DCC – Capítulo 67 – 3Lobos

DCC – Capítulo 67

Investigações

 

Alésia Latrell:


O chato dos dias imperiais nos planetas terraformados é que eles demoravam uma eternidade para acabar quando eu tinha vontade que a noite apenas chegasse. Hoje tinha tudo pra ter sido excelente, mas mesmo conversar ainda não tinha sido suficiente para tirar a memória de Monique da minha mente. E pensar que eu até imaginei que demoraria uma eternidade pra eu voltar a ver um corpo morto… Dessa vez, ainda por cima, foi de alguém que ainda tinha uma alma dentro do corpo.

Henry logo percebeu que eu estava abalada:

— Alésia, aproveite esse momento para refletir sobre uma coisa: você seria capaz de tirar a vida de alguém caso fosse preciso?

— Por que isso agora? — eu fiquei espantada com a pergunta dele.

— Você quer aprender magia, e uma coisa que é importante para um artista mágico é uma moral resoluta. Você deve conhecer e aceitar todas as partes de si mesma e principalmente seguir isso com todas as suas forças sem olhar pra trás. Então, se chegasse ao ponto de você precisar tirar a vida de uma alma, você seria capaz de fazer isso sem arrependimentos?

— Eu…. — eu não sabia. Sequer o toque da alma de Monique em mim tinha me perturbado extremamente. Como eu poderia encarar uma alma que eu realmente tivesse matado. Mas eu também não abaixaria a cabeça em toda e qualquer situação. Se eu pudesse fazer alguma coisa, eu faria.

— Não precisa responder agora. Apenas pense sobre isso. Venha cá! — Ele me chamou e então eu reparei que ele estava trabalhando em alguma coisa.

— O que foi? — perguntei olhando para a mesinha na frente dele.

— Depois do que aconteceu hoje — ele estava bem sério —, eu percebi que é óbvio que eu não vou conseguir estar ao seu lado o tempo todo para te proteger de tudo. Então, pelo menos até você ser plenamente capaz de lidar com qualquer coisa que apareça, quero que use isso.

Ele mostrava um par de objetos idênticos e minúsculos.

— E o que viria a ser isso? — perguntei pegando e observando um dos objetos. Parecia um ponto eletrônico. Mas pra que ele serviria?

— São um tipo especial de rastreadores. Com eles, eu vou poder sempre saber onde você está, mesmo que deixe a galáxia. E principalmente, saber se você está bem. Eu vou usar este outro. Assim, você também vai conseguir me achar não importa onde.

— Ah… — Bom, eu não poderia negar que era útil, principalmente considerando que toda e cada vez que eu fiquei longe de Henry desde que o conheci, só encontrei desastre atrás de desastre. Pelo menos da próxima vez, ele poderia ir até onde eu estava.

“Da próxima vez”… Eu já estava até conformada com o andar da carruagem. Que absurdo…

Henry instalou o ponto em mim e também nele mesmo através de uma incisão intravenosa. O ponto iria ficar constantemente circulando em nosso corpo através do sangue, então seria impossível de remover ou rastrear sem o equipamento correto.

— Agora você se cuide. Eu vou atrás de uma testemunha para descobrir o que foi que realmente aconteceu com a Monique, — Henry disse com a expressão séria.

— Que testemunha? Suspeita de alguém? — perguntei ansiosa.

— Na verdade, temos uma testemunha muito útil para saber quem matou Monique: O próprio corpo dela. Vou renascê-la e interrogá-la.

Henry nem se demorou. Desapareceu de onde estava e eu fiquei sozinha naquela casa. Bom, não havia o que fazer. Eu mesma não confiava na investigação que aquele povo iria fazer por eles mesmos.  Eu só poderia esperar que Henry voltasse com respostas.

Porém, seria um tédio ficar esperando ali. E já que ele agora poderia saber instantaneamente onde eu estava e também se eu precisava de ajuda, além de que ele literalmente poderia aparecer em qualquer lugar pra me socorrer, que mal faria dar uma volta?

Mas eu tinha que pensar bem. Graças à Sabedoria, eu tinha ficado sabendo de uma ou duas coisas suspeitas. Eu estava simplesmente no meio de um planeta Jomon extremamente racista no centro do império humano. Eu tinha ao menos que me “disfarçar” o melhor que pudesse para conseguir andar por aí sozinha. Peguei o melhor vestido que eu tinha, que eu no mínimo usaria para outro baile imperial, um belo par de óculos escuros, e um colar exuberante de pedras preciosas que Henry havia insistido em me dar quando fomos comprar roupas da última vez.

Depois era só uma questão de maquiagem. Misturei algumas cores que eu tinha e passei estrategicamente nas poucas partes expostas da minha pele. Então prendi o cabelo em um penteado simples, e voilà. Isso era definitivamente a coisa mais repulsiva que eu já havia feito comigo mesma. Mas eu ri. Eu não gostava de negar o que eu era, mas por enquanto, era melhor eu me manter longe de problemas. Com os óculos escuros, a não ser que olhassem bem de perto, eu poderia passar muito bem como uma adolescente Jomon sem ser percebida.

A cidade era magnífica. Diferente do Distrito Central em Keret, que era um centro político, Urandir era extremamente comercial. É claro que os dois lugares eram bonitos em sua forma e também tinham uma arquitetura agradável voltada para acolher turistas, mas as diferenças eram enormes.

Enquanto o Distrito Central era elegante e sóbrio, Urandir parecia uma extrema profusão incessante de luzes, sons e pessoas. Era tanta gente, que havia leis de transitação de pedestres e voadores. E enquanto em Keret havia uma intenção de harmonizar e mediar as relações, ali havia uma clara segregação. Para se relacionar com certas pessoas, era necessário ter o mesmo nível social que elas ou maior, mas quem se daria ao trabalho de interagir com os mais fracos aqui?

Havia um restaurante extremamente maravilhoso que só atendia onipresentes. Não havia portas, apenas janelas. Se alguém quisesse entrar, teria que aparecer diretamente na área reservada do lado de dentro.

Um outro ficava em uma varanda maravilhosa no topo de um prédio, e só aceitava aqueles que pudessem chegar lá voando por si mesmos.

E aqui e acolá, haviam aqueles que exibiam letreiros informado que já receberam membros da casa dos Siever e que tinham uma certa porcentagem de chances de um cliente topar com um membro indo lá. É… resolvi evitar esses.

Escolhi uma cafeteria beira-mar relativamente aconchegante e bem pouco movimentada. com janelas foscas que não permitiam ver o lado de dentro. Havia um atendente designado apenas para mim, e deliberadamente mostrei minha identificação, ele me levou a melhor mesa do lugar em uma varanda reservada com a vista para o mar na ala vip do estabelecimento. Eu nunca tinha visto o mar pessoalmente antes de sair de Sátie. Era esplêndido, mas a maior parte dos transeuntes, se não todos os que andavam pela rua, sequer davam uma olhada para aquilo.

Ocasionalmente também passava pela rua alguém usando um uniforme elegante com um grande S estampado nas costas, sendo seguido de perto por um secto de pessoas desesperadas pedindo uma migalha de sua atenção. Às vezes, vinham pessoas que estariam no topo do mundo se estivessem em Sátie, pisando em todos os outros, correndo para se ajoelhar por uma audiência.

— Boa tarde senhorita! Gostaria de ver nossa carta, ou… — desta vez foi o metre que se aproximou elegantemente, exibindo um secto de garçons prontos para me servirem. Da próxima vez eu vou pedir a Henry que me arrume uma forma de gastar dinheiro sem ter que exibir aquela identificação espalhafatosa. Chamava muita atenção e sempre deslocava pessoas demais pra me atender, — ou será que estaria esperando companhia?

O meu registro tinha sido emitido diretamente em um selo imperial, como o de Henry. Isso abria muitas portas e evitava muitas perguntas, mas ainda chamava muita atenção. Todos respeitavam à beira do medo aqueles que tinham identificações imperiais, como se fossem uma espécie de corte ou nobreza não oficial. Mas eu, é claro, se podia fazer, então eu não deixaria de usar a pouca onisciência que conseguia pra me proteger.

A intenção do metre era simplesmente conseguir informações. Informações e boas conexões neste lugar eram a base de como tudo funcionava, e uma pessoa com o brasão imperial naquele lugar pouco frequentado pelas pessoas importantes era um prato cheio.

— Boa tarde Jacques, Eu estou observando algumas coisas, então por enquanto, gostaria que pudesse manter minha estadia em segredo e creio que poderemos nos entender bem, — eu disse, mantendo a expressão limpa e imitando as palavras que tinha visto por aqui. Informação era poder, mas boas conexões eram mais valorizadas ainda. Ele arregalou os olhos, se perguntando como eu sabia o nome dele, e porquê eu tinha me dado ao trabalho de usá-lo ao ponto de dar minha atenção a ele. E eu tinha dado a entender a ele que ele poderia ter tais conexões comigo. Então ele, muito vermelho, fez uma reverência exagerada, depois de ter chegado a conclusão “óbvia” de que eu era uma mestre onisciente, mesmo parecendo tão jovem.

Imagino se ele soubesse que o tão jovem dele ainda era bem mais velho do que eu realmente era.

Fiz o pedido e em poucos minutos os garçons serviram um belíssimo prato de torta acompanhado de uma taça exuberante de chocolate maltado quente. Então, esperei.

Eu não tinha vindo especificamente neste lugar a toa. Eu realmente estava observando algumas coisas. E estava esperando que alguma coisa fosse acontecer.

Então não demorou muito, eis que entra pela porta, vestido à “paisana”, Emil.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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