DCC – Capítulo 8 – 3Lobos

DCC – Capítulo 8

As boas-vindas em casa

 

A nave de Siever era impossivelmente veloz. Um nível de tecnologia provavelmente ainda desconhecido e inimaginável para as pessoas normais da galáxia. Em menos de 20 horas de viagem nós havíamos atravessado mais de três mil parsecs até chegar ao quadrante 87. Não conversamos muito durante a viagem. Siever apenas explicou os detalhes.

Eu tinha compulsoriamente me tornado a guardiã da Relíquia da Criação, que controlava os poderes que envolviam a “matéria”. Poderes! Magia! Nunca havia imaginado entrar nesse meio. Minha mãe sempre dizia que aqueles que praticavam magia provavelmente viviam em seitas alienadas.

E os efeitos colaterais eram os piores. Os níveis de poder da relíquia estavam sempre em franca expansão. Controlar não significava manter guardado. Era justamente o oposto. Eu deveria usar a relíquia para drenar o excesso de poder e assim, evitar que explodisse. E era tudo muito confuso e assustador.

Como a matéria suga energia, inclusive calor, a relíquia iria sugar para sempre o calor do meu corpo e das coisas ao meu redor. O frio que isso causaria seria uma constante, o oposto de Siever por exemplo. Ele se assumiu guardião da Relíquia da transformação, correspondente com a energia. E ele estaria sempre exalando energia pura do corpo, então deveria sempre se policiar para não super aquecer e cozinhar de dentro para fora.

Por outro lado, eu ironicamente estaria praticamente imune às altas temperaturas, já que não importa quão quente, se eu soubesse como, poderia simplesmente absorver o calor externo, assim como ele estaria imune ao frio, porque não importa quão frio, ele sempre produziria mais energia para suprir o corpo.

A primeira e melhor forma, de acordo com ele, de equilibrar as duas relíquias era manter a proximidade uma da outra. A Relíquia da Criação iria sempre absorver a energia excedente da Relíquia da Transformação, enquanto estivessem dentro de seres vivos, e assim, ela poderia se aquecer, e ele poderia se resfriar. A segunda forma, era literalmente explodir. Eles deveriam procurar um local isolado e deixar o excedente da energia sair livremente de seus corpos. Era eficiente, e potencialmente não letal, mas pelo que ele deixou transparecer, doía, e tinha que ser feito, principalmente por mim já que a relíquia tinha estado fora de um corpo vivo por quase dezoito anos, acumulando a si mesma, e deveria estar incrivelmente instável.

Mas essa não era a parte que mais havia me assustado. Aparentemente o meu corpo iria parar de mudar de forma perceptível. Em pouco tempo a Relíquia estaria fundida perfeitamente à minha alma e isso seria expresso no corpo. Eu não envelheceria mais, nem me incomodaria tanto com o frio. O problema era sobreviver até lá. Era necessário que meu corpo fosse no mínimo resistente suficiente ao intenso fluxo de energia que passaria por cada célula todos os segundos da existência.

Siever disse que havia se posicionado tão intensamente contra a decisão de Marco em me expor à Relíquia, porque mesmo que a relíquia me escolhesse como guardiã, a estrutura do meu corpo, como uma Brard, não suportaria muito tempo e pereceria. Eu estava com os dias contados e, pelas contas dele, não eram muitos.    

― Você está bem? Estamos chegando ― disse ele, se aproximando da órbita do planeta. Eu assenti silenciosamente. Não tinha respostas pra dar, e ele parecia não ter muito tato com as palavras. ― Olhe, viemos fugidos do palácio, e mesmo estando aqui, viemos tentar apagar alguns rastros então, estaremos entrando ilegalmente no seu planeta. Tecnicamente você nunca saiu dele, então não será um problema se você reaparecer lá, e é bom que a minha chegada seja segredo para não causar alvoroços.

― Hmm… ― grunhi levemente irritada ― Até imagino por que… você tem o mesmo nome do grande bioengenheiro mais famoso da galáxia…. Siever… Siever e Gionardi… eu mesma não me surpreenderia se fosse, já que você não envelhece e estava, diga-se de passagem, ao lado do Imperador em pessoa. ― Lembrei de Marco e da forma como todos se portavam ao redor dele quando o vi a primeira vez ― Imperador… que surreal ― minhas palavras acabaram saindo como deboche.

― Na verdade, é isso mesmo… ― disse Siever, sem registrar o meu tom de voz.

― Isso o que? ― de repente fiquei confusa.

― Eu sou aquele bioengenheiro médico super famoso e estava mais ou menos hospedado no palácio do imperador. ― Ao ouvir isso acabei gargalhando. Era muito surreal. Mas ele não sorriu, olhou confuso para mim e perguntou ― Por que está rindo?

― Como assim, você é o grande bioengenheiro Siever e aquele outro babaca é o Imperador da Galáxia? Tipo assim…. da GALÁXIA? Eu imaginava vocês um pouco mais velhos, principalmente você… ― Eu só consegui rir, nervosa. Até reparar na expressão contrariada do rosto dele.

― De fato, eu pareço jovem… parei de envelhecer muito antes de você nascer, e mesmo assim isso é bem recente do meu ponto de vista. Marco parece um pouco mais velho… mas temos praticamente a mesma idade… ― ele pareceu pensar um pouco ― Convertendo em sua contagem de anos, seria por volta de dois séculos e meio, mais ou menos… parei de contar…

Eu parei de rir completamente e fitei Siever incrédula.

― Você não está falando sério…. ― insinuei.

― E por que não estaria? Somos Jomons!

― Não isso! ― retruquei imaginando que ele pensava que estaria surpresa com a longevidade deles. ― Vocês… são tipo as pessoas mais importantes da galáxia! Está me dizendo que eu fui arrastada três mil parsecs de distância do meu planeta natal por uma força mágica incompreensível até a presença de duas das pessoas mais importantes da galáxia inteira, porque eu provavelmente sou a reencarnação da última pessoa que guardou essa coisa que está em mim agora?

― Ah… sim? ― Siever parecia estar achando graça agora ― Não precisa ficar chateada com esses detalhes… Só lhe recomendaria ― e ao falar agora ele colocou uma expressão séria, quase zangada ― no que puder evitar, sempre… SEMPRE fique longe de Marco. Ele é um bom político e diplomata, principalmente quando aparece na frente da mídia, ele até banca ser o cara legal…. mas se permitir, ele vai acabar te manipulando. Ele é um sádico cruel, não vai pensar duas vezes antes de te fazer sofrer só pra se divertir.

Eu me encolhi no banco. A atitude dele mudou completamente ao falar de Marco. Ele exalava uma aura de puro ódio e ressentimento, tanto que senti o calor emanando de seu corpo. Imaginei o quê de tão terrível o Imperador em pessoa havia feito a ele, apesar de começar a partilhar desse ponto de vista também, me lembrando da tortura do dia anterior.

Pouco antes de entrar na atmosfera de Sátie, Siever pediu o meu endereço e me levou disfarçadamente entre as naves de passeio que já haviam passado pela imigração, usando alguns truques mágicos estranhos para encobrir nossa passagem. Logo estávamos no tráfego aéreo do planeta, em direção à minha casa que ficava na Zona Amarela da cidade de Ivana. Ele estacionou a nave a duas quadras de distância. Por um momento, o medo da morte iminente foi realocado pelo medo de encarar mamãe.

― Que horas são? Não… que dia é hoje? ― perguntei nervosa, sem querer descer do carro.

Henry colocou o gerador de realidade aumentada no rosto, aparentemente para consultar um calendário, e disse:

― São sete da manhã do dia oito de outubro ― disse ele calmamente.

Eu só pude gemer. Três noites fora fugida do hospital depois de supostamente causar uma destruição. E eu não tinha uma explicação pra dar. Nunca iriam acreditar em mim, mesmo que levasse Siever. Mas eu tinha que ir, era minha família. Não haviam sobrado amigos que estivessem do meu lado, e nem tinha contato de familiares que me dessem apoio.

― Obrigada pela carona, Siever. Nos… vemos de novo? ― perguntei insegura.

― Ah… claro! ― disse ele, fazendo novamente a cara intrigada. ― Boa sorte com sua mãe. Pelo que me contou, vai ser uma recepção difícil. E não conte nada sobre a relíquia ou onde estava para ninguém.

Eu só pude sorrir sem jeito. Fechar a porta da nave e fui caminhando sem pressa para casa, quando lembrei de devolver o link e o tradutor, mas ao me virar a nave já tinha sumido. Suspirei profundamente. Pelo menos tinha uma lembrança nas mãos que mostrava que não tinha enlouquecido completamente, e aqueles dias não tinham sido uma grande e dolorosa alucinação.

Cheguei na porta de casa, e estava preste a bater, mas parei com a mão no ar, a centímetros da campainha. Que iria dizer? Sendo a verdade, dessa vez não seria tão fácil. Não foi uma memória que brotou do nada pelas razões ridículas que Siever havia me dado. Estava começando a ficar com mais frio. Mas antes que pudesse me decidir o que fazer, decidiram por mim. Mamãe, que sempre saia para o trabalho por volta desse horário, vinha saindo como sempre, e parou de chofre ao dar de cara comigo. E por um breve segundo eu acreditei que tudo ficaria bem. Uma lágrima escorreu ligeira pelos olhos dela, mas no segundo seguinte a briga.

Senti o rosto arder depois que a palma de mamãe desceu com força. Mas não pude reclamar. Esperava por isso de qualquer forma. E com o corpo contorcido de raiva, ela me arrastou para dentro de casa e me jogou dentro de meu quarto.

― Quando eu voltar, conversamos! ― ela sibilou e bateu a porta. Pouco depois, eu ouvi a chave girando na fechadura pelo lado de fora. Ela iria me deixar trancada.

É claro! Se ela acha que eu fugi, não vai deixar a saída fácil novamente… e nem pra perguntar como eu estou… Eu só podia esfregar o rosto onde tinha apanhado e massagear a pele. Virei para a cama frustrada e zangada.

Mas já havia alguém lá.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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