. Eu não estava emocionalmente preparada para lidar com um flerte tão direto estando acamada.

— As aulas já começaram tem uma semana, — Henry disse.

— O que? Então eu perdi o prazo? — perguntei desapontada. E pensar que eu tinha passado por toda essa confusão e não tinha conseguido a vaga afinal.

— Foram apenas as aulas iniciais. Sua matrícula foi feita, e você pode ir pra lá assim que estiver bem. Me dê mais um ou dois dias de observação, e você vai estar pronta pra tudo. — ele disse, de novo, mostrando a cara de lobo mal.

— Há! Você não presta… — eu disse empurrando ele de leve com uma mão.

— Que absurdo! É claro que eu presto! — ele disse se fingindo de ofendido. — E tem outra coisa que você precisa saber também.

— O que é?

— Eu também estarei frequentando a academia.

— Como assim? Pra que? — A ideia do todo poderoso Henry Siever voltar a ser aluno era meio absurda pra mim.

— Eu vou lecionar na universidade de B.M. — ele disse sorridente. Isso me pegou de surpresa. — Na verdade, as aulas já começaram. Estava em uma das minhas turmas quando estive fora.

— Ual… isso é realmente um belo progresso… — eu disse admirada. — O que é B.M.?

— Bioengenharia Médica, oras! É um pouco irritante às vezes, eu sempre tenho que botar pra fora pelo menos umas quinze pessoas que não fazem parte do curso, e que só apareceram de curiosos, mas estou me divertindo. Os alunos são bem inteligentes e correspondem bem.

— E como foi que conseguiu uma vaga para lecionar assim tão fácil?? — perguntei.

Ele levantou uma das sobrancelhas como se eu tivesse feito uma pergunta retórica.

— Bom, a universidade de B.M. já andava atrás de mim desde antes de eu atingir o auge da área para dar palestras. E o Richard dá aulas lá. Quando ele soube que eu iria te acompanhar até a academia, ele não perguntou se eu não queria aproveitar a deixa pra ensinar a nova geração já que eu já estaria lá. Então eu topei.

— Isso é bom… é errado você ficar desocupado! Faz mal pro juízo, — eu disse.

Continuamos jogando conversa fora por um tempo. Henry me colocou para caminhar um pouco. Era bom esticar as pernas depois de tanto tempo inconsciente — de novo. Foi quando Petra voltou que eu me lembrei de perguntar uma coisa que tinha me incomodado.

— E onde está Amelie? Já retirou a ordem para que ela fosse minha amiga? — eu perguntei para Petra. Essa pose humilde dela ainda não havia me ganhado.

Petra olhou para Henry antes de me responder, como se estivesse perguntando alguma coisa.

— Não, eu não retirei a ordem de Amelie… — ela respondeu apática.

— Então ela não está por perto? Imaginei que ela já teria vindo me ver se estivesse por aqui.

Petra suspirou profundamente. Alguma coisa na expressão dela me deixou inquieta.

— O que aconteceu? — eu perguntei olhando de Petra para Heny.

Os dois me levaram até Amelie.

— Emil e Louie apagaram completamente a memória de Amelie. Provavelmente eles iriam plantar alguma memória falsa sobre o incidente, ou apenas deixar o corpo vazio dela lá para servir de prova contra você, mas alguma coisa deve ter acontecido para terem saído tão rápido.

— E por que não consertaram isso? — eu perguntei assim que a vi.

Amelie estava sentada em uma poltrona dentro de um dos quartos da enfermaria. Ela estava virada para a janela olhando para o lado de fora com a expressão curiosa, sem sequer se mover.

— Oniscientes não são capazes de remover, repor ou alterar memórias, apenas obliterantes. A coisa mais invasiva que podemos fazer é controlar a vontade de alguém. Mesmo assim, apenas se a pessoa tiver a mente mais fraca, ou for suscetível a isso. É impossível para qualquer um de nós recuperar Amelie ao que ela era antes. Nós a perdemos para sempre.

Petra explicou, olhando para Amelie.

— Mas… um obliterante deve conseguir reparar isso, não? — eu perguntei, sentindo um aperto no peito.

Henry porém sacudiu a cabeça em negação. E me olhou seriamente como se me alertando.

