DCC – Capítulo 77 – 3Lobos

DCC – Capítulo 77

Extremos

 

Alésia Latrell:


Quase imediatamente após eu proferir minha maldição contra Emil, ele começou a arquejar sem fôlego e tombou no chão agonizando. Por enquanto ele não poderia imaginar o quão miserável seria a existência dele de agora em diante. Essa terra ao qual o corpo dele estava preso não iria mais aceitar a permanência dele. Se ele ficasse sofreria a dor da repulsa que meu poder tinha imposto. E se ele partisse, sentiria a dor da quebra do Laço de Sangue.

Nenhuma das duas opções seriam boas para ele. Assim como o Laço da Alma, o Laço de Sangue era extremamente cruel contra os traidores. Quebrar o selo significaria dor além do que a sanidade humana era capaz de aguentar por muito tempo.

Eu olhei ao redor, e o espaço desordenado da Espera Caótica estava finalmente acabando e logo outras pessoas estariam aqui.

Eu levei o corpo de Henry até um dos monólitos que ainda estava intacto, o estendi no chão e me ajoelhei ao lado dele. A alma dele ainda estava ali, agarrada à Transformação. O problema das vidas humanas era a fragilidade que elas tinham. Mesmo com todo o meu poder, eu não poderia dar facilmente o sopro da vida para ele. Ele estava sujeito às leis da Transformação, e não da Criação. Mesmo meu corpo não iria aguentar por muito tempo.

Mas eu era a Criação. A mortalidade não deveria ser um problema tão difícil de enfrentar. O coração dele havia parado há poucos minutos. Eu só precisaria garantir que a alma dele permanecesse até alguém se capaz de ajudá-lo. Passei os dedos lentamente pelo rosto de Henry, afastando os cabelos que haviam se soltado.

— Eu passei tanto tempo com medo de aceitar esse sentimento… relutando… mas eu não quero ficar sem você. Eu te amo tanto que dói pensar em continuar sem você…

Eu me abaixei até que meus lábios encostaram nos dele, e o beijei. Eu fechei os olhos consciente da decisão que eu tinha tomado. Mas era o que eu tinha que fazer. Eu nunca me perdoaria se eu não tentasse salvá-lo.

Com o beijo, eu ignorei completamente o fato de que o corpo dele estava morto, e criei um Laço da Alma com ele. Eu não poderia fazer com que as feridas desaparecessem, mas eu podia fazer com que sua alma permanecesse ali dentro. Ele viveria, eu tinha que garantir isso.

E ainda havia outra coisa que eu precisava fazer:

Naquele dia, depois de todo aquele sofrimento, tortura, ódio e morte, eu tinha entendido algo sobre as Relíquias. Elas não se tratavam de um único poder, mas de todo um complexo sistema que envolvia um equilíbrio de opostos. A existência precisava da inexistência para acontecer. A matéria e o vácuo eram opostos dentro de um mesmo conceito. Tudo estava interligado em constante necessidade.

Eu não era apenas a guardiã da Criação. Eu era A Existência por si só. A partir do nada, tudo eu podia criar. E tudo eu podia destruir. Matéria, energia, gravidade… as três coisas se completavam para formar um todo.

E eu não estava pronta para esse entendimento. Meu corpo não era capaz de suportar as consequências do que viria com essa tal “iluminação”. Todo esse poder que eu tinha usado naquele momento, eu não poderia usar de novo. Então eu iria apenas ter certeza de que Henry estaria em boas mãos. Depois disso, caso eu sobrevivesse, eu simplesmente apagaria a minha memória.

 

Petra Siever:


Já estávamos nos preparando para pedir socorro aos Stanislav quando a barreira finalmente caiu. Eu já havia ignorado qualquer medida de segurança que fosse necessária em uma situação como essa só por entrar na Esfera Caótica sem ter pleno domínio de onipresença. Apenas voei o mais rápido que pude rumo ao centro, me amaldiçoando por não ser mais veloz.

Quando cheguei, ainda pude sentir uma flutuação no ar causada pela fuga de Emil, enquanto Alésia, coberta de sangue, segurava Henry naqueles braços fracos e feridos. O corpo de Amelie estava caído à distância, com os olhos ainda abertos, contemplando o vazio.

— O que você fez com meus filhos? — Dominik chegou logo atrás de mim gritando para Alésia.

— Se você pará-la agora, vai se arrepender depois… — Eu falei para meu marido.

— Pará-la de fazer o que? — Ele vociferou de volta. — Isso é tudo obviamente culpa dela!!! E pensar que eu cheguei a considerar a presença dela irrelevante!

