DCC – Capítulo 75 – 3Lobos

DCC – Capítulo 75

A Matriz da Criação

 

Os olhos de Emil brilharam de vitória.

— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! E pensar que você realmente toparia isso? — Emil sorriu triunfante. — Eu especulei que te provocar usando ela te daria alguma dor de cabeça, mas ao ponto de trocar a própria vida pela dela… Eu realmente não esperava!

Henry flutuou até uma pequena rebarba de chão que havia sobrado para fora da barreira do que antes era um imponente monólito e se submeteu. Emil ergueu a flecha, e lançou-a na direção de Henry.

Henry sequer piscou. A flecha atravessou o ombro direito de Henry até ficar presa metade pela frente, metade por trás.  Eu voltei a me debater. Mas não adiantava. Quanto mais eu me mexia, mais apertada aquela prisão se tornava, e mais as feridas doíam.

— Ah… que pena… — Emil disse debochando — Eu errei. Me deixe tentar de novo, mas dessa vez me deixe por um pouco de veneno nas pontas!

Henry não disse nada. Mordeu o lábio inferior e voltou a me olhar decidido a seguir em frente com aquela loucura.

Emil atirou outra flecha. E mais outra. E mais outra. Ele ria ensandecido como se aquele fosse o espetáculo mais maravilhoso que alguém pudesse ver.

Henry então fraquejou e caiu de joelhos. As flechas envenenadas logo fizeram efeito no corpo dele e o deixaram fraco. Sangue escorria sem fim. Emil premeditadamente havia atirado todas as flechas em pontos não letais, apenas para deixá-lo sofrer assim como fez comigo, rindo à loucura.

Então com um aceno, Emil puxou pra longe de mim aquela lama infernal, me deixando livre. Meu corpo fraco e ferido caiu no chão, sem forças pra ficar em pé. Eu desesperadamente tentei me arrastar até conseguir sair da cúpula e pegar Henry em meus braços. Ele estava frio. FRIO!

— Não, por favor, não… por que você fez isso idiota? — Eu chorei sem saber o que fazer. Ele se deixou ser segurado por mim e tombou.

— Eu faria qualquer coisa por você… — Henry disse com a voz fraca, me olhando sem nenhum arrependimento.

— Mas e agora o que você espera que eu faça? — Minhas lágrimas turvavam minha visão e eu sequer percebia meus sentidos voltando ao normal.

— Eu espero que você viva feliz… experimente coisas… faça… — ele começou a fraquejar.

Então um sentimento de ataque me alertou. Outra flecha havia sido lançada. Eu não sabia de onde, apenas que era uma intenção definitiva. Era uma flecha para matar.

— NÃO! — eu desesperadamente mentalizei o ponto de impacto protegendo o que eu conseguia de Henry.

Mas a flecha não veio para ele. Veio para mim.

Eu baixei os olhos para a flecha cravada em meu peito. Uma mistura de alívio e desespero tão grande que a dor era quase trivial. Pelo menos não havia sido em Henry. Era uma sensação irreal de alívio.

— O QUE VOCÊ FEZ???

Eu ouvi Henry gritar como se estivesse em um lugar distante, e não caído em meus braços.

— VOCÊ TINHA ME DADO SUA PALAVRA!

Emil levantou os dois braços gesticulando como se fosse inocente.

— Mas eu não fiz nada! — Emil disse com sadismo na voz.

E a flecha realmente não havia vindo da direção dele. Ela havia me atingido vindo do outro lado. Henry girou vertiginosamente a cabeça para o outro lado, para encarar o meu agressor.

E por mais que Henry estivesse em um poço de desilusão, ressentimento e desespero, tudo o que ele podia esperar de pior não incluiria Louie. E Louie tinha atirado em mim.

— AAAARRRRRRRG!!!!! — Henry gritou irado. A traição doía nele mais do que as próprias feridas. Fogo começou a irradiar novamente dele, mas era irregular e inconstante. Ele já estava completamente sob o efeito do veneno.

Louie não disse nada. Eu o olhava, como se ele não importasse mais. O mundo todo parecia ter ficado em câmera lenta de novo.

— Emil não pode te matar. Ele será o grande pilar da Casa dos Siever no futuro. Ele não pode carregar a marca de um assassinato na alma. E ele também não quebrou sua palavra. Emil prometeu que ELE não iria mais feri-la. Ele não disse nada sobre outra pessoa não poder fazer isso.

Ah… era um plano esperto, eu tinha que admitir. Essas entrelinhas que os oniscientes usavam pra burlar suas promessas eram extremamente irritantes. Eu fechei meus olhos e respirei fundo. A flecha estava cravada em meu peito. Mas eu não tinha mais um coração humano natural. Eu pude sentir o aço da flecha perfeitamente alojado entre os ventrículos do meu coração artificial. Parecia uma providência superior. Um tipo de sorte que não se tem em mais nenhum lugar, mas mesmo assim a dor era excruciante.

