DCC – Capítulo 73 – 3Lobos

DCC – Capítulo 73

Fazendo inimigos

 

Henry Siever:


Amelie havia ligado para mamãe apenas para avisar que tinha sido sequestrada. No mesmo instante, eu tive uma sensação ruim.

— O QUE VOCÊ FEZ COM ALÉSIA? — eu me atirei contra Emil e o agarrei pelo colarinho.

— Como assim o que eu fiz? — ele gritou de volta tentando se soltar. Eu tinha muito mais poder que ele. Ele nunca seria capaz de se esquivar de mim, caso eu quisesse atacá-lo. — Se algo aconteceu, aparentemente foi ela que fez! Por que alguém se preocuparia em sequestrar Amelie? Ela sequer tem um laço de alma com qualquer um de nós…

— Henry!! Solte-o! — Mamãe gritou desesperada tentando me parar.

— Eu o aconselho a parar com essa encenaçãozinha que está fazendo, enquanto ainda há a possibilidade de eu deixar pra lá. Caso contrário… nem mesmo matar você será suficiente! — Eu o ameacei.

No mesmo instante em que mamãe recebeu a notícia diretamente de Amelie de que ela havia sido sequestrada, eu senti uma alteração nas funções físicas de Alésia. Ela tinha sido drogada de alguma forma. Que merda. Eu ainda não consegui traçar o curso para onde ela estava, algum especialista em onipresença estava transportando ela de um lugar para outro. Então Emil não estava sozinho nessa.

Eu estava pronto pra descer a mão em Emil, quando dessa vez, foi Louie quem entrou na enfermaria. Ele vinha cambaleando e com o olhar perdido. Conseguiu dar apenas três passos antes de cair no chão.

Eu soltei Emil e corri até Louie. À primeira vista, parecia ser apenas um quadro de embriaguez bem forte. Porém eu era bem versado em reconhecer os efeitos de vários tipos de drogas, anestesias, venenos e outras substâncias sobre um organismo saudável. Louie havia sido drogado.

— Minha nossa! Ele está bem? — Mamãe perguntou assustada.

— Ainda não, mas vai ficar… — eu disse um pouco mais tranquilo e expliquei pra ela. — Alguém o drogou com um tipo especial de neuro paralisante, que afeta as capacidades motoras e cognitivas da vítima até certo ponto.

— Louie? — Eu dei tapinhas ao lado do rosto dele tentando reanimá-lo. Ele abriu e girou os olhos muito lentamente até finalmente conseguir me encarar.

— Alésia… obliterante… campo de testes… Amelie… presa… eu fugi…

Louie mal conseguiu dizer essas poucas palavras e desmaiou de novo.

— Não se preocupe… você vai ficar bem… — eu disse para Louie, mesmo sabendo que ele não estava me ouvindo e o coloquei em uma das macas e me virei para Emil. — Se eu descobrir que você está realmente por trás disso… — Então fui em direção à saída.

— Para onde você vai? — Mamãe perguntou aflita.

— Eu vou colocar essa história em pratos limpos. — Eu olhei pra ela. Mesmo que eu resolvesse esse problema, ainda ia ficar alguma suspeita no ar. Eu precisava de testemunhas. Então eu falei telepaticamente somente pra ela, — E eu preciso que faça algo por mim…

— Você não vai a lugar nenhum longe da minha vista. Sabe-se lá o que aquela garota está tramando e se você está ou não envolvido nisso… — Emil disse cheio de razão, sem saber o que eu disse para mamãe.

— Que seja. Você não tem cacife para me enfrentar de qualquer forma, mas se entrar no meu caminho, esqueça que temos laços de sangue. Eu vou arrancar sua vida da forma mais dolorosa possível! Eu abri uma fenda no espaço e desapareci de onde estava, reaparecendo quase instantaneamente na campo de falésias.

Uma enorme redoma enevoada cobria boa parte dos monólitos além da costa. Não se podia ver nada dentro. Mesmo a costa inteira estava coberta por uma fina camada anormal de névoa mágica. Várias outras pessoas estavam se aglomerando ao redor intrigadas sobre o que poderia ser aquilo.

— Como é possível que a sua coisinha tenha poder pra fazer algo assim? — Emil perguntou já tendo chegado ao meu lado. Mamãe olhava apreensiva alguns passos atrás.

— Ela não tem. Não foi ela quem fez isso. — Eu olhei fixamente pra anomalia à minha frente enquanto falava.

Eu podia sentir que Alésia estava lá em algum lugar, mas eu não conseguiria entrar pelos métodos normais.

Aquilo parecia ser uma Esfera Caótica, uma espécie de feitiço onipresente extremamente poderoso capaz de criar uma barreira de caos no espaço ao redor de um ponto específico. O espaço seria distorcido por um tempo, dependendo do poder usado para conjurar o feitiço. E pelo tamanho daquela coisa, era provável que tenha sido uma barreira feita por vários onipresentes, condensada em uma crisálida e constantemente alimentada anos para se tornar uma fonte de defesa impenetrável para qualquer um.

Basicamente, todo o campo de falésias havia se tornado um labirinto impenetrável de névoa. Por causa da distorção espacial, não tinha como eu travar a localização de Alésia e nem aparecer na frente dela. Eu tinha que atravessar a pé.

Então eu atravessei a barreira com mamãe e Emil ao meu encalço, mas no exato segundo em que entramos, fomos separados por uma intensa tempestade de energia caótica. Para qualquer lado que eu olhasse, não podia ver nem sentir a presença de Emil ou mamãe. Tentar contato com o link também não era possível por conta a interferência, e transmitir alguma mensagem para minha mãe seria impossível sem saber onde ela estava. Eu só poderia contar que ela tivesse feito o que eu pedi.