— Mesmo que déssemos a sorte de encontrar um obliterante, teria que ser especificamente o obliterante que conjurou o feitiço usado nela, o que é quase impossível, considerando a dificuldade de identificar um corretamente. As memórias dela não foram apenas trancadas ou alteradas. Foram completamente apagadas. A alma dela ainda está ai, então ela pode viver de novo, e aprender de novo tudo do zero, mas tudo o que ela viveu até hoje foi perdido para sempre.

— Mas… — eu me virei para Henry, e ele me lançou um olhar significativo. Eu era uma obliterante. Mas apesar de coincidentemente Emil ter levantado suspeitas de que eu era uma para me incriminar, depois que a verdade foi descoberta, ninguém mais suspeitava disso.

Por outro lado, uma grande comoção havia aparecido. Eu estava começando a ter consciência de como a obliquação era temida depois de ver Amelie. Uma vez que ninguém teria coragem de se relacionar com um obliterante, dada a natureza do poder, todos ainda tinham uma sensação de segurança de que não se podia arquivar feitiços de obliquação em crisálidas, já que isso nunca tinha acontecido antes.

Não… não era que isso nunca tinha acontecido… Nunca tinha vindo a público era o mais correto a se dizer. Que tipo de pessoa precisaria comprar uma crisálida capaz de alterar, trancar e apagar memórias? Com certeza não o tipo que tinha boas intenções, ou pretendia fazer coisas boas. Em um mundo onde guardar segredos era difícil, e tudo sempre estava às claras, poder esconder algo deveria ser extremamente valioso.

Independente de Brard ou Jomon, os humanos iriam sempre buscar um meio de se dar bem à custa dos outros, e acima de tudo, o que eles não fariam se soubessem que ninguém poderia descobrir? Eu imaginava que era um exagero classificar toda uma classe de artistas mágicos como criminosos apenas por conta da natureza de seus poderes. Mas independentemente do que, por mais traiçoeiros, arrogantes e elitistas que fossem os oniscientes, a natureza do poder deles era a honestidade consigo mesmo.

Mas qual era a natureza da obliquação?

Qual a resolução necessária que um artista precisava ter para se tornar um obliterante? Eu só conseguia sentir que nesse momento eu tinha um nojo tão grande do obliterante que fez aquela crisálida, que eu pude sentir esse nojo escorrer para fora do meu corpo como se fosse veneno impregnado em minha aura.

Henry e Petra sobressaltaram-se com a minha reação.

— Dê ela para mim! — eu disse para Petra.

— Como assim? — Petra perguntou de volta

— Amelie. Me dê Amelie! — eu disse com convicção. — Ela foi uma vítima nisso tudo tanto quanto eu e acabou sofrendo de graça, apenas para seguir suas ordens. — Petra até parou de respirar ao ouvir minhas palavras. — Se ela tem que aprender tudo de novo, eu quero ensiná-la.

— Mas… o que alguém como você pode fazer por… — Petra disse, mas encontrou o olhar de repreensão do filho e parou. Essa mudança de postura entre os dois era ligeiramente bizarra.

— Eu realmente não posso ensinar ela a ser uma Jomon… — eu insisti, — mas eu posso ensinar como ser humana. Ela não merece passar os dias trancada na enfermaria sem nenhuma perspectiva de vida.

— Você tem certeza disso? — Henry perguntou. — Não é como ensinar alguma coisa qualquer. Ela simplesmente esqueceu de tudo! Então nem mesmo comer ela pode fazer sozinha nesse momento.

— Sim, tenho certeza!

Petra suspirou pacientemente. Ela tinha aquela aparência de quem era superior a todos os outros, mas nesse momento, ela teve que me reconhecer. Amelie tinha encontrado esse destino à toa. E eu me senti responsável, do fundo do meu coração. Mesmo que eu não pudesse usar os meus poderes para ajudá-la a voltar a ser quem ela era, eu iria gastar tudo o que eu tinha para dar a ela uma vida nova.

Então Petra foi até Amelie, que nos olhava com a expressão curiosa como se fosse um bebê no corpo de um adulto. Quando estavam frente a frente, Petra então abaixou-se até beijar a testa de Amelie. Com o beijo, uma sensação fria de que algo tinha acabado inundou a sala. O Laço da Alma que ligava uma à outra tinha sido desfeito. Simples assim.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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