— Vocês são dois cretinos desgraçados!!! — Henry falou com a voz fraca e delirante.

Apesar do corpo de Henry ser naturalmente mais resistente que o meu por ele ser um Jomon, ainda assim era quase inteiramente sem modificações. E ele provavelmente nunca tinha encarado tanta dor física de uma vez. Eu também não sangraria até secar. Eventualmente os isolamentos que Henry fez para preservar a minha vida da força excessiva da Relíquia da Criação iriam parar minha hemorragia. Mas ele também não tinha isso. Ele iria sangrar até entrar em choque, e eu simplesmente não sabia o que fazer. Eu não conseguia sequer me concentrar o suficiente para usar a Sabedoria.

— Não fale como se você não fosse farinha do mesmo saco! — Emil desdenhou. — Sempre o mais esperto. Sempre o mais poderoso. Sempre o mais talentoso… Eu costumava viver bem com essas coisas, já que eu não tinha realmente objetivo nenhum em me tornar um pilar da onisciência! Eu queria viver a minha própria vida! Você sabia que eu queria viajar e conhecer o universo. E por culpa sua, nunca mais me foi permitido sequer entrar em uma nave. Você me deixou aqui pra ser abatido no seu lugar e nunca se preocupou em me salvar.

— Isso não faz sentido. Se você não quer assumir a Casa, porque não fugiu? — Henry perguntou, grogue.

— Agora é fácil para você aparecer aqui e dizer isso, não é? Não foi você que teve a vida amarrada a essa terra maldita, apenas para assegurar que eu viraria um Siever exemplar. Eu não posso fazer nada que o meu Laço de Sangue proíba.

A expressão de dor e raiva de Henry se contorceu para expressar uma pontada de surpresa e compreensão, então ele olhou para mim com uma tristeza sem fim. Ele havia desistido de lutar.

— Não considere isso uma traição. Eu não era leal a você de qualquer forma — Louie disse. — Eu realmente fui amigo de vocês dois, e você nos abandonou pra viver o próprio sonho sozinho. Eu me tornei leal ao que eu tinha. Emil é tudo pra mim agora.

Louie atirou uma última flecha contra Henry, sem aviso, que eu não pude prever. A flecha perfurou o peito de Henry com força. Toda a tensão no corpo dele foi aos poucos passando até que finalmente os braços dele ficaram moles. Até o último segundo Henry me olhou triste e sem esperança e sustentou o meu olhar dormente até que sua vida se esvaísse.

Eu olhei para aquela última flecha como se ela não fosse real. Como se aquele momento não existisse. A risada histérica e os gritos de vitória de Emil vinham como fogo aos meus ouvidos, me despertando daquele devaneio da dor.

A última flecha de Louie não estava envenenada. E naquele exato segundo, o efeito do veneno que ainda estava em mim estava terminando de passar. Eu olhei para Henry, cujo corpo amoleceu de vez, e deixou a cabeça tombar para trás, ainda em meus braços. Sem vida.

— Henry…. — eu movi meus lábios, mas minha voz não saiu.

— Henry! — eu chamei de novo, mais forte, e pude ouvir um sussurro escapar de minha garganta.

— Henry… fale comigo… — eu o sacudi, mas ele não respondeu. Eu retirei do meu bolso o pequeno kit de instrumentos médicos que eu tinha pegado na nave enquanto me iludia de que poderia ser útil ter por perto. — Veja… você pode usar disso… pra… — Os olhos tinham fechado, mas a expressão irada ainda estavam lá.

— Como que a coisinha ainda está viva? — Louie perguntou impressionado.

— Já que ela ainda está viva, vou usá-la pro propósito original que tinha pra ela. Apenas deixe-a inconsciente e leve-a, ela sequer deve estar consciente de que ainda estamos aqui. — Emil disse em meio à risada.

Com um movimento da mão de Louie, aquela lama metálica que me prendia antes levantou voo de onde estava em minha direção. Eu podia sentir o fluxo de informações da Sabedoria agora. Aquilo era nanotecnologia conhecida como litoângstroms. Uma espécie de constructo disforme que podia ser controlado de acordo com a vontade dos proprietários, muito usado por terraformadores.

E é engraçado como as coisas às vezes simplesmente acontecem. Eu simplesmente não queria mais que aquela flecha no peito de Henry existisse. Então ela começou a desaparecer, pedaço por pedaço, até sumir completamente. E assim, todas as outras flechas seguiram o mesmo padrão, como se estivessem evaporando sem deixar nem sequer o vapor para trás, até sumirem completamente sem deixar rastros. Quando os  litoângstroms lançados por Louie tocaram a minha pele, no mesmo milésimo de segundo, antes que pudessem me cercar, eles começaram a desaparecer. Como se estivessem me atravessando, a cada gota que tocava em mim, cada fração desaparecia.

