DCC – Capítulo 74 – 3Lobos

DCC – Capítulo 74

Juramento

 

— Olha só quem resolveu se juntar à festa! — Emil disse olhando para Henry. Só de olhar de longe eu já conseguia dizer que a raiva de Henry havia atingido um limite novo nesse momento. Ondas de calor irradiavam do corpo dele como se ele fosse um brazeiro vivo. Mas de alguma forma, o calor dele não entrava na pequena cúpula que envolvia Emil, Amelie e a mim.

— Eu sabia que isso tinha um dedo seu, mas eu ainda não quis acreditar. Eu definitivamente vou arrancar a pele das suas costas apenas por ter ameaçado Alésia. O que vier depois, eu vou…

— Não, meu irmão… você não vai nada! — Emil disse com um sorriso triunfante. — Confesso que estou impressionado com a velocidade com que você conseguiu chegar aqui. Realmente não é um exagero que você tenha sido reconhecido como extremamente forte por nossos pais no momento que voltou. Mas você não tem como me alcançar aqui dentro.

Henry se lançou no ar em direção à barreira de energia que nos cercava e se chocou com ela com toda força. O impacto foi tão forte que tudo tremeu, rachaduras espalharam-se a toda volta alongando-se pelo chão até o final do monólito, e pedregulhos começaram a desmoronar no oceano. Uma nuvem de poeira subiu seguindo o estrondo trovejante do impacto.

Emil gargalhou como se tivesse visto algo realmente engraçado.

— Continue! Eu quero ver o seu esforço! — Emil disse caçoando de Henry — Eu roubei uma das crisálidas de contenção da cidade que estava sob a posse dos Siever. Essa barreira é capaz de resistir a guerras estelares e proteger Urandir inteiro por semanas. Agora imagine a força que tem uma barreira dessas condensada para proteger o singelo espaço de cinco metros quadrados? Mesmo que você fosse o imperador, você não conseguiria passar!

— Você me subestima me comparando àquele palhaço, — Henry vociferou. Eu nunca tinha visto um olhar assassino tão intenso em Henry.

Ele tomou distância de novo e mais uma vez se lançou com toda força contra a barreira. Novamente o impacto foi esmagador. Dessa vez, todo o monólito veio abaixo, deixando apenas o pedaço de chão que estava circundado pela barreira flutuando no espaço vazio.

— A diferença entre nós dois é que eu sei o que eu estou fazendo, — Henry disse se afastando de novo. — Diferente de você que deixa toda a energia do seu ataque dispersar antes de atingir o alvo, eu concentro todo o meu poder em um único ponto. Eu posso não conseguir pôr abaixo essa barreira inteira, mas eu não preciso. Apenas uma fissura será o suficiente.

— Eu não duvido… sabe-se lá que tipo de monstro é você. Aparecendo aqui com todo esse poder, e ainda por cima com essa aberraçãozinha, — Emil disse dando a volta por mim, até sair do meu campo de visão. Então, ele me abraçou por trás e colocou o queixo sobre meu ombro, encostando a face na minha. Henry contorceu o rosto em fúria, pressionando os punhos pronto para atacar de novo — A questão é… — Emil continuou — Será que você vai ter tempo?

Então uma dor aguda e causticante me pegou por trás, atravessando meu ombro até sair pela frente. O cheiro do meu sangue fresco invadiu as minhas narinas, enquanto eu girava molemente a cabeça para ver a ponta de uma flecha igual às que Monique usou para me atacar saindo da minha pele.

— AAAHHHH!!! — Eu gritei de dor.

— SEU IDIOTA!!! — Henry ficou possesso. E começou a atacar erraticamente a barreira em desespero.

— Isso! — Emil gargalhou. — Me mostre seu desespero… — Ele ria sadicamente. Eu tentei forçar me soltar daquela lama horrorosa, mas não adiantava. Parecia que ela antecipava meus movimentos, me deixando cada vez mais presa. A pior parte, é que eu não conseguia focar a minha mente o suficiente pra usar qualquer feitiço que fosse. O que quer que Emil tenha usado pra me drogar, foi o suficiente para embaralhar toda minha capacidade de usar qualquer magia.

Enquanto isso, Henry juntou os punhos e batia com força enlouquecidamente contra a barreira.

— SEU DESGRAÇADO!!! EU VOU ARRANCAR AS SUAS MÃOS, OSSO POR OSSO!!!

— VOCÊ NÃO VAI FAZER NADA! — Emil gritou de volta. Outra flecha apareceu na mão dele, e ele a apontou perigosamente para o meu coração. — Porque ela vai sofrer com dor pra cada coisa que você me deve. E se tentar arrebentar a barreira, não importa se você conseguir ou não, eu mato ela.

— Não se atreva… — Henry cerrou os punhos e os recolheu para os lados do corpo. Ele tremia de raiva. O ar ao redor dele ondulava de calor, e pequenos raios vermelhos saiam ocasionalmente do corpo dele.

Então Emil fechou o punho e girou a mão até mim, me acertando no meio do meu rosto. Eu caí desequilibrada. Tinha sido deliberadamente um soco comum, sem nenhum acréscimo de magia, mas ainda assim era um soco forte. Eu senti o gosto do sangue escorrer por dentro da minha boca, e a dor da flecha ainda cravada em meu ombro se intensificar.

