DCC – Capítulo 66 – 3Lobos

DCC – Capítulo 66

Cartas na mesa

 

A todo momento eu lembrava da sensação de rancor que a alma de Monique tinha. Eu precisava conversar sobre alguma coisa para distrair meus pensamentos:

— O que foi aquela conversa entre você e Emil? — perguntei enquanto olhava do lugar para um Henry estressado e distraído sentado na varanda que ficava de frente para o oceano.

Henry e eu já estávamos em uma adorável e elegante residência de aluguel do outro lado da cidade. A cidade inteira era uma estrutura feita para abrigar reuniões de negócios entre oniscientes e turistas. Quase todo mundo que estava ali tinha vindo exclusivamente para tentar a sorte de falar com alguém da Casa dos Siever. Apenas com muita sorte conseguiriam uma reunião, então todo o comércio e todos os espaços eram voltados para favorecer a troca de contatos e fazer associações. A crença geral era que estar bem associado era a melhor forma de conseguir poder.

Por conta disso, Henry alugou o lugar em meu nome, pois do contrário seria questão de tempo até ter uma aglomeração de gente pedindo uma audiência. Eu achei interessante como não haviam hotéis convencionais. Pelo menos no meu conceito de convencional. Quem tinha a audácia de vir à Casa dos Siever era geralmente a elite das elites entre todos os planetas com recursos suficientes pra isso, e esse tipo de gente gostava de um espaço mais confortável e discreto. Então residências inteiras, dos mais variados tamanhos e estilos, estavam a disposição para aluguel como se fossem apartamentos dos hotéis que eu conhecia.

— Por que quer saber disso? — Henry perguntou de volta.

— Por que não? — eu disse sentando ao lado dele. — Eu quero saber o que aconteceu entre vocês dois para ele te odiar tanto. Eu quero saber de quem eu devo puxar as orelhas.

Eu acreditava que Henry não devesse ter feito nada realmente horrível, mas eu queria entender toda essa história. Fora que eu também não entendia Emil. Ele me passou uma impressão diferente cada vez que o vi.

— Pela nossa última conversa, acho que eu cometi um erro terrível com ele, — Henry disse calmamente. — Emil e eu éramos bons irmãos, tínhamos problemas recorrentes às vezes, mas eram apenas picuinhas normais entre irmãos. E, desde pequeno, eu tinha uma obrigação de ter que ser o melhor onisciente. Ah… eu detestava! Magia sempre foi tão… fácil pra mim, que ter que ficar imerso naquilo todas as horas do dia era um despropósito pra mim.

— Nada modesto… — eu ri dele — mas normalmente quando uma pessoa tem um talento natural em algo, elas tentam desenvolver ele e viver dele.

— Sim, mas… — Henry disse agoniado como se só lembrar daquilo desse uma sensação de estar se rasgando por dentro, — imagine… imagine que alguém te pedisse pra respirar! — ele começou a tentar explicar. — Você já respira naturalmente. É parte de você e você nem precisa pensar pra fazer. Existem, é claro, técnicas de respiração que podem melhorar a saúde e a vitalidade de uma pessoa, mas respirar em si é algo inato. Biológico.

— Você está me dizendo que magia para você era que nem respirar? — perguntei.

— Exato! — ele disse como se tivesse tirado um peso sufocante da cabeça. — Era tão entediante… eu tinha pelo menos vinte pessoas por dia em cima de mim vigiando se eu estava “respirando”! E eu não poderia fazer outra coisa da vida além de respirar! Não tinha sentido pra mim! Então é claro que eu queria fazer algo mais interessante, que ao menos pedisse algum esforço da minha parte.

— Bom, eu acho que se você fosse um Brard, você teria apanhado bastante por reclamar de boca cheia. Mas eu entendo seu ponto, — respondi. — De qualquer forma, o que isso tem a ver com Emil?

— Emil também era obrigado a praticar exaustivamente para se tornar um onisciente poderoso, mas do meu ponto de vista, a situação era menos exigente com ele. Então, quando eu estava com um século e meio de idade mais ou menos, eu fui enviado para estudar na academia. O que aliás era uma idade ridiculamente baixa. Normalmente os estudantes vão pra academia com pelos menos dois séculos de idade. Então, enquanto eu estava lá, o cerco ao meu redor era bem menos acirrado. Isso me deu a oportunidade de conhecer e tentar coisas novas. Eu não sei qual o seu parâmetro para educação avançada, mas geralmente demora algumas décadas na academia para adquirir o título de artista. Eu já estava praticamente formado quando decidi largar tudo e tentar a bioengenharia médica.

Ele parou um segundo, pensativo, mas continuou:

— Foi nessa época que Emil entrou na academia, e em uma visita de volta para casa, eu contei meus planos, e a reação não foi muito boa. Emil ficou paralisado. Ele não disse nada. Decidiram que ele não voltaria para a academia, que iria terminar os estudos em casa. Tentaram inclusive me prender, mas eu já era bem versado em onipresença. Não dá pra prender um onipresente tão fácilmente. Então, eu simplesmente fui embora. Pouco tempo depois me enviaram a mensagem dizendo que se eu não era mais um artista, então eu não era mais bem-vindo na Casa dos Siever. Uma vez ou outra eu ainda voltei aqui para conversar com Louie, mas Emil nunca atendeu nenhum chamado meu. Eu imaginava que ele tivesse vontade de ter me seguido, mas nunca considerei isso de verdade. Ele nunca disse nada… Então, eu simplesmente considerei que ele não fizesse questão de partir. Eu sempre achei que ele desaprovasse minha escolha e tivesse intencionalmente ficado do lado da mamãe e do papai.

— Talvez o Emil daquela época tivesse os próprios planos de vida… — eu disse, olhando para o oceano. — Agora o Emil atual é um legítimo Siever.

— Uhum… — Henry respondeu distraidamente, voltando a se perder em pensamentos.

— No que está pensando? — perguntei.

— Em quem se beneficiaria mais com a morte de Monique. — Henry cerrou os olhos e começou a pensar concentradamente. — O mais provável é que pudesse ter sido mamãe ou Emil. Mas, não consigo decifrar qualquer benefício para qualquer um dos dois que valesse mais do que os riscos. Mesmo que quisessem nos incriminar, não há ganho! Um assassinato desse tipo pode ser facilmente desvendado, então… por que?

Emil Siever:


— Descobriu o que eu pedi?

— Com o nome e a amostra de sangue que o senhor me deu, não muita coisa. O sangue foi completamente adulterado, então ela não é mais uma humana normal. É impossível determinar a origem do DNA dela. Mas o registro dela é provido diretamente pelo Império, como civil, mas tem um adendo de interdição. Isso significa que é preciso um nível de segurança mais alto do que o meu para acessar as informações sobre ela. Então, se não tiver nada realmente sólido contra ela, ela é virtualmente intocável.

— Mas e os precedