DCC – Capítulo 78 – 3Lobos

DCC – Capítulo 78

Sem rodeios

Henry Siever:


Eu acordei sobressaltado. Tudo doía de uma forma horrorosa. Eu esperava ver Emil aparecer a qualquer segundo para terminar o que tinha começado, e busquei Alésia por todo lado esperando ver o corpo dela a qualquer momento. Mas eu me senti relativamente aliviado porque ainda podia senti-la por perto.

— Você está bem? — Era mamãe.

— O que houve? — perguntei desconfiado.

— Seu pai ainda está resolvendo os últimos problemas. Tudo foi esclarecido… — ela não esbanjava mais a postura nobre de antes. Parecia extremamente desgastada.

— Não é isso que queria saber. — Eu a corrigi. — Onde está Alésia?

Mamãe apertou os lábios resignada, como se tivesse desistido de lutar contra a situação.

— Ela está no quarto ao lado…

Eu não esperei que ela terminasse. Eu podia sentir a proximidade de Alésia. Eu tinha que vê-la. Se ela estava viva, eu tinha que vê-la. Independentemente do que, eu precisava vê-la.

— Não seja imprudente! — Mamãe brigou ao me ver tentar sair da cama. — Seu corpo foi a óbito por muito tempo. Graças a deus seu amigo Robert estava aqui para reanimá-lo, senão teríamos te perdido.

— Eu não me importo com isso. Eu quero ver Alésia! — Eu insisti tentando me levantar da cama.

Mamãe suspirou resignada.

— Ao menos faça isso direito. Deixe-me chamar alguém para vir te levar até a menina. Não jogue fora todo o esforço que ela fez por você… — ela disse.

— Como assim?

— Ela permaneceu ao seu lado durante toda a cirurgia apenas para garantir que sua alma não fosse embora. Em outras condições eu nunca iria querer admitir isso, mas você realmente encontrou alguém especial.

— Mas ela… ela estava… — A última coisa que eu me lembrava era de Louie acertando uma flecha bem no coração dela. Mesmo sendo artificial, seria muita sorte não ter danificado. — E quanto a Louie e Emil? — perguntei. Meu peito doía ao lembrar de Louie. Haviam muitos anos que estávamos separados, e eu podia entender que ele tivesse se aliado ao Emil, mas a esse ponto…

Mas mamãe apenas sacudiu a cabeça.

— Louie desapareceu completamente antes de chegarmos ao centro da Esfera Caótica. Não pudemos encontrá-lo em lugar nenhum. Já Emil… ainda captamos uma pequena flutuação de energia, mas por conta do espaço caótico naquele momento, não pudemos perseguí-lo.

— Ok… — Não tinha o que discutir sobre isso. Ela realmente não tinha ideia de onde ele estava. Eu podia sentir o estado emocional em que ela estava. Ela também deve ter visto e sentido tudo o que eu senti durante o confronto até certo ponto.

Logo depois, Richard chegou até meu quarto com uma cara de alívio e de quem pede desculpas ao mesmo tempo.

— Ah… que bom que acordou. Eu tinha segurança de que podia te trazer de volta, mas eu realmente estava preocupado. Tive medo de que meu estado emocional pudesse afetar a cirurgia… — ele se explicou.

— Não tem problema. Qualquer coisa, eu mesmo posso tentar dar um jeito depois. — Eu o tranquilizei.

— Quanto a menina… — ele me olhou de cabeça baixa.

— O que tem Alésia? — Eu quase me levantei de novo, angustiado com o tom de voz dele. Parecia estar decidindo de valia a pena ou não falar em frente a mamãe.

— Eu fiz o que pude. Ela está se recuperando.

Havia algo mais.

— Nos deixe a sós mãe, — eu pedi. Ela não insistiu. Mesmo que ela não tivesse poder suficiente para dizer o que alguém pensava sem estar tocando, ela poderia facilmente sentir as intenções. — Fale, — eu disse a Richard.

Richard não deu rodeios.

