DCC – Capítulo 70 – 3Lobos

DCC – Capítulo 70

O depoimento de Monique

 

Henry Siever:


Eu me divertia muito vendo quando tentavam me impressionar. Eu costumava não ser muito exigente. Nunca consegui encontrar nenhuma pessoa que pudesse me acompanhar, então eu pedia apenas o que eles pudessem me oferecer.

Apesar de falarem muito dos Brards, o problema dos Jomons é que eles sempre estancavam no autodesenvolvimento assim que atingiam um certo nível, e levavam uma vida igual por séculos e séculos até morrer. Era uma mentalidade do tipo “já está tudo tão perfeito, por que mudar?” Tão entediante…

No meu ver, a perfeição era o eterno desenvolvimento que os humanos eram capazes de alcançar. Não havia um ponto específico e estático para onde pudéssemos ir. Era o caminho que importava, e todas as mudanças que ele trazia.

Então, quando eu atingi o topo da medicina, eu não parei. Por que aquele não era o meu máximo. Eu podia aprender mais. Eu podia crescer mais, então assim eu fiz. Obviamente eu virei de longe o bioengenheiro médico mais competente da galáxia. Dificilmente apareceria alguma pessoa para rivalizar comigo. Por isso eu criei os centros de pesquisa. A medicina baseada em componentes artificiais e sintéticos ainda tinha muito a crescer. Se os médicos que tinham talento se interessassem em fazê-la crescer, então não haveria mais nenhuma enfermidade que não pudesse ser curada.

Pelo menos Richard havia me dado algum bom humor nesse planeta peçonhento. Ele era dedicado. Pelos equipamentos que ele me trouxe, eu pude ver os centros progrediram um pouco. Não tanto quanto eu sozinho, mas isso era alguma mudança. E mudanças eram coisas boas.

A tecnologia não havia sofrido nenhum grande avanço por tantos milênios que os humanos apenas se preocupavam em manter o que já tinham, e de vez em quando relançavam coisas antigas e esquecidas como se fossem novidades recém inventadas.

Uma das coisas que eu imaginava era como seria se eu conseguisse inventar algum aparelho que capturasse a alma de uma pessoa antes que reencarnasse. Assim, a alma poderia ser reimplantada e a consciência daquela pessoa poderia continuar existindo, com emoções e sentimentos. Seria completamente diferente de um renascido comum que não passava de um banco de dados de carne sem empatia alguma.

Richard me observou quase psicoticamente. Ele demorou um pouco para se acalmar o suficiente para ser um assistente eficiente. Eu não precisava realmente de assistência, mas era uma boa oportunidade de passar pra frente uma coisa ou outra que eu havia aprimorado.

Eu não estava mais com raiva de Monique. Ela obviamente era só um peão. Uma idiota qualquer que foi usada por outro idiota sem raciocínio achando que podia me atingir. Felizmente, Alésia era capaz o suficiente para sobreviver.

Os procedimentos para renascer o Corpo de Monique foram rápidos. Eu poderia ter deixado para lá a perna, mas isso seria deixar o trabalho pela metade.

Quando todas as partes afetadas pelo óbito haviam sido reparadas e o coração estava pronto para ser estimulado, mamãe entrou na enfermaria:

— O que pensa que está fazendo Henry! — ela perguntou, atônita.

— Estou fazendo o que você já deveria ter começado: investigando o que aconteceu.

— Mas de que serve mexer no corpo dela? A perícia já constatou que ela foi morta por algum projétil que atravessou o pescoço e que o corpo foi movido de lugar. Só precisamos achar a arma do crime para descobrir o culpado. Ou culpada.

— Humpf… — essa ladainha de suspeitas me cansava. — Como se eu não soubesse o que está tentando fazer. Só porque você quer que Alésia seja a culpada, não significa que essa é a verdade. Aqui está a verdade.

Eu apontei para o corpo de Monique, ao mesmo tempo em que o impulso para o coração era colocado, e uma bomba de ar incitava os pulmões.

Monique respirou fundo como se estivesse sem fôlego e se levantou como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo.

Mas então o olhar dela se tornou vago e perdido, como se algo estivesse faltando. Bom, algo estava realmente faltando, já que ela não tinha mais alma.

— Qual o seu nome? — Eu perguntei.

— Monique Siever.

— E como se chamava antes de ser uma Siever?

— Monique Claire Mollet.

— Quem te adotou como uma Siever?

— Madame Petra.

Ela responderia mecanicamente qualquer pergunta que eu fizesse. Era simples. Ela não tinha mais sentimentos, emoções, desejos ou personalidade, apenas as memórias e os instintos. Bastava eu fazer as perguntas, que ela contaria tudo o que eu quisesse saber.

— Você lembra da sua morte? — eu perguntei.

— Sim.

— Como você morreu?

— Uma flecha me perfurou.

— Quem atirou a flecha que te matou?

— Eu mesma.

Que? Ela mesma havia atirado a flecha? Isso não podia estar certo. Ela não era do tipo que parecia ter intenções suicidas, se bem que esse tipo de intenção nunca tem cara. Mamãe aparentemente tinha ficado chocada.

— E por que fez isso? — mamãe perguntou sem entender.

— Não sei.

— Ela não vai entender uma pergunta vaga. Ela não tem mais raciocínio próprio, então é preciso ser bem específico para conseguir a resposta certa, — eu expliquei para mamãe, então me virei para Monique — Relate a sequência de acontecimentos que ocorreram no dia da sua morte.

— Acordei, troquei de roupa. Meu marido me encontrou e me forneceu a localização da Brard. Eu deveria matá-la. Era o certo a se fazer. Eu acompanhei o teste à distância. No ponto mais distante comecei a atacar utilizando feitiços de onipresença para potencializar a força e a velocidade de cada flecha. Uma das flechas perfurou com sucesso um braço e o pé da menina. As demais passaram de raspão ou erraram o alvo.

Mamãe levou as mãos à boca para cobrir sua expressão de surpresa. Ou ela realmente não acreditava que aquela história tinha acontecido, ou ela não esperava um depoimento. Eu fiz um breve sinal para ela não interromper o depoimento.

— A Brard conseguiu um contra-ataque eficiente ferindo meu rosto e minha perna. Decidi encerrar a disputa. Avancei para a menina, mas mestre Emil me parou. Mestre Emil ordenou que eu me calasse e que eu me retirasse. Eu saí dos campos de teste e retornei para meus aposentos. Chamei meu marido. Meu marido voltou e me entregou um objeto para me sentir melhor… — então Monique pausou. Isso era estranho. Pela fluidez que ela estava indo, não deveria estar tendo nenhum lapso na memória dela. Ela continuaria até onde sua memória permitisse, depois disso seria bem difícil conseguir uma informação.

Mas se a memória dela realmente ia apenas até tal ponto, ela havia deixado uma incoerência muito grande na história. Por que ela procuraria ajuda do marido se estava planejando se matar?

— Já chega! Isso não está certo… — mamãe exclamou ainda com as mãos cobrindo a boca.

— O que era o objeto que seu marido lhe entregou? — eu instiguei.

— Era… uma crisálida, — Monique sussurrou.

— !!! — Mamãe quase não se conteve de espanto.

Eu mesmo estava surpreso. Uma crisálida? Pra que? Ela obviamente não tinha sido curada, então não era um feitiço de cura. Crisálidas eram objetos feitos especialmente para armazenar feitiços e poderes mágicos.

Existiam todos os tipos de crisálidas, de diversos tamanhos e capacidades. As mais antigas e poderosas eram justamente as três que transportavam as relíquias. Essas três eram objetos inestimáveis. Mas também existiam crisálidas descartáveis de uso único que guardavam feitiços de proteção e cura, das mais simples, capazes de salvar a vida de uma pessoa, às mais impressionantes, capazes de conter barreiras fortes o suficientes para cobrir cidades inteiras.

Se o marido de Monique havia dado a ela uma crisálida dizendo que era para se sentir melhor, eu esperaria que fosse alguma com algum feitiço de cura que estabilizasse o corpo dela até receber atendimento médico. Mas isso não foi feito. Os ferimentos dela ainda estavam intactos quando a examinei. Então, a única conclusão lógica era que alguém interferiu entre o momento que Monique recebeu o objeto e o momento da morte. Obviamente o marido também estava arquitetando o ataque contra Alésia, mas era estranho que ele não tivesse aparecido até esse momento para ver a esposa morta. Mamãe ainda sacudia a cabeça de um lado para o outro em negação. Um turbilhão de pensamentos confusos enchiam a mente dela ao ponto de nem eu conseguir entender o que se passava lá dentro.

— O que foi? — Eu já estava ficando impaciente, então tive que perguntar.

— Isso não está certo… — ela repetiu a mesma frase.

— Ah… qual é? Se está pensando em alguma forma de culpar Alésia ainda…

— Cale-se! — Mamãe ordenou, sem tirar os olhos de Monique. — Eu conheço muito bem a técnica de renascimento. Não preciso que me dê sermões sobre isso. Mas o depoimento dela não pode ser válido para investigações.

— E por que não? Teme que ela diga alguma coisa que não deveria?

— O que quer que ela diga, deveria ser uma informação precisa sobre a realidade, inclusive a parte em que ela recebe a informação sobre o exame, mas…

— Sim. Eu sei disso… — eu interrompi, revirando os olhos. — Vai dizer que deu a ela a informação sobre o teste? Eu sei que muita gente estava interessada em aparecer para ver.

— Já te pedi para não ser insolente, — ela repetiu a bronca, dessa vez mais séria. — Você não entende como isso é sério.

— Então explique.

— Monique tinha um Laço da Alma comigo. Um laço é a forma mais poderosa de restrição contra traições. Eu, como contratante, sei de tudo sobre a vida de todos os meus contratados. Então isso obviamente não está certo…

— O que não está certo!? — eu perguntei impaciente.

— Monique… não tinha marido.

— Qual o nome do seu marido? — eu perguntei para Monique. Isso realmente não estava certo. Ela não tinha como não ter um marido, se claramente dizia ter um.

— … — Monique abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu.

Ela não sabia.

Como podia ela não saber? Então ela realmente não tinha um? Que merda era essa?

— Há outra inconsistência nisso. — Mamãe apontou ainda parecendo extremamente chocada. — Ela tinha um Laço da Alma comigo, significa que ela nunca poderia desobedecer uma ordem direta minha. E ela claramente desobedeceu a lei de não profanar o espaço sagrado de testes. Emil poderia facilmente desmentir isso se essa fosse a mentira dessa história.

— Então a explicação óbvia é que a senhora teria ordenado a sua funcionária que invadisse o campo de testes.

— Coisa que não fiz. O que leva à duas únicas explicações: ou ela tinha um Laço da Alma superior ao que tinha comigo, que permitiu a ela guardar segredo sobre o casamento dela…

— Ou a memória dela realmente foi adulterada… — eu complementei.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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