DCC – Capítulo 71 – 3Lobos

DCC – Capítulo 71

Antes que o dia termine

 

Henry Siever:


Eu ocasionalmente parava para pensar na organização política dos humanos. Bards e Jomons eram de longe muito diferentes, mas conseguiam relativamente conviver. Ainda existiam conflitos e guerras, e as interações entre os diversos planetas eram feita sob muita pressão. Uma diplomacia imparcial era, mesmo que não fosse desejada, completamente indispensável.

Oniscientes, então, eram a base da sociedade humana. Eles determinavam imparcialmente quando alguma transação ou interferência entre planetas era justa e sem pretensões malignas, em troca de participações nos lucros, propriedades ou favores. A honestidade dos oniscientes era inquestionável, uma confiança inabalável mesmo entre Brards que nunca tiveram contato com magia.

Por isso, para proteger o estilo de vida que foi construído durante milhares e milhares de anos, em todo o império, o crime mais terrível que um onisciente poderia fazer era praticar deliberadamente a arte da obliquação. Poucos sabiam sobre os obliterantes, mestres em obliquação, mesmo que uma vez ou outra aparecesse um caso isolado. Além disso, era extremamente difícil localizar um, mesmo para um inquisidor experiente.

Alésia teria problemas, por ser extremamente inexperiente. Ser uma obliterante sem ser uma onisciente forte era como acender holofotes para ela. Entre um mundo de pessoas com mentes cheias, como se fosse uma mesa cheia de livros abertos, um livro fechado claramente chamaria atenção. Esse era um tabu absolutamente proibido.

Eu obviamente não havia contado a ela exatamente a gravidade da situação, de que obliterantes eram executados sumariamente, sem direito a julgamento. Era muito perigoso ter pessoas com a capacidade de alterar completamente memórias e pensamentos na sociedade. Nunca ninguém saberia se o que eles falavam era verdade ou não, talvez nem mesmo o imperador.

Eu olhei para Monique. Suas memórias inconsistentes eram sinal de algo perturbador além do que eu poderia esperar: a mente dela havia sido alterada. Nesse dia, ela havia encontrado ao menos um obliterante, pelo que eu sabia, e pela grande lacuna que deixaram, era provável que tivessem feito isso na pressa.

Então, ou Alésia era realmente a culpada, e havia escondido até de mim o desfecho, e por não saber controlar ainda os poderes direito, deixou detalhes na memória de Monique, ou… Havia realmente outro obliterante por perto.

— Isso é terrível! — Mamãe começou a repetir andando de um lado para o outro, surtando. — Alguém realmente conseguiu fazer tal coisa dentro de nossa casa… Se alguém de fora ficar sabendo…

— Por favor, se acalme! Eu não consigo pensar direito com seu faniquito, — eu reclamei.

Ela se virou pra mim, pronta para me dar um tapa. Mas a mão dela foi repelida por minha barreira inata. Mesmo assim, a tentativa me deixou perplexo.

— O que…?

— Você realmente perdeu todo o respeito por mim, não foi? — ela falou com tristeza.

Eu realmente, realmente, realmente! não esperava essa reação. Minha mãe! Que sempre tinha sido uma perfeita Jomon objetiva e funcional. Que sempre tinha seguido a risca suas funções e obrigações do trabalho acima de tudo. Que sempre tinha sido dura e exigente para cobrar o que ela achava ser o mínimo necessário para ser um Siever, não importa o que. Que achava que coisas como sonhos e desejos eram superficialidades sem importância e que a emotividade era um instinto primitivo e desnecessário que os humanos deveriam ter descartado milênios atrás. Essa mesma mulher, minha mãe… deixou cair uma lágrima.

Pânico. Ela estava em pânico.

— Por favor, pode se acalmar? Eu… eu… — Eu olhei ao redor, mas não havia nada para me ajudar.

Os funcionários estavam mantendo distância, com medo de se aproximar. Richard estava parado ao fundo, olhando para as paredes pensando muito alto que não estava vendo nada e Monique… bom, Monique nada…

— TODOS! SAIAM!!! — Mamãe gritou. Os funcionários mais próximos da porta nem pensaram em desobedecer. Richard ainda parou o suficiente para olhar pra mim, esperando que eu confirmasse a ordem para ele. Eu ainda precisei segurar o braço de Monique, que por não ter mais raciocínio próprio, estava sugestionada a quase qualquer ordem que estivesse dentro do padrão de vida que ela levava, e isso incluia obedecer a mestre dela.

— Você não faz ideia mesmo da gravidade da situação. Mesmo se por sorte a memória dela não tenha sido adulterada, ela provavelmente teria um Laço da Alma mais poderoso que o meu, que ainda por cima tramava coisas pelas minhas costas! Se alguém de fora ficar sabendo disso, todos os trabalhos que estão nas mãos dos Siever vão ser colocados a prova. Toda a Casa será investigada. Todos os membros serão postos sob suspeita e nossa família nunca mais vai conseguir recuperar a dignidade! Nós fomos contaminados!

Mamãe falava com a voz quase uma oitava acima do tom natural, muito nervosa e alterada. O problema realmente em se lidar com um obliterante era que todos eram suspeitos em potencial, inclusive ela. Ou seja, ela também seria posta sob investigação, assim como papai, Emil, eu e Alésia.

Por sorte, as únicas autoridades acima dos Siever com competência para investigar tal fato eram os Inquisidores, pessoal diretamente relacionado ao imperador, que apesar de ser um cretino desgraçado, estava atualmente bastante interessado em manter as Relíquias em segurança.

A contrapartida, é que ele poderia usar esse incidente como desculpa para passar por cima de mim de novo e me tomar Alésia. E isso eu não poderia permitir. Com o rancor que ele estava agora, era muito mais perigoso encarar a inquisição do que fugir sem ter culpa alguma.

— Não há por que se preocupar com tais detalhes, — eu falei para mamãe. — Eu mesmo me encarregarei de descobrir quem é esse imbecil que se atreveu a erguer a mão contra um Siever.

Ela me olhou consideravelmente surpresa, mas se acalmou o suficiente para se recompor, então disse:

— E pensar que apesar de ter abandonado nossa casa, você não abandonou a magia… está tão poderoso agora que eu nem consigo dizer o que está pensando… se bem que… neste momento, isso não é uma coisa boa. Mesmo que aquela menina não tenha nada a ver com isso, ela estará sob investigação, e consequentemente você. Se tiver alguma coisa…

— Eu não alterei as memórias da sua funcionária. Não tenho essa capacidade. — Eu a cortei logo, sabendo o que ela estava insinuando. Ela suspirou aliviada. — E mesmo que eu tivesse, tenho mais o que fazer.

— Mas você bem que quis ter tirado satisfações com ela.

— Quis. Mas Alésia me trouxe de volta à razão. Monique não valia a pena. Se bem que eu deveria ter feito isso, afinal, ela provavelmente estaria em uma situação bem melhor do que a que está agora.

— Certo, precisamos falar com seu pai. Precisamos decidir o que fazer.

 

Alésia Latrell:


— Por que de repente mudou de ideia e resolveu voltar para a Casa dos Siever? — Amelie me perguntou intrigada, assim que saímos.

— Henry esta lá resolvendo algumas coisas sobre a investigação do caso da Monique. Eu quero falar com ele, — respondi.

Na verdade, não era bem só falar que eu queria. Eu estava me sentindo muito inquieta. Apesar de Amelie e Louie não me passarem nenhum sentimento de ameaça, eu queria voltar a ficar do lado de Henry. Eu precisava contar a ele o que eu tinha descoberto, e seria melhor se eu fizesse isso pessoalmente.

— Mas por que não liga pra ele? — Louie me perguntou enquanto me acompanhava no caminho de volta.

— Por que? Eu já liguei… ele está me esperando. Liguei antes de vocês chegarem…

Eu menti na cara dura. Ou não, já que eu realmente tentei, mas ele não tinha me atendido. Provavelmente estava consertando o corpo de Monique naquele momento e não pôde me atender. Minha nossa, eu realmente estava mentindo… De certa forma isso me deu uma sensação tão intensa de adrenalina. Ter que lutar com uma horda de renascidos equipados com armamentos primitivos não se comparava em nada com olhar na cara de outra pessoa e mentir deliberadamente.

Mas o diabo que iria falar a verdade numa situação dessas.

Nós três saímos em direção à Casa dos Siever. Amelie pediu um dos meus casacos emprestados para poder sair mais confortavelmente. Ela não gostava muito de grandes comoções e começou a me contar quase exasperada com excesso de detalhes sobre como, sabe-se lá como, reconheceram ela e Louie como parte dos Siever na rua.

Louie, por outro lado, apesar do comportamento expansivo que ele tinha com Henry, se comportava de forma bem elegante e dantesca agora. Parecia que o mundo dos Jomons também era cheio de aparências. Talvez até mais do que o que acontecia com os Brard. A vida era curta para ser desperdiçada inteira se fazendo o que não se gostava.

— As duas coisinhas podem me desculpar por um momento? — ele falou quando estávamos a meio caminho sobrevoando uma delicatesse. — Eu gostaria de comprar alguns doces dessa loja para servir Henry. Ele com certeza não prova muitas receitas nefrandinas há um bom tempo, e eu acho que ele nem chegou a provar nada realmente bom no banquete de ontem. Um bom doce é muito bom pra acalmar os ânimos.

Eu não queria demonstrar a minha pressa, então concordei. E realmente seria bom eu ter algo para deixar ele bem relaxado antes de conversar. Ele iria ficar louco de raiva assim que descobrisse sobre o plano de Emil.

— É verdade! E você também, quase não comeu das especiarias servidas ontem! Você precisa provar algumas coisas. Essa loja é excelente. Você vai adorar, — Amelie disse me arrastando pela mão e me levando para dentro da delicatesse.

Ela e Emil compraram vários docinhos diferentes e pediram para viagem. Então continuamos o nosso caminho, indo aproveitando os doces. Eu tinha que admitir: os doces nefrandinos eram bem exóticos e tinham o sabor forte, mas eram uma delícia.

Foi quando estávamos mais ou menos a dez minutos da Casa dos Siever que a Sabedoria me alertou de algo. Depois do que eu presenciei, resolvi espionar as comunicações de Emil para antecipar os passos dele. E ele tinha acabado de receber uma notificação realmente suspeita e preocupante:

— Ela está vulnerável. Ele a deixou só. A janela foi aberta.

Três frases curtas. Droga, eles falavam de mim, com certeza. O pior é que Emil não havia salvo o remetente da mensagem, era um comunicador descartável. Eu não tinha como descobrir a quem ele pertencia. Olhei para Louie e Amelie que seguiam ao meu lado completamente alheios ao que eu tinha acabado de saber. E o dia ainda estava longe de terminar.

Foi então que minha cabeça começou a doer, e o mundo girar ao meu redor como se de um segundo para o outro eu tivesse ficado extremamente bêbada e tonta. Essa sensação me lembrava vagamente a sensação que os dardos tranquilizantes me davam na Lua Laplantine.

Droga, já era.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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