DCC – Capítulo 69 – 3Lobos

DCC – Capítulo 69

Correndo atrás

 

Alésia Latrell:


Essa definitivamente tinha sido a coisa mais estúpida que eu havia feito sozinha desde quando eu consigo me lembrar. Vir espioná-los por conta própria só tinha sido possível por conta de uma extrema sorte e um sangue frio que só consegui depois de degolar muitas cabeças.

Quando eles foram embora, eu finalmente consegui respirar aliviada. Realmente, depois que Henry havia me explicado a natureza da obliquação, eu podia usá-la naturalmente como se fosse algo simples e inato de minha alma. Eu apenas precisava trancar todas as outras emoções que eram dispensáveis para aquele momento e agir com a cautela necessária, deixando de fora apenas aquilo que fosse necessário, como pensamentos frívolos de turistas, caso eles resolvessem vasculhar a minha mente.

Eu ainda esperei mais uma hora depois que Emil saiu para sair do estabelecimento. Chamei Jacques, o metre, e paguei a ele pela conta com um adicional de alguns milhares de créditos, pela discrição dele. Ele ficou um bom tempo parado boquiaberto.

Então sai pela orla e peguei o caminho de volta para a casa que alugamos em Urandir. Estava na metade do caminho quando reparo que, bem na minha frente, iam flutuando calmamente com roupas à paisana Amelie e Louie, sem chamar atenção.

Mas que merda!

Para onde eles estavam indo?

Mesmo eu estando relativamente comum comparada à todas as outras pessoas à minha volta, meu visual ainda era especialmente memorável. Se Emil aparecesse do nada para falar com eles ali, ele certamente me reconheceria se me visse de novo, e nesse momento qualquer um da casa dos Siever era um inimigo potencial. Nesse momento, eu estava cercada de pessoas que fariam qualquer coisa por um Siever pela simples oportunidade de conseguir um favor.

Eu retardei um pouco minha velocidade e continuei a voar por trás de um grupo apático de velhos que discutiam sobre problemas de importação em Abrasian. Então, usei a mesma técnica de direcionar a minha audição para “sentir” o que Amelie e Louie conversavam.

— Eu só não entendi ainda porque você está me seguindo, coisinha — Louie disse para Amelie.

— Eu já disse para parar de usar esse tom informal para se dirigir a mim. — Amelie deu uma bronca, parecendo bastante ofendida. — E você não vai me fazer desistir de ir ver Alésia.

— Você não tem nenhum interesse real em Alésia, — Louie disse sério. — Você não quer a amizade dela, está apenas seguindo as ordens de Madame.

— É claro que eu estou seguindo ordens! A palavra da Madame Petra é absoluta. Eu acredito nela, e se ela me disse pra fazer amizade com Alésia então é o que eu farei de todo coração.

Eu me arrepiei com a dedicação de Amelie. Mas pelo menos eu sabia que, por enquanto, até que uma ordem contrária fosse dada — ela estava sendo sincera em relação a mim. Isso poderia ser útil.

— Você é uma tola por acreditar nisso. Sequer sabe o que está acontecendo? Não viu como a Madame tratou a menina lá nos campos de testes? Ela obviamente não tem interesse nenhum em nutrir qualquer relacionamento positivo.

— Como se atreve a presumir o que a Madame quer? — Amelie perguntou ainda mais indignada. — Você sequer é contratado dela. Mas se Madame quer de mim que eu seja amiga de Alésia. Isso é o que serei, não importa o que você diga ou faça.

— E se a Madame falar pra você parar? — Louie perguntou, desafiador.

Amelie abriu a boca pra falar, mas por um momento não encontrou palavras. Ela pensou um pouco para finalmente responder:

— Madame tem uma razão pra tudo. Se ela pedir isso, tenho certeza de que ela estará pedindo o melhor.

Louie revirou os olhos. Então eles estavam indo visitar a mim e a Henry. Mas nenhum de nós estava lá. Eu tinha que dar um jeito de passar por eles, sem que eles me percebessem. Então uma ideia ridícula me ocorreu.

— Minha nossa! São dois membros da Casa dos Siever voando à paisana! — eu disse relativamente alto apontando para os dois.

A comoção foi instantânea. Um punhado de gente que estava ao meu redor se virou para onde eu estava apontando e correram na direção de Louie e Amelie. Os dois foram pegos de surpresa pela leva de pessoas que começou a cercá-los literalmente por todos os lados. Tinha até gente flutuando de cabeça pra baixo acima deles, tentando se fazer ser ouvido. Eu aproveitei a oportunidade e me apressei na direção da casa.

Eu entrei às pressas e me troquei o mais rápido que pude, removi a maquiagem e soltei o cabelo. Eu ainda tinha que decidir se eu abriria a porta para eles. Henry não estava aqui, e pela atual situação… o que eu tinha descoberto não era brincadeira.

A gente tinha que ir pra longe desse planeta.

Quinze minutos depois de eu chegar, Amelie e Louie pediram entrada. Eu deixaria eles entrarem ou não? Então, fui até a nave, e peguei um dos kits de primeiros socorros que Henry sempre guardava ali. Peguei o que precisava e depois abri a entrada da casa para os dois visitantes.

— Vim ver como vocês estão! — Amelie saudou animada. — Depois da forma como foram embora, não pude me despedir, então aqui estou!

— E ai! — Louie disse serenamente. Olhou ao redor e disse — Cadê o velho caquético que mora com você?

— Ele decidiu ir ali investigar uma pista por conta própria, — eu respondi sem jeito.

— E te deixou sozinha? — Louie levantou uma sobrancelha parecendo impressionado.

— Não necessariamente. — Eu tinha que inventar uma desculpa. Que merda, eu nunca tinha mentido assim na cara dura — Ele está me monitorando agora mesmo. — Eu emendei. Não era uma mentira. Pelo rastreador que Henry havia posto em mim, ele poderia me monitorar a todo momento.

— Ah sim, agora faz sentido! — Louie disse relaxando. — Eu duvidaria muito que ele te deixasse sozinha sem nenhuma medida protetiva aqui, principalmente agora que ele deve estar desconfiado de todo mundo.

— Pois é…  — eu disse sem jeito.

— Parece que você está um pouco desconfortável em nos receber, — Louie constatou de cara.

— Ah… me desculpe. É que eu estou um pouco nervosa desde que vi o corpo de Monique. — essa parte também era verdade, mesmo que não fosse o motivo por eu não querer aqueles dois ali.

— Se é este o caso, nós vamos embora, mas você não deveria ficar sozinha agora! — Amelie disse, expressando a mais sincera preocupação. — Aquele ressentimento que Monique jogou em cima de você quando morreu foi muito forte. É pra deixar qualquer um abalado.

— E vocês acreditam mesmo que eu não tenho nada a ver com isso? — eu perguntei tentando levar o assunto para Monique. Eu ainda estava apanhando pra usar a obliquação. Mesmo que naturalmente eles não pudessem ver meus pensamentos, eles obviamente conseguiam sentir minhas emoções.

— Bom, ela estava ferida e a perna dela estava quebrada, o que bate com a sua história de que ela te atacou que você contou. Mas não tem como você ter levado o corpo dela no pátio. E na hora da morte, pelo que eu fiquei sabendo, você estava com Amelie. Não tem porque eu duvidar de você. Seria ilógico. Fora que você mesma disse que Mestre Emil apareceu bem na hora pra te salvar. Ele pode desmentir a história.

Eu duvidava disso, mas não tinha o que fazer. Eu tinha que continuar jogando conversa fora até Henry voltar.

Richard Lacan:


Eu tinha vindo pessoalmente à Casa dos Siever para entregar os equipamentos. Fazia quase dez anos que eu não via Henry. Um dos motivos pelo qual ele me contratou foi por minha dedicação aos centros de pesquisa. Então eu claramente levei a sério o pedido dele.

Obviamente, eu não sabia que ele era relacionado com a Casa dos Siever. O fato dele ter o mesmo sobrenome, eu podia jurar que era apenas por acaso, então é claro que eu estava em choque. E ele não só era relacionado com a Casa dos Siever, como era o filho mais velho do chefe de todo aquele lugar.

— Tem gente que nasce virado para a lua mesmo… — eu disse sorridente ao vê-lo, mas imediatamente mudei para uma expressão mais profissional. — Trouxe tudo o que pediu. Há algo mais que eu possa fazer além disso?

— Acho que você pode me servir de assistente. Eu não confiaria em nenhum desses ignorantes para me ajudar.

Eu poderia morrer feliz bem ali. HENRY. SIEVER. PEDIU. MINHA. AJUDA!!! Eu tinha que me acalmar… Respirar fundo… — Relaxa… você vai apenas fazer o serviço de assistente…

PUTA MERDA! VOU SER ASSISTENTE DE HENRY SIEVER!!!

Henry levantou uma sobrancelha olhando para mim. Ele estava esperando uma resposta.

— Sim! Claro que sim! — eu confirmei duas oitavas acima do meu tom normal de voz. — Só preciso ter acesso aos laudos iniciais e…

— Não precisa se preocupar com o corpo, se eu mexer sozinho é mais rápido. Basta apenas ir me entregando o que eu precisar, — Henry disse.

— Sim! Claro!

Eu me acalmei um pouco. Esse era o tipo de serviço que eu delegaria para enfermeiros sem talento. Mas ter a oportunidade de sequer assistir à um procedimento realizado por ele era uma graça sem igual. Com certeza valeria mais do que três ou quatro dos meus doutorados. Eu poderia dar palestras sobre esse dia, se ele não tivesse me pedido para manter sigilo.

Para começar, o equipamento pessoal dele era absurdo. Era de uma tecnologia muito melhor do que a que usávamos nos centros de pesquisa. E a tecnologia que usávamos já tinha sido inteiramente desenvolvida por ele. Isso só poderia significar que Henry havia constantemente trabalhado em melhorar o próprio trabalho por si mesmo, e isso em um nível que nem todos os centros reunidos eram capazes de alcançar. Sendo assim, para que ele precisava de nós?

Eu senti o meu sangue ferver de empolgação.

— Ótimo. Comece calibrando os bisturis a laser para a mesma frequência, e ajuste a solução hemostática, e uma infusão plasmática reconstrutiva.

Eu me apressei a preparar os primeiros pedidos. Ele ficou parado me observando, como se estivesse me avaliando. Ah, é óbvio que ele estava me avaliando! Eu tinha que ser profissional agora. Era uma chance inigualável. Eu tinha que ser perfeito.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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