DCC – Capítulo 72 – 3Lobos

DCC – Capítulo 72

Conspirações

 

Henry Siever:


— O que é que você já está fazendo aqui de novo?? — Emil entrou de uma vez na enfermaria enquanto eu e mamãe estávamos prestes a sair. — Pensei que tinha dito que não ia botar os pés de novo na nossa casa!

Ah, era só o que me faltava, ter que lidar com a raiva desnecessária dele nesse momento.

— Emil, por favor, agora não é o momento certo! — mamãe o repreendeu.

— Esse lugar só tem tido problemas desde que ele chegou aqui! Você acha mesmo que eu simplesmente iria deixar tudo por isso mesmo e não iria investigar nada?

— Do que está falando? — Esse idiota estava tramando alguma coisa.

— Por que transferiu tanto dinheiro para aquela menina? — Emil perguntou.

— Dinheiro? — mamãe perguntou.

— Que dinheiro? — Eu perguntei também confuso com a pergunta. Essa conversa tinha se desviado para um caminho que eu não tinha esperado. Mas, como ele tinha conseguido me pegar de surpresa? — Você andou me espionando?

— É claro que sim, principalmente agora que eu suspeito que aquela menina seja uma obliterante! Eu peguei uma das flechas que Monique usou para feri-la e mandei investigar o DNA dela.

Eu senti meu queixo cair. Que absurdo era esse? Ele estava especulando? Mas mesmo que fosse só uma especulação, ele veio dizer isso justamente num momento como esse? Só que, pelo visto, ele alcançou o objetivo. Mamãe me olhava com os olhos arregalados, como se tivesse compreendido algo.

— Isso é um disparate. Como pode dizer que ela é uma obliterante sem prova alguma? — Eu empertiguei contra ele.

— Que outra explicação teria? Ela tem poderes além da compreensão para uma criatura tão jovem. Todos sabem que pra ser um onisciente ou um onipotente capaz é necessário pelo menos um século de auto conhecimento, estudo e dedicação. Mas para se tornar um obliterante? Quem sabe o que é preciso? Ela pode simplesmente ter acordado um dia e descoberto que era uma. E você transferiu o dinheiro para ela pra comprar a lealdade dela. Você quer ter o poder de uma obliterante aos seus pés pra fazer sabe-se lá o que.

Mas que merda esse cretino estava falando? Para uma especulação, fazia sentido completamente, porque pra começar, Alésia realmente era uma obliterante. Como esse desgraçado dava um tiro tão certeiro justo nesse momento?

— Então foram mesmo vocês que mataram Monique e adulteraram a memória dela? — mamãe perguntou indignada.

— É claro que não!!! — eu respondi.

— O que? — Emil disse surpreso. — A memória de Monique foi adulterada? — então ele olhou para a moça sentada na maca com os olhos sem vida. — Então o meu palpite estava correto! Você realmente se aliou com uma obliterante!!!

— Eu já disse que não tivemos nada a ver com isso! — eu quase rosnei as palavras apertando os dentes de raiva.

— E como diabos eu vou saber se isso é verdade? Eu confesso minha impotência como onisciente se ela realmente for uma obliterante. Vocês podem muito bem ter usado esse poder para alterar a própria memória e se fazerem de inocentes frente a nós todos.

Mamãe recuou para longe de mim horrorizada. Ela já tinha perdido completamente a compostura.

— Eu… eu estava esperando que você pudesse voltar a nossa casa… — ela disse deixando derramar lágrimas de novo. — Eu estava esperando que agora que você tinha alcançado tanto poder e que mesmo tendo partido não abandonou o seu potencial mágico, que você voltasse a ocupar seu lugar de direito entre os Siever. — Ela dizia em choque. — Eu estava completamente descontente com o fato de você ter se associado com uma menina daquelas, eu confesso que eu estava disposta a brigar com todos os meus recursos para te ter de volta, mas isso… se associar a uma obliterante?

Agora pronto… ela já estava completamente convencida de que éramos culpados. Mas que coincidência de merda!

— Ah, façam-me o favor! Se fossemos culpados pela morte de Monique, e Alésia realmente fosse uma obliterante, por que diabos eu cometeria a burrice de deixar provas contra a gente dessa forma?

— E eu lá sei como criminosos pensam? — Emil acusou ganhando fôlego com suas especulações. — Eu salvei a menina no campo de testes, depois disso, fiquei sabendo que vocês dois sumiram juntos da costa. Pode ter sido muito bem nesse momento que os dois foram atrás de Monique, alteraram a memória dela e a mataram. Se você foi burro o suficiente pra deixar pistas, provavelmente deve ter sido por causa da sua raiva na hora. Já que aparentemente você realmente ama a coisinha e quis se vingar…

— Isso não tem sentido! Quando saímos da costa, voltamos diretamente pro nosso quarto, e eu fui tratar as feridas dela!

— Olha só… — Emil falou com um tom já condolente. — Você realmente acredita nisso… Quem sabe você seja mesmo inocente até certo ponto, e só esteja sendo vítima da menina, que está se aproveitando de você para conseguir favores… Ela deve ter mexido na sua cabeça até você achar que realmente a ama, ao ponto de transferir fortunas para o nome dela, e voltar a esse lugar que você mesmo detesta só pra conseguir pra ela uma carta de recomendação.

— Isso não é verdade… — Eu vociferei. Ele realmente estava conseguindo me atingir. A reação de mamãe também não estava ajudando em nada.

— Mas não acha que é muita coincidência que Monique tenha aparecido justo agora morta com a memória adulterada?

— Exatamente. É uma coincidência.

— Você não deve achar que somos tão ingênuos ao ponto de acreditar em coincidências. Se juntarmos as peças, tudo se encaixa. Vocês agiram por impulso, provavelmente tudo ideia daquela criança sem inteligência, e deixaram evidências para trás. Mas se você veio aqui renascer essa pobre coitada, então provavelmente teve a memória alterada para achar que vocês não tem nada a ver com isso. Eu vou mandar uma diligência atrás da menina para trazê-la de volta e interrogá-la. Se for comprovado que ela é inocente, então não tem nada a temer, mas se ela for mesmo uma obliterante…

— Você não se atreva a encostar as mãos em Alésia!

Eu o ameacei partindo pra cima dele. Mamãe pulou na minha frente tentando evitar uma briga, então ela disse tentando mediar, com um tom de quem não queria me contrariar:

— Emil tem um argumento válido. Se ela realmente for inocente, então não tem nada com que se preocupar. Se você se sentir melhor, então podemos fazer a investigação com você assistindo pra ter certeza de que nada…

— VOCÊS ESTÃO BRINCANDO COMIGO? — eu vociferei realmente irado agora — Alésia é uma Brard. Ela sequer tem dez anos. Se ela for posta sob investigação pra saber se ela é ou não uma obliterante, a mente dela vai ser partida ao meio por quem quer que seja que tente entrar nela à força.

Até parece que eu não sabia como ficava o estado mental de pessoas postas sob investigação intensa contra obliterantes. Pelo menos quatro oniscientes invadiam a mente do suspeito e reviravam tudo de cima a baixo. Todas as memórias, pensamentos, desejos, sonhos… tudo era virado ao avesso pra descobrir se havia alguma alteração anormal. Mas isso valia pra quem tinha décadas e décadas de idade. Quem já tinha uma mente sólida, envelhecida e recheada de memórias. Alésia, mesmo que fosse forte, era jovem demais. Ela não tinha vivido o suficiente para preencher e consolidar a mente. A vida dela seria simplesmente destruída.

— Esse é um risco que devemos correr!

— Uma ova que devem. Se vocês encostarem um dedo que for nela, eu ponho abaixo esse lugar inteiro com todo mundo dentro!

— Isso mesmo… nada como agir de forma mais suspeita ainda tentando obstruir a justiça. — Emil caçoou.

— Esse seu delírio é obviamente alguma tentativa de incriminar Alésia e a mim! — eu rosnei pra ele. — Do minuto que eu cheguei vocês dois tem pensado em alguma forma de me afetar. Especialmente você.

— Isso não é verdade. Eu não quis te machucar de nenhuma forma! — mamãe se defendeu.

— Chamando ele pra me ver quando cheguei, sabendo que ele tentaria me atacar? — Eu acusei ela. — Você tem pensado em diversas formas de se livrar de Alésia, até colocou aquela Amelie como forma de espioná-la mais de perto, achando que eu voltaria pra esse antro se conseguisse nos separar.

— Por favor Henry… não seja cabeça dura, — ela disse. — Eu fiz apenas o necessário para manter a saúde da nossa família. Pra começar, você nunca deveria ter se misturado com aquela…

— Não se atreva… — eu ameacei.

— Venha mamãe… — Emil disse puxando o braço de nossa mãe para afastá-la de mim. — Não adianta argumentar com ele. Ele está fora da razão… — ele disse simulando pena.

— Você… você está armando tudo isso pra tentar nos incriminar. Só pode ser você. Pra começar, como poderia saber que Monique estava atacando Alésia e ter aparecido para interferir justo no momento certo? — eu o acusei.

— Ora mais! — Ele exclamou como se eu tivesse feito uma pergunta retórica. — Se eu estava investigando a coisinha, é claro que eu estava observando ela de longe. Mas confesso que me diverti ao menos um pouco vendo a coisinha saltitar tentando não ser atingida por essa outra, e só as separei quando Monique realmente parecia querer passar dos limites.

— SEU…

— O que foi? — Ele recuou puxando mamãe para mais longe. — Vai tentar me matar também como fez com Monique? — ele disse fingindo receio, mas no fim não conseguiu conter um sorriso pelo canto da boca.

— Você está adorando isso…

— É. Estou sim, cada segundo está sendo uma delícia! Eu sempre soube que você não prestava.

— Emil, por favor, não piore as coisas…

— Seu plano vai cair por terra. Se tocarem um dedo em Alésia eu destruo esse lugar inteiro com todos dentro. Mas se você quer tanto investigar, — droga, eu detestava ter que usar esse trunfo, — vá pessoalmente pedir permissão ao imperador.

Emil levantou uma das sobrancelhas. A princípio eu pensei que ele estava apenas especulando, mas agora era evidente que tudo isso era uma armação dele. Por isso as coisas estavam acontecendo dessa forma, porque parecia realmente tudo como ele falava ser.

Se eu fosse um espectador de fora dessa situação, eu claramente não duvidaria das palavras dele. Era o mais lógico. E pra piorar, Alésia realmente era uma obliterante. Independentemente do que, só por isso, ela já seria incriminada. Mas é claro que ele não tinha como saber da extensão das minhas conexões. Se ele estava achando que eu fosse simplesmente esperar sentado vendo ele destruir Alésia, ele estava completamente errado. Eu venderia minha alma pra salvar a dela. E provavelmente era isso que ele estava esperando que eu fizesse.

Mas então mamãe suspirou avidamente horrorizada:

— O que houve? — Emil perguntou pra ela.

Então, nesse exato segundo, eu também senti que algo estava errado.

— Amelie… ela acabou de me ligar… ela foi sequestrada!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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