Eu mordi o lábio inferior para não gritar de dor. Eu não queria dar esse gostinho pra Emil e não podia deixar Henry ver meu sofrimento. Era isso que Emil queria: me usar pra afetar Henry.

— Isso… foi por você ter sido egoísta e ter abandonado a Casa dos Siever! — Emil disse deixando a raiva dele sair pela primeira vez nesse confronto.

Então, enquanto eu ainda estava no chão, ele pegou a outra flecha e a cravou em mim de novo.

— Isso… foi por todo o sofrimento que eu tive que passar para ocupar seu lugar…

Eu podia sentir o desespero de Henry crescer junto com a minha dor. Mas eu não gritei. Isso só faria ele se sentir pior.

Emil então chutou meu abdome com força, ao ponto de quebrar a flecha dentro do meu corpo. Eu cuspi um bocado de sangue que voltou pela garganta. Essa era de longe a pior situação em que eu me encontrei na vida. E tudo isso, na frente de Henry.

Henry, que tinha feito tudo por mim, e o que eu tinha feito por ele? Eu nunca havia feito nada por ele. E ele sofria incapaz de me salvar enquanto assistia o próprio irmão me torturar por conta dos erros dele. Eu podia sentir o sofrimento e a angústia que escapavam do fundo da alma de Henry.

Emil ainda não tinha acabado. Ele sacou uma faca do nada e a cravou no meu ventre, girando a lâmina enquanto estava dentro da minha pele antes de tirar, apenas para aumentar a dor.

— Isso… é por tudo o que eu perdi tendo que assumir o lugar que você deixou vazio.

Então Emil me agarrou pelo cabelo e me puxou para cima até eu voltar a ficar em pé. Voltou a me abraçar por trás, e colocou a faca rente ao meu pescoço, desenhando uma linha fina na minha pele. Henry continuou a bater desesperadamente contra a barreira gritando ameaças contra Emil.

— Agora, como fez questão de ressaltar, eu não posso atingir você com meu próprio poder, mas você pode permitir que eu te atinja… — Emil disse girando uma flecha que apareceu do nada por entre os dedos da outra mão.

Não adiantava quanta força eu fizesse ou o quanto eu me debatesse, eu não conseguia me soltar. A dor era horrível, e piorava a cada segundo. Quanto mais eu me movia, mais eu ficava presa naquela lama irritante, e mais a dor me consumia. Henry pausou a sequência de ataques contra a cúpula e parou para ouvir Emil.

— Se você me permitir te atingir, cada flecha que ainda iria para ela, irá pra você. Assim, você pode poupá-la, — Emil disse deixando um sorriso sádico escapar pelos cantos da boca.

Os raios e o fogo ao redor de Henry começaram a diminuir aos poucos até que apenas a fumaça podia ser vista saindo do chão onde ele pisava.

— Eu quero sua palavra de que se eu não revidar, você vai deixar ela em paz, — Henry disse sem hesitar. – Jure!

— NÃO! — eu gritei. Um desespero maior que antes começou a crescer dentro de mim. — NÃO, POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO!!! — eu comecei a gritar para Henry. Então aquela lama subiu até envolver meu pescoço e cobrir minha boca, me calando.

Desespero.

Eu não tinha como fazer nada. Eu não conseguia fazer nada.

E eu tinha que assistir Henry ser ferido na minha frente.

Não…

Não…

Por favor…

Eu nem conseguia pensar mais. O veneno aos poucos estava deixando de fazer efeito, bem mais rápido do que o que Emil podia esperar, mas não havia mais tempo. Eu ainda estava com o raciocínio embaralhado. Apenas as minhas súplicas mudas faziam sentido nesse momento.

— Você tem minha palavra que se deixar eu atingi-lo quantas vezes eu quiser sem revidar ou se defender, eu não vou mais feri-la e irei libertá-la, junto com o seu corpo morto.

Eu comecei a sacudir a cabeça para Henry tentando gritar, tentando implorar para que ele não fizesse aquilo. Ele não podia fazer aquilo. Não na minha frente. Não por mim. Mas Henry me olhava com uma expressão decidida. Ele olhava para mim com tanto carinho que isso só me deixava mais e mais desesperada.

— Vai ficar tudo bem… — ele encostou a mão na parede invisível da cúpula, e me olhou como se realmente esperasse me tranquilizar.

Eu já nem conseguia enxergar mais de tantas lágrimas. Eu só sabia balançar a cabeça de um lado pro outro e pensar em súplicas e para que ele desistisse e fugisse dali.

Depois disso, mesmo a fumaça que saía dos pés de Henry cessou.

Ele abaixou os braços, e continuou me olhando calidamente.

— Eu te amo mais do que a minha própria vida, — ele disse suavemente, e depois se virou para Emil. — Faça.


Palavra da autora:

Gente, muito obrigada pra quem leu até aqui. Esse segmento da história me deu um pouquinho de dor de cabeça e foi muito sofrido de se escrever, mas espero estar dado conta. Então não perca por nada os próximos!!! kkkk

=D


 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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