Atravessar uma Esfera Caótica não era nada fácil. Se eu tentasse chegar ao centro à força, a distorção espacial iria apenas se tornar mais concentrada ao meu redor. Havia duas formas de se chegar ao centro: uma era tendo a chave do conjuramento, outra era seguir o fluxo do caos. Caso contrário eu ficaria perdido no meio dessa tempestade até o encanto se desfazer.

Além do mais, eu também tinha a ajuda da Transformação. Não daria para reordenar todo o espaço afetado à força, mas eu poderia transformar o espaço à minha frente em um caminho e chegar até Alésia. Ela também tinha a Criação com ela. Mesmo com toda a interferência, eu podia sentir o frescor que a Relíquia dela me trazia em algum lugar à frente.

 

Alésia Latrell:


— Amelie… Amelie!!! — Eu chamava a toa.

A última coisa que eu me lembrava antes de acordar nesse lugar foi de ter comido um dos doces da delicatesse que Amelie me ofereceu. Porém, parecia que ela também era uma vítima disso tudo.

Além disso, eu estava extremamente tonta e desorientada. Eu me sentia como se eu tivesse bebido demais e estivesse completamente bêbada.

Amelie estava parada à minha frente com os olhos vidrados. Ela estava em pé, mas não estava consciente, ao ponto de cambalear um pouco às vezes. Eles haviam enfeitiçado ela de alguma forma, ao ponto dela não conseguir mais nem ser ela mesma. Ela apenas ficava parada à minha frente como uma flecha apontada em minha direção.

Fora que eu nem sabia onde eu estava. Eu podia ver que havia uma pequena barreira de energia ao meu redor, no centro do que parecia ser uma tempestade. Eu estava presa ao chão por uma espécie de lama metálica que se movia como se previsse meus movimentos, me deixando completamente imobilizada, mas mesmo que eu não estivesse presa, eu me sentia fraca e tonta demais para reagir.

Em um certo momento eu comecei a sentir a presença de Henry. Ele estava vindo! Ele iria resolver isso e me salvar. Eu só podia contar com ele.

Poucos minutos depois, uma silhueta foi surgindo na névoa à minha frente. Eu tive um pouco de dificuldade em focar a visão, mas quando consegui, eu olhei fixamente para a silhueta familiar. Era Henry. Ele havia chegado! Ele… não estava quente?

— Emil! — eu sussurrei. Eles eram realmente muito parecidos, mas isso se limitava à aparência externa.

— Olá coisinha! — Emil disse depois de sair da névoa, atravessar o olho da tempestade, atravessar a barreira ao meu redor e ficar bem na minha frente. — Parece que não está surpresa em me ver… — ele disse levemente desapontado.

— Eu sei o que está tramando. Por que eu estaria surpresa? — eu disse com a língua meio enrolada. — Mas advinha! Não vai dar certo… Henry vai acabar com você…

— Ah não, coisinha, você está errada. Eu tenho uma proposta irrecusável para você, — ele disse presunçoso.

— Duvido muito que eu não recuse… — eu respondi tentando parecer forte.

— É o seguinte: eu consegui com sucesso incriminar você pela morte de Monique. E além disso deixei todos pensarem que você era uma obliterante. Logo depois eu encontrei mamãe e Henry e joguei todos os fatos na cara dele. O interessante é que ele fez exatamente o que eu achei que faria. Ele ainda é extremamente previsível. No momento em que ele renasceu a Monique, puderam confirmar que ela teve a memória alterada, e ele apenas pôde espernear dizendo que vocês são inocentes… Você devia ter visto! Foi hilário, quase não me aguento sem rir.

— Seu plano não vai dar certo, foi você quem alterou a memória de Monique! — eu disse.

— Não, não minha querida coisinha. Foi você. Não importa que você não seja uma obliterante. Quando todas as peças estiverem no lugar, não importa se você aceitar minha proposta ou não.

— E que diabos de proposta é essa afinal? — eu perguntei agoniada.

— Você vai trabalhar pra mim.

— Recuso.

— Você não tem escolha, coisinha. Depois que eu me livrar de Henry. Eu vou mexer uns pauzinhos pra fazer parecer que ele é o único culpado de tudo. Que ele te trouxe aqui para ser um chamariz distrativo, e que ele planejava acabar com nossa Casa. Isso vai deixar você livre de suspeitas. Então, você vai passar para mim o selo imperial e todo o dinheiro que está em seu nome!

— Dinheiro? — eu disse confusa. — Todo esse circo é por causa de dinheiro?

— É claro que é! E as condições são bem simples: você faz isso por livre e espontânea vontade e depois eu te abandono em algum lugar com o suficiente pra viver o resto da sua vidinha sem as memórias desse incidente. Ou… eu apago completamente a sua memória e te transformo em uma casca vazia como a nossa colega aqui! — ele disse apontando para Monique. — E, depois de te obrigar a fazer isso por mim, eu te mato! — Então ele sorriu como se fosse uma coisa simples como escolher qual prato eu iria escolher para o jantar.

— Seu plano não vai dar certo, — eu disse desdenhando dele com todo o desprezo que eu pude reunir.

— E por que acha isso?

Então dessa vez foi Henry quem finalmente saiu da tempestade se aproximou e disse:

— Por que você fez as pessoas erradas como inimigas.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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