— A tecnologia que usou para o corpo dela é avançada demais para que eu pudesse fazer realmente alguma coisa a respeito. Eu pude apenas tentar estabilizar o corpo dela e esperar que ela se recuperasse sozinha depois. Também, acumulando quantidade de dano prévio que ela parece ter tido de outras ocasiões e ainda não estava completamente recuperada. Com aquilo que está no corpo dela, eu não me atrevi a tocar nela além do necessário…

Eu compreendi onde ele queria chegar, e estava agradecido de todo coração, principalmente depois de tanta traição, por ele não ter dito nada a mais ninguém. Especialmente estando no meio do maior centro de oniscientes da galáxia.

— Outro ponto foi que eu não consegui baixar a sua temperatura corporal e nem aumentar a dela. Isso… eu sei que não tenho o direito de perguntar… mas que espécie de experimento bizarro fizeram com vocês?

Essa era uma das vantagens de eu ser um médico. Qualquer outro que fosse tocar em nós iria instantaneamente perceber que havia alguma coisa errada. E Richard era um dos melhores entre os bioengenheiros médicos que eu já conheci. E ele havia chegado ao nível que estava sem ter usado a Sabedoria. Obviamente ele não iria deixar passar algo tão drástico.

— Eu não posso te dizer tudo o que tem de errado… Basta saber que eu e ela fomos expostos a uma substância que nos afetou, e eu precisei fazer algumas modificações nela pra que ela pudesse sobreviver. Eu lhe dou minha palavra de que não foi nada ilegal.

Richard respirou aliviado. Ele estava genuinamente preocupado. Mas eu tive que complementar:

— Ainda assim, é imprescindível que ninguém mais saiba sobre isso. Pode ser perigoso por conta daqueles que querem descobrir essa tecnologia e roubá-la de nós para usá-las como armas.

Eu não iria dizer a ele exatamente o que eram as relíquias. Mas também não poderia deixá-lo completamente no escuro. Era mais fácil deixar alguma luz para ele. Richard aceitou minhas palavras e a importância do segredo de manter o segredo. Isso já era o suficiente.

— Agora me leve para ver Alésia!

— Certo! — ele concordou preparando a maca para me levar até lá.

Alésia estava deitada em uma maca, muito pálida e fria, coberta com um lençol térmico e ligada a equipamentos de suporte à vida. Ela parecia tão pequena e frágil ali. Me partiu o coração ter que vê-la, de novo, com a vida por um fio. A Relíquia da Criação reagiu imediatamente à minha aproximação, e o quarto que antes estava frio, começou a aquecer levemente, ficando com uma temperatura agradável. Richard percebeu isso na hora, mas não fez comentário algum.

— Me deixe aqui ao lado dela, — eu pedi para Richard, que empurrou minha maca até estar lado a lado com a de Alésia.

— Me desculpe por não ter podido ajudar mais… — Richard disse realmente frustrado. — Vou mandar preparar o pós operatório dos dois no mesmo quarto. Deve ser mais fácil assim…

Eu apenas acenei com a cabeça e depois Richard se retirou. No fim das contas, ele realmente não havia feito muito. Alésia ainda tinha as feridas que não iriam sarar tão facilmente. E eu ainda não estava em condições de tratar dela eu mesmo. Eu só podia esperar que ela aguentasse firme até eu poder fazer algo por ela.

No fim das contas, talvez ter ido ver Marco fosse menos arriscado do que ter vindo pra cá. E mesmo se eu tivesse vindo sozinho, talvez nada disso tivesse acontecido. Ela estava sofrendo cada vez mais. Eu não poderia achar ruim se depois ela me culpasse. Afinal, foi culpa minha.

Tudo o que aconteceu com Emil… se tivesse acontecido comigo, mesmo eu teria virado um monstro. Mesmo considerando que a minha vida nesses cinquenta anos também não foi fácil, e que eu também tive que sentir a traição de alguém que eu considerava um irmão quando Marco fez tudo o que fez, então eu não poderia dizer que não entendia Emil. Eu tinha errado com ele, e ele havia sentido isso como uma traição tão grande ao ponto de querer se vingar. Eu mesmo agora sentia um ardor pela vingança que eu nunca tinha sentido antes.

Mas eu não podia me preocupar com isso agora. Eu tinha que me recuperar rápido e cuidar de Alésia. Ela era a única inocente nessa história.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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