— Chega Dom! — Eu disse zangada, triste e cansada — Analise a situação! Você não está sendo racional. Tudo o que aconteceu nesses dias foi culpa minha por não ter agido com decoro. Se eu não tivesse me deixado levar pela emoção, não teríamos que lidar com tantas mortes…

— Do que está falando? — Dominik me olhou confuso. — Antes de entrar na Esfera Caótica, Henry me pediu para fazer um Elo de Conceito com ele. Eu pude ver, ouvir e sentir tudo o que aconteceu aqui pelo ponto de vista de Henry. E agora… — eu deixei sair todos os sentimentos que estavam me esmagando por dentro. Meu rosto se contorceu em dor e sofrimento e eu só pude chorar — … e agora Louie o matou!

— Isso… — Dominik ficou em choque. — Mas, a alma dele ainda está aqui! Eu posso sentir. Ele não está morto! — Ele disse angustiado.

Eu parei para sentir a tensão do ar. Era verdade! A alma dele ainda estava aqui. Eu podia sentir a presença dele, como se tivesse sido amarrada a algo. Desesperada, eu comecei a gritar para os seguranças que estavam começando a chegar.

— RÁPIDO! ALGUM ONIPRESENTE LEVE OS DOIS PARA A ENFERMARIA!!!

Eu desapareci de onde estava e reapareci na enfermaria. O funcionário de Henry ainda estava ali recolhendo o material dele. Não sei o que faria se ele tivesse partido.

— Você! — Eu o agarrei pela roupa.

— M-m-madame!! — ele disse nervoso, sem entender meu descontrole.

— Você é o médico do Instituto de pesquisa de Henry! — Não era uma pergunta — Por favor, salve-o!

Ele não entendeu, mas, no minuto seguinte, dois seguranças apareceram do nada ao lado de uma das macas, carregando Henry e Alésia ao lado dele sem soltá-lo por sequer um segundo.

O médico imediatamente arregalou os olhos e correu para ver Henry sem fazer mais perguntas. A postura nervosa dele mudou imediatamente e ele começou a desfazer as malas de equipamentos que já estavam parcialmente guardados.

— Rápido, chame os enfermeiros para me auxiliarem! — Ele ordenou para mim, como se eu não tivesse status nenhum. Eu não reclamei. Eu não precisava sair do lugar pra isso também. Bastava transmitir mentalmente uma mensagem para algum dos enfermeiros que fosse meu contratado e ele viria imediatamente junto com os outros.

— Há quanto tempo ele foi atacado? — o médico perguntou.

— Faz alguns minutos. A alma dele ainda está no corpo. Se puder reanimá-lo a tempo, ele pode sobreviver, — eu disse em tom de súplica.

— E você… — o médico olhou para a menina, — você também precisa de assistência, deite-se…

— Não! — ela disse em um tom de voz tão incisivo que não dava margem para contestar. — Eu não posso sair do lado dele agora.

Eu senti uma pontada de dor ao ouvir as palavras dela. Eu desaprovava tanto essa relação, mas eles estavam dispostos a ir a extremos tão grandes um pelo outro. E ela não estava bem. Eu pude ver pelos olhos de Henry o quanto Emil a maltratou. E ela ainda estava incrivelmente de pé com tanta determinação. Eu sabia que a alma de Henry ainda não tinha partido por que ela estava forçadamente a prendendo com alguma magia que nem mesmo eu compreendia.

Que cara eu teria para contestar o relacionamento entre eles?

Incrivelmente o médico também pareceu perceber essa conexão, então não contestou a permanência dela. Para ele, Henry também era o mais importante.

Eu não entendia questões médicas, então tudo o que eu podia fazer era ficar ali do lado parada esperando. Depois que a cirurgia tinha sido preparada, ninguém mais foi autorizado a entrar. Os enfermeiros corriam de um lado para o outro tentando dar conta de atender as exigências do médico, que parecia ligeiramente sobrecarregado tentando dar conta sozinho de todos os ferimentos de Henry. Depois de fechar todas as feridas ele precisou abrir o peito de Henry e segurar o coração machucado entre os dedos para então repará-lo. Foi só depois de várias horas, que finalmente ele fechou o peito do meu filho e finalmente estava pronto para reavivá-lo. Estávamos no limite.

Quando a primeira batida no coração de Henry soou. Ele finalmente respirou aliviado. Alésia também relaxou de sua postura rígida e imóvel que sustentou durante horas para não atrapalhar a cirurgia, e acariciou delicadamente o rosto dele, com um sorriso satisfeito como quem dizia adeus. Então ela suspirou de alívio, e caiu no chão desacordada.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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