DCC – Capítulo 76 – 3Lobos

DCC – Capítulo 76

Uma moeda, dois lados

 

Emil Siever:


Eu era uma criança comum. Isso pra um Siever não era exatamente a melhor perspectiva. Mas, felizmente, eu tinha um irmão mais velho extremamente talentoso para a magia. Ele era brilhante. Conseguia fazer tudo o que era ensinado sem muitos problemas. Eu, por outro lado, demorei ao menos duas décadas a mais pra desenrolar minha magia.

Mas eu sinceramente não me importava com aquilo. Não exigiram de mim o que eu não era capaz de oferecer. Então fui educado para me tornar um suporte para Henry. Um alicerce ao qual ele poderia confiar e depender. Isso também não era um problema. Dessa forma, eu cresci com a perspectiva de que eu poderia conhecer os cosmos à procura de alianças para a família. Viajar por toda a galáxia conhecendo novos lugares, raças, pessoas…

Enquanto eu era ensinado a ser complacente, Henry era ensinado a ser poderoso. Ele via como eu gostava de viajar. Ele via como eu estava satisfeito com o meu lugar. Ele não estava satisfeito com o dele. Ele nunca pensou direito como um bom Jomon deveria pensar. Ele nunca cumpriu exatamente o papel que ele estava destinado a cumprir.

Henry e Louie me pegavam e passeávamos por todo Urandir apenas para perder tempo. Apenas para jogar conversa fora sobre as maravilhas escondidas pela galáxia que eu descobria viajando enquanto era treinado. E ingenuamente, eu guardava segredo sobre essa curiosidade dele. Ele bancava o filho virtuoso pela frente, enquanto sonhava em coisas diferentes pelas costas de todos.

Quando ele foi para a academia, ele costumava me mandar mensagens sobre como tudo era tão mais amplo, tão mais divertido. Havia tanta coisa para descobrir. Eu achava divertida aquela animação dele, porque achava que era só isso. Uma animação infantil que se tem quando se conhece coisas novas. E diferente de mim, ele não estava sendo criado para ser um explorador, essa era a minha vida, não a dele. Porém, “só” a magia nunca seria o suficiente para ele.

E quando fui para a academia tudo ainda ficou bem por um tempo. Então ele fez amizade com aquele cara do curso de bioengenharia médica. Os dois pareciam almas laçadas, tamanha a conexão entre eles. Eu não gostava do cara, tinha aquele sorriso de sabe tudo, como se conhecesse algum segredo sobre nós que ainda não tínhamos descoberto. Depois disso, tudo desandou. Henry começou a se rebelar e não queria mais aceitar o próprio lugar.

Começou a guardar segredos também. Então, um belo dia, quando voltávamos para casa, ele simplesmente disse que havia abandonado o curso de magia, e que não seguiria como pilar da casa dos Siever.

Obviamente tentaram pará-lo.

Porém, o subestimaram demais. Ele já era poderoso o suficiente para conseguir fugir contra um adversário despreparado. E assim ele fugiu.

E eu fui castigado. Culparam a mim por ele ter se rebelado. Culparam a mim, dizendo que eu enchi a mente dele de ideias estúpidas. Culparam a mim por ter permitido que a Casa dos Siever perdesse o seu pilar. Mas a Casa dos Siever ainda precisava de um pilar, e eu era o único que estava disponível. E eu sabia o meu lugar…

Não… eu não aceitei…

Eu resisti. Aquele não era o meu lugar. Era de Henry. Eu não estava preparado para ser o cabeça da casa dos Siever. Sequer magia suficiente eu tinha para ser considerado um legítimo Siever top de linha como Henry era.

Então todo dia era uma tortura nova e tenebrosa, de como eu tinha que atender as expectativas.

— Reveja a sua postura. Henry na sua idade já era capaz de fazer coisas bem mais avançadas!

— Como se atreve a se distrair? O talento de Henry era tão precioso, como pode ser irmão dele?

— Você deveria ser mais como Henry! Que desperdício…

Todos os dias, meus mestres me falavam. Todos os dias, meus pais me falavam. Todos os dias, as mesmas pessoas que abriam a boca para amaldiçoar o traidor, abriam a boca para compará-lo a mim. E tantas vezes eu tentei fugir, tantas vezes eu fui castigado até perder os sentidos. Fartos de tentar me conter, usaram uma arte mágica capaz de laçar o corpo de alguém à um lugar.

O Laço de Sangue era usado para tornar prisioneiros os artistas mágicos criminosos. Era a única forma de prender um indivíduo poderoso. Foi a única forma que encontraram para cortar as minhas asas.

Então depois de tudo, Louie era o único que me entendia. Era o único que era capaz de solidarizar e entender a minha dor. Ele quem me ofereceu a primeira crisálida do esquecimento.

Era um contrabando ilegal que poderia custar as nossas vidas caso fosse descoberto. Um feitiço obliterante capaz de alterar, apagar ou esconder as memórias de alguém. Um feitiço capaz de me fazer apagar meu sofrimento.

Eu poderia simplesmente esquecer para sempre os meus sonhos frustrados, a minha dor e meu sofrimento. Continuar vivendo apenas com os pensamentos necessários e ocupar o meu novo lugar sem me sentir sendo rasgado por dentro. Mas não, eu não queria esquecer. Eu não queria ter que fingir pra sempre que estava tudo bem.

Então eu guardei bem no fundo todo o rancor e raiva que cresceram por conta da traição de Henry, e esse rancor enterrado foi crescendo até virar um ódio irreconciliável. Ele roubou a minha vida, e me abandonou à própria sorte. Tudo o que eu vivi e deixei de viver foi por culpa dele. Eu me tornei um prisioneiro dentro de minha própria casa por culpa dele!

Ele quem fez isso.

Enquanto isso, ele deve ter vivido uma vida farta e cheia de realizações, à direita do poder, depois de ter abandonado a corrida para ser o Imperador, apenas pra deixar o melhor amigo ocupar o cargo. Usufruindo de todos os benefícios sem se preocupar com mais nada.

Era tudo culpa dele.

E quando ele chegou, eu desenterrei todos os sentimentos negativos eu tinha guardado no fundo apenas para apreciar esse momento. Ele morto na minha frente. Eu estava sendo impulsivo no começo, mas Louie me fez ver a razão. Eu não deveria atacá-lo de de qualquer jeito. Eu deveria fazê-lo sofrer como eu sofri. Apenas com as primeiras informações que tínhamos, sobre o dinheiro e a mente poderosa dela, Louie formou um plano simples e brilhante:

Louie adulterou as memórias de Monique para que ela atacasse Alésia acreditando ser uma ordem de mamãe. Monique atacou, e eu interferi para salvar a coisinha. Isso me tiraria de suspeita imediata. Então Louie mais uma vez alterou a memória de Monique, deixando falhas na memória intencionalmente e colocou dentro dela o desejo pela morte. Como a coisinha tem uma mente fechada, rara para alguém do tipo dela, bastava apenas que alguém apontasse a hipótese: ela é obliterante.

Isso seria o suficiente para fazer qualquer um acreditar que ela estava aqui para se aproveitar dos Siever. Para se aproveitar de Henry, ou que mesmo Henry era cúmplice dela. E o idiota ainda fez o favor de renascer Monique apenas para reforçar a minha ideia. A cara dele balbuciando ameaças e repetindo que era inocente tinha sido impagável.

Então era apenas uma questão de armar o circo. Louie conseguiu mais uma crisálida do esquecimento. Usaríamos  o feitiço para alterar a memória da coisinha para que ela confessasse a morte de Monique e de Henry, e para alterar a de Amelie, que veio de brinde, para servir de testemunha.

Depois disso, era apenas uma questão de conseguirmos atingir Henry. Nunca, mas NUNCA me passou pela cabeça que seria tão fácil. De que ele realmente amava tanto ao ponto de se dispor a morrer por ela. O plano principal era simplesmente soltar ela, deixando ela acreditar que tínhamos outro plano para ela e quando ele a tocasse, as drogas que estavam nela contaminariam o corpo dele, deixando-o vulnerável. O veneno não seria um problema para mim, porque eu mesmo o usava várias vezes para distrair minha mente da realidade. Uma dose tão simples não seria capaz de me afetar.

Só que entre as coisas que eu nunca esperaria esta tarde, era que a coisinha à minha frente, aquela Brard insignificante, fosse alguém tão assustador. Mesmo o ar à minha volta tremia de medo dela. Nem mesmo a presença do imperador já me deu tanto medo.

E Louie… Meu querido e leal amigo havia sido cruelmente dizimado bem diante dos meus olhos até não sobrar nada enquanto gritava em dor e desespero. E enquanto ele sofria, ela assistia a tudo como se não fosse nada demais. Não… ela queria vê-lo sofrer!

Quando acabou, a pressão esmagadora que era a presença dela foi toda jogada em cima de mim. Eu senti o cheiro da morte. O puro ódio de alguém que nunca se deve ofender. Mesmo meus joelhos cederam e eu caí prostrado.

— O que é você? — eu perguntei de novo, mas dessa vez, completamente aterrorizado com a resposta, ao ponto de  nem poder ouvir o som da minha própria voz.

Então, para minha surpresa, ela entortou a cabeça para o lado, e sorriu gentilmente. Isso me deixou muito mais assustado do que se ela realmente estivesse expressando o ódio que eu sentia emanar dela.

— Toda a matéria que existia no corpo daquele desprestigiado estava sob minhas ordens, então cada átomo do corpo dele deixou de fazer parte desse universo. Deixaram de existir… Puff! — Ela levantou as mãos e estalou os dedos com sadismo. —  Cada um deles sem deixar um único vestígio em vergonha por terem me ofendido. Mesmo a alma dele não poderia desobedecer ao meu comando e foi completamente aniquilada.

Então, ela jogou a cabeça para trás e riu enquanto cambaleava sem forças pra se segurar em pé. Gargalhou tanto que as feridas abertas começaram a sangrar com mais força até que ela ficou completamente banhada em vermelho. Ao mesmo tempo todo o ar à nossa volta começou a esfriar, e esfriava tão rápido que cristais de gelo começaram a se formar ao nosso redor.

— E você… — ela girou a cabeça lentamente para frente até que os olhos dela encontraram os meus. Mas ela não estava apenas sorrindo. Ela também chorava, enquanto lágrimas sem fim escorriam pelo olhos insanos dela.

Terror.

Nada poderia me salvar. Nem se toda a Casa dos Siever se juntasse para enfrentá-la. Eu estava nas mãos dela. Senti meu corpo enrijecer de medo. Com um aceno da mão, a barreira ridiculamente poderosa que estava ao meu redor se desfez como se fosse uma bolha de sabão, e logo depois toda a Esfera Caótica também desmoronou como um castelo insignificante de cartas.

Essa magia… não era humana… Nem Brards nem Jomons eram capazes de sustentar tanto poder. Eu sentia nos meus ossos que havia ofendido alguma coisa muito mais sinistra do que uma reles Brard. Ela falou:

— Você disse que não havia benefício nenhum em me salvar… Então você viverá, em troca da vez que me salvou! — Ela estava sendo irônica. Eu podia sentir a ironia nas palavras dela. Ela sabia que eu não tinha salvado ela. Ela sabia que era tudo parte de um plano. Eu pude sentir que cada parte da minha alma já havia sido esmiuçada pelo olhar dela. — Mas não considere isso um ato de benevolência. Você acha que sabia o quanto viver dói? Então eu realizarei o seu desejo: a partir de hoje, você nunca mais vai poder pôr os pés na Casa dos Siever. Mas não se engane, você não está livre do seu Laço de Sangue. A partir de agora você vai definhar em dor e sofrimento constante, até que sua vida seja um fardo, até que seu corpo pereça. E quando isso acontecer, sua alma ficará presa a ele até que cada átomo que te pertença encontre o meu perdão, ou que o sol sobre sua cabeça exploda. O que vier por último. E você não poderá dizer uma única palavra sobre essa maldição à ninguém.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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