DCC – Capítulo 79 – 3Lobos

DCC – Capítulo 79

A ovelha

 

Um mês imperial depois

Alésia Latrell:


Acordei com a sensação assustada e sem ar como que se tem quando desperta de repente do pesadelo de que está caindo de algum lugar para a escuridão. Minha mente girava violentamente em um turbilhão confuso de pensamentos e sentimentos que eu não conseguia administrar direito, e me senti acuada, como se algo estivesse me prendendo.

— Calma! Calma! Está tudo bem! — Uma voz familiar tentava me acalmar.

Eu parei de me debater ao perceber que era apenas o cobertor que estava em cima de mim. Eu olhei ao redor, até entender que estava em um quarto todo branco cercada por equipamentos médicos de Henry…

— Onde está Henry? — eu falei sem fôlego. Eu não conseguia sentir a presença dele por perto. Então foquei a atenção na outra pessoa que estava no quarto.

— Henry está bem. Ele foi resolver algumas coisas, mas já retorna pro seu lado, — a voz familiar explicou de novo.

Era Petra. Ela quem guardava meu leito pessoalmente. Eu olhei para ela meio desconfiada enquanto tentava me acalmar.

— Que aconteceu? — eu perguntei perdida.

— Eu esperava que você pudesse me responder isso…

Minha mente estava consideravelmente confusa. Eu tentei focar nas minhas últimas memórias, mas o turbilhão confuso começava a se formar de novo, me deixando tonta. Eu não conseguia lembrar exatamente o que tinha acontecido, mas eu lembrava do sentimento. Como se algo terrível tivesse acontecido e me rasgado por dentro ao ponto de eu me perder de mim mesma.

— Qual a última coisa que se lembra? — ela perguntou.

— A última coisa que eu lembro… é de estar voltando para a Casa dos Siever com Amelie e Louie e… — eu me lembrei por que eu estava tão agoniada em voltar logo pro lado de Henry.

A conversa que eu presenciei entre Emil e a outra pessoa era algo muito sério. Emil tinha recebido uma crisálida obliterante. Ele pretendia alterar a minha memória e a de Henry e nos incriminar. Eu precisava avisá-lo.

— Você está mesmo bem debilitada… — Petra disse, me olhando com um ar curioso. A ausência de todo aquele egocentrismo que ela tinha ao me olhar me incomodou um pouco. — Ao menos parece que sua memória não foi tão afetada. Nós já soubemos de todo o plano de Emil e Louie.

— !!! … Louie? — eu perguntei confusa. Ele fazia parte do plano?

Então Petra me explicou os acontecimentos com o mínimo de detalhes possível.

— Pelo visto eles conseguiram usar a crisálida obliterante em você antes de fugirem… esperando que assumissemos a acusação de que você era uma obliterante e tudo tinha sido um plano seu, — Petra disse. — E o plano deles teria dado certo não fosse pelo Elo de Conceito que estabeleci com Henry.

Pelo menos agora ela não iria ficar pegando no meu pé sobre eu ser uma Brard, ao menos por um tempo.

— Quanto a você ser uma Brard, eu vou relevar isso por enquanto, — ela disse acompanhando meus pensamentos.

— A senhora… entendeu o que eu pensei? — eu disse levemente surpresa. Depois de todo mundo dizendo que não conseguiam ver minha mente, era estranho.

— Enquanto você está fraca ou inconsciente, sua mente tende a estar desprotegida. Esse é um dos grandes pontos fracos dos artistas oniscientes. Então eu pude captar alguma coisa ou outra. De qualquer forma, recomendo tentar realinhar a sua mente e procurar por inconsistências na sua memória.

— Por que está aqui? — não resisti em perguntar.

Ela me olhou como se esperasse a pergunta.

— Eu ainda não gosto de você. Você é fraca e insuficiente — ela realmente foi bem direta —, mas também não consigo encontrar mais razão nenhuma para te proibir de estar com Henry.

— Ah… obrigada? — eu disse.

— E… eu queria te pedir desculpas em nome dos Siever por tudo o que teve que sofrer durante sua estadia em nossa Casa. E pedir que, se possível, nenhuma informação sobre esse incidente saísse dos muros da propriedade.

— Eu não tenho porque sair divulgando tudo o que aconteceu. Eu sequer lembro de tudo. Minhas memórias parecem estar rodando sem rumo tentando se ajustar para conter alguma coisa grande que está faltando.

— Bom, se só o que lhe falta são os acontecimentos depois que esteve com Amelie e Louie, então eu me consideraria feliz… eu mesma não vou conseguir viver em paz o resto da minha existência com essas lembranças.

Agora que eu reparava bem nela, ela realmente estava abatida e com a aparência cansada. Toda a dignidade que ela exibia em nossos outros encontros parecia ser apenas uma sombra, como uma máscara que ela vestia à força para sair em público.

A porta foi aberta de uma vez.

— Voltei o mais rápido que pude! — Henry veio atravessando a porta sem bater. O calor dele me inundou imediatamente, assim como um imenso alívio que eu não sabia explicar porque. Sequer teve espera entre a chegada do calor e ele entrando na sala, então ele deve ter aparecido logo atrás da porta quando voltou de onde tinha ido.

O rosto dele se iluminou também de alívio ao ver que eu estava acordada e ele correu pro meu lado para segurar minhas mãos.

— Você está bem? — eu perguntei sorrindo sem me conter para ele.

— Idiota, eu que deveria estar te perguntando isso! Você ficou um mês inconsciente… — Ele disse colocando toda a preocupação dele pra fora. — E por que você está chorando?

Eu levei uma das mãos ao rosto para então perceber que eu estava derramando um rio de lágrimas. Eu não sabia por que, eu apenas estava muito, muito, MUITO aliviada por ver Henry na minha frente. Petra achou a deixa do momento para sair silenciosamente do quarto e nos deixou a sós.

— Eu não sei… eu não lembro do que aconteceu, apenas sinto essa dor imensa de ter perdido algo e esse alívio maior ainda. Sua mãe acha que Emil e Louie usaram a crisálida obliterante pra apagar minhas memórias, mas eu sei que foi algo que eu fiz a mim mesma. Seja lá o que aconteceu, foi tão ruim assim? — eu perguntei a ele.

Se tinha um julgamento que eu poderia confiar sobre o que eu deveria ou não lembrar, era o meu mesmo. Eu sabia que não deveria forçar minhas memórias para lembrar o que tinha acontecido. Elas tinham sido guardadas por algum motivo assustador, mas mesmo que eu tenha guardado as memórias, os sentimentos que foram criados com elas ainda estavam ali, rodopiando em minha mente como as memórias de Nádia estiveram por um tempo antes de eu aprender a lidar com elas. Seja lá o que aconteceu, foi tão terrível que não foi possível trancar tudo. Mesmo sem as memórias, os sentimentos não ficaram apenas meramente marcados no meu corpo. Ficaram marcados na minha alma.

E Henry não conseguiu responder. Ele apenas me abraçou como se pudesse sentir — e podia — a minha dor. E sem saber o porquê, eu chorei nos braços dele. Henry me explicou a versão dele do que tinha acontecido naquele dia e o que tinha acontecido depois.

Eu pude entender o porquê de eu ter escolhido esquecer aquilo tudo indefinidamente. Eu não aguentaria ter que recordar a visão dele ferido em meus braços. Apenas por saber já me deixava extremamente perturbada. Ele não sabia o que tinha acontecido com Louie e Emil, que desapareceram antes de todos chegarem à nossa localização.

Logo depois dele ter sido reanimado, Henry teve que se recuperar, e teve que instruir o amigo Richard sobre como tratá-lo da forma mais rápida possível para que os dois estivessem em condições de cuidar de mim. Richard não seria capaz de lidar comigo sozinho, e me tratar à força como os mecânicos de renascidos faziam na Lua Laplanitine iria atrapalhar mais do que ajudar.

Logo depois de Henry conseguir forças o suficiente para cuidar de mim, ele o fez, mas eu continuei desacordada por um bom tempo, sem motivo aparente.

— Eu só não entrei em pânico, já que graças ao Laço da Alma eu sabia que esse tempo foi você mesma quem decidiu tirar para reordenar sua mente, — ele complementou.

— Laço da alma? — eu perguntei confusa.

— E pensar que você não lembra nem mesmo disso… — ele sorriu com uma expressão provocadora. — Você forçou minha alma a se ligar à sua por um Laço da Alma para que eu não morresse. Agora minha vida pertence a você, quer queira ou não.

Uau. Eu realmente devia estar desesperada para ter feito algo assim tão de repente. Mas Henry não parecia nem um pouco chateado com minha ação arbitrária. Pelo contrário, ele sorria radiante quando falou sobre o laço.

— Por que isso te deixa tão feliz? — eu perguntei confusa.

— Por que agora que estou ligado a você eu posso sentir o que você sente por mim, e eu posso sentir que você realmente me ama!

Eu senti meu rosto aquecer anormalmente depois do que ele disse. Então a expressão de bobão alegre foi substituída por a de um lobo faminto e ele se aproximou até encostar os lábios em minha orelha e sussurrar:

— Eu disse que iria esperar o tempo que fosse preciso até você estar pronta. Agora que você já sabe que me ama, eu vou esperar mais apenas a sua recuperação. Depois você será minha!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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