— O que diabos foi isso? — Emil perguntou espantado.

Eu baixei o corpo de Henry delicadamente até deitá-lo no chão e me abaixei para lhe dar um beijo na testa, ao mesmo tempo que as flechas cravadas em mim desapareciam assim como as dele.

Naquele momento único, devastador e especial, eu conseguia sentir cada única coisa que existia no universo. Cada átomo de hidrogênio. Cada insignificante próton e elétron que se uniam para formar todas as coisas, mesmo cada quarks e cada neutrino. O tudo e o nada. A matéria e o vácuo. Eu senti uma compreensão transcendente. Como se o “saber” e o “sentir” fossem coisas diferentes. Cada coisa que existia fazia parte da criação. Mas cada coisa que deixava de existir também fazia.

Eu olhei do corpo de Henry para Louie, de Louie, para o horizonte, do horizonte para Emil. Olhei para Amelie parada no mesmo lugar desde o começo dessa confusão, como se fosse uma casca vazia, e enfim entendi. Eu não era mais apenas a insignificante Alésia. Eu tinha despertado a matriz do meu poder.

— Eu sou a Criação. Eu sou o Tudo. E eu sou o Nada. E você me desagrada de tantas formas diferentes… Nenhum único átomo do seu corpo será perdoado. Sequer sua alma existirá por além de hoje! — Eu disse para Louie sentindo uma nova alteridade na minha voz. — Considere que é o meu completo desgosto por você a razão por permitir que sua inexistência aconteça.

— Do que você está falando? — Emil caçoou, mas eu pude sentir uma pitada de preocupação em sua voz. Ele não conseguia entender meu poder, mas ele podia sentir.

— Cale-se! — eu disse tão suavemente para Emil que poderia ter sido confundido com um pedido gentil e meigo, mas o chão sob nossos pés vibrou, esfarelando em pedaços. E não foi apenas esse pedaço flutuante de terra: cada partícula em todo este planeta agora tremia de medo de mim e me era obediente.

Emil tornou a falar, mas o que quer ele tenha dito, não dava mais para escutar. O ar ao redor dele se recusou a vibrar depois de minha ordem e nenhum som vindo de Emil poderia ser ouvido.

Eu sentia um poder familiar e devastador encher a minha mente, meu corpo e minha alma. Eu sentia a majestade do que realmente era a Criação e toda a sua glória. Eu sentia uma compreensão e um domínio acima de tudo. E paralelo a isso, eu sentia desprezo e raiva.

Aquilo que a tudo cria, a tudo pode eliminar.

— O-o-o que é i-i-isso? — Louie perguntou sentindo o terror que era a minha presença nesse momento. — Voc-c-cê é apenas u-u-uma Brard! C-como pode ter tanto poder?

Torne-se o nada, — eu proferi para Louie. Então cerrei os olhos e complementei com todo o rancor que eu sentia por ele naquele segundo — Lentamente. — Não era um feitiço. Era uma ordem. Minha voz reverberou ao nosso redor como algo irreal e esmagador. Era uma força quase palpável de tão densa. E eu apenas vagamente podia sentir que isso era meu poder.

Louie começou a desaparecer, literalmente, pedacinho por pedacinho começando da ponta dos dedos. Cada parte do corpo dele sumia, como se algo o corroesse, até que os braços desapareceram, e ele tombou na ausência de pernas, sangue escorria de buracos que surgiram em sua pele, apenas para também desaparecer logo em seguida enquanto ele gritava em dor ensandecida e lancinante.

— Por favor! Por favor! Misericórdia! Eu não sabia! Me perdoe…. me perdoe! Eu não sabia! — Louie gritava em meio aos guinchos de desespero. Neste momento, ele entendia meu poder, algo que nem eu conseguia vislumbrar ainda. Mas era tarde demais pra ele.

Emil tentou gritar mas o som não saía. Tentou correr, mas o ar ao redor dele não lhe daria passagem tampouco. Ele estava preso dentro da minha vontade, tendo que assistir à tortura de Louie. Sabendo que seria o próximo.

— Pare… por favor… ao menos minha alma… ao menos… — Os gritos de Louie começaram a enfraquecer transformando-se de guinchos para gemidos e lamúrias.

O que restava do corpo dele se contorcia no chão do monólito em frente, enquanto desaparecia lentamente. Dolorosamente. Até finalmente parar de se mover. Até finalmente parar de respirar. Até finalmente morrer.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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