DCC- Capítulo 68 – 3Lobos

DCC- Capítulo 68

Espionando

 

Eu mantive minha postura relaxada olhando para a rua, como se a chegada dele tivesse me passado despercebida.

Ele passou os olhos por todos ali e também por mim, mas como eu esperava, ele não me reconheceu. Ele não iria conseguir sentir minhas intenções escondidas, graças a obliquação, então eu deixei escapar apenas os pensamentos de como a bebida era doce, e como a praia era linda — seria suspeito se ele não pudesse sentir nada.

Emil tinha vindo até aqui para se encontrar com outra pessoa. Um atendente o encaminhou diretamente até uma mesa também na ala vip. Emil era muito parecido com Henry, mas ele se sentava com uma postura e dignidade que Henry parecia não ter o mínimo interesse em ostentar. Não que Henry não inspirasse o respeito nos que estavam à sua volta, era só que, ao contrário de Emil, ele não parecia querer intimidar ninguém com isso.

Emil dispensou rapidamente o metre e os garçons que foram atendê-lo. Pediu apenas uma xícara de café e que o deixassem em paz. Então, menos de cinco minutos depois, chegou a pessoa que ele veio encontrar. Eu não me atrevi a olhar para a mesa deles para ver quem era.

— Foi seguido? — Emil perguntou aos sussurros para o recém-chegado que se sentou à mesa.

— É claro que não! Eu surgi diretamente aqui dentro. Ninguém na rua me viu chegar, — o outro sussurrou de volta.

— Ótimo. E mesmo se a informação do nosso encontro vazar, não estamos fazendo nada de errado, — Emil disse.

— Pelo menos isso não é motivo para se preocupar. Ninguém nessa cidade divulga informações dos Siever sem o nosso consentimento.

— Enfim. Conseguiu o que eu pedi? — Emil perguntou ansioso.

— Claro que sim, — o outro disse passando para Emil um objeto que eu não consegui ver, mas de alguma forma senti do que se tratava.

— Só isso será suficiente?  — Emil perguntou, observando o objeto.

— Sim, sim. É suficiente para um Jomon de meia idade. Imagine para uma Brard, — o outro explicou.

Eu apurei mais os sentidos para ouvir a conversa deles. Eles falavam muito baixo, mas como ocorreu durante o teste, agora eu podia sentir as palavras à distância.

— Vai saber usar? — o outro perguntou.

— Acho que sim. Nunca usei em outra pessoa, mas não deve ser muito diferente, não?

— Não, não… é basicamente a mesma coisa. Para sobrescrever, você escolhe o que quer que saia, e coloca por cima do que quer que fique. Para substituir, você apaga completamente o original e coloca outra coisa no lugar. Basta apenas dominar ou enfraquecer a mente primeiro.

— Ótimo. Isso vai ajudar bastante. — Emil disse animado, colocando o objeto no bolso.

— E como pretende fazer isso? — o outro perguntou interessado.

— Ainda estou decidindo…

— Você tem que tomar cuidado para não ter ninguém por perto na hora que for usar, — o outro sussurrou preocupado. — Ninguém pode descobrir sobre essa coisa. Eles não estão nem um pouco interessados se você é um Siever, um Stanislav ou mesmo um Egor. Eles levam muito a sério sobre manter os negócios na encolha. Por isso, o dispositivo tem uma trava genética. Quando configurá-lo, apenas você poderá usar. Então mesmo que outra pessoa pegue sem permissão, não vai conseguir abrir.

— Certo. Ao menos não é a minha primeira vez com um desses. Desde que eu consiga enfraquecer a mente dela, então não vai ser problema.

— Você tem certeza de que não prefere que eu faça isso? Seria mais fácil eu me aproximar já que eles não me conhecem, e você está sob a suspeita deles.

— Não, não… prefiro que você continue ocupando o lugar em que está. Se algo desse errado, seria uma perda estratégica enorme, e eu posso muito bem incriminar outra pessoa. É melhor que eu mesmo lide com isso, — Emil explicou ao outro.

— Está bem, mas deixe que eu tente me aproximar. Será mais fácil de conseguir uma brecha. As outras peças do jogo estão quase todas no lugar.

Aqueles dois estavam tramando descaradamente contra mim. E o objeto? Eu imaginava como eles poderiam ter acesso a tal tipo de coisa sendo da Casa dos Siever. Parecia que um assassinato era o menor dos problemas daquele dia. Tinha alguma coisa muito errada aqui, e eu só poderia pensar em “como a praia era bonita”, e que eu “talvez devesse pedir outro chocolate”.

Eu tinha adquirido o hábito de pesquisar pela Sabedoria se tinha havido alguma menção de meu nome. Era muito útil para evitar surpresas desagradáveis durante o tempo na Lua Laplantine, assim eu poderia preparar um plano de ataque eficiente e minimizar meus danos. Mas qual o objetivo deles? Por que a mim? Será que Emil estava interessado no dinheiro que ele descobriu que eu tinha?

Quando eu tinha decidido sair, captei uma conexão de Emil enquanto passeava em que ele mencionava meu nome, e outra em que agendava um encontro na cafeteria. Mas francamente, onde eu estava com a cabeça? Ele estava planejando coisas contra mim, e eu vim parar de bandeja na frente dele.

 

Henry Siever:


— Mas Mestre Henry! — Os responsáveis por guardar o corpo daquele desperdício de gente estavam tentando me impedir de entrar. — Recebemos ordens para não permitir o acesso de ninguém!

— Eu não quero dar muitos problemas pra vocês, então vou lhes dar duas opções: Vocês podem sair do caminho e dizer que eu os ameacei pra entrar à força, ou vocês podem sair do caminho à força. Escolham! — Então, eu levantei uma mão com os dedos abertos e fui baixando um de cada vez deixando claro para eles que era uma contagem regressiva. Vai saber se eles sequer sabiam contar. Todos paus mandados.

Mas eles entenderam com terror nos olhos. A parte útil de Emil ter me atacado quando cheguei é que uma notícia dessas se espalha rápido entre os funcionários. Nenhum deles iria ter coragem de me barrar agora. Todos eles abaixaram as cabeças e recuaram obedientemente.

O corpo de Monique jazia sobre uma maca de pedra e estava sendo limpo. Não fazia muito tempo desde a morte, então seria relativamente fácil restaurar o que fosse necessário. Comecei a examinar o corpo. Convoquei meu estojo de ferramentas e separei o meu scanner. A causa da morte por si só já diria bastante coisa.

Os resultados foram imediatos. Fratura completa na perna, algumas escoriações, marcas de luta e… uma perfuração importante na jugular atravessando completamente o pescoço. É, bastante efetivo. Causa da morte: asfixia por afogamento — o sangue tinha entrado pela traqueia e inundado os pulmões, depois ela continuou sangrando até secar. É…  seria fácil de consertar.

O princípio para renascer alguém era ter o encéfalo intacto e que o óbito não tivesse ocorrido há muito tempo. Memórias a longo prazo poderiam ser difíceis de resgatar, mas dados usuais e memórias recentes eram fáceis. Tudo o que eu precisava fazer era desobstruir os vasos sanguíneos de qualquer coágulo resultante da baixa de temperatura, substituir algumas partes, e dar um bom impulso para reativar o coração. Contanto que eu tivesse o equipamento necessário, eu poderia fazer isso brincando.

Mas aqui dificilmente teria algum equipamento realmente útil de medicina avançada. Renascimentos eram obras de uma tecnologia recente, então era improvável que pessoas fora da área tivessem o necessário em suas enfermarias precárias.

Fazer a operação no braço demoraria muito e corria o risco de deixar que mais lembranças se esvaíssem do cérebro ao ponto de se tornar inútil. Porém, comigo aqui, isso não seria um problema. Acessei o meu sistema de contatos, busquei a pessoa que eu precisava através do Link e iniciei a ligação.

Ele atendeu quase imediatamente. O corpo dele apareceu no meu campo de visão como se ele estivesse naquela sala junto comigo, mesmo sendo apenas um holograma feito unicamente para mim.

— Henry! Por deus, quanto tempo!? Pensei que nunca mais veria a sua cara. Como você está? — ele disse animado.

— Richard! Muito bom lhe ver. Preciso de um favor,  — eu respondi.

Richard ficou surpreso, mas respondeu feliz:

— Oras, você é o patrão, você que manda! Desde que possa ser feito, será feito!

— Eu sei que você ainda está na divisão de Nefrandir, então eu gostaria que me enviasse diretamente na Casa dos Siever alguns equipamentos que estou precisando. Em sigilo.

Richard comandava uma das repartições do meu centro de pesquisas em Bioengenharia Médica pelo Império. Mesmo eu tendo abandonado a linha de frente, não foram por mais do que alguns anos e eu ainda passava algumas ordens ocasionalmente quando o interesse voltava. E por eu ser o dono, é claro que eu poderia ter acesso a qualquer tecnologia que minha empresa possuísse. Eu enviei pelo link uma lista dos materiais necessários.

— Isso… — ele mudou completamente a expressão, obviamente havia sacado qual era o meu objetivo. — Tem algo errado? — Richard perguntou preocupado.

— Apenas venha rápido. Estamos no limite de tempo. Você tem meia hora. — eu encerrei a conexão. Ele viria. O centro não ficava em Urandir, mas não era longe.  Meia hora seria mais do que o suficiente para ele reunir tudo o que eu precisava e trazer até aqui. — E vocês! — Eu me virei pros palermas que me assistiam sem saber o que fazer. Providenciem a limpeza do corpo imediatamente. Como podem dizer que isso aqui é uma enfermaria? A existência desse lugar é um insulto!

Todos eles enrigeceram no lugar, apavorados. Eu não pude evitar de deixar escapar um pouco de poder pela voz. Era o jeito mais eficiente de instigar o respeito ou o medo, e nesse momento, eu estava precisando de um pouco de medo controlado.

— AGORA! — eu exigi. Eles começaram a correr de um lado para o outro como insetos atarantados. — E se eu ver algum serviço mal feito, eu mesmo arranco as mãos inúteis de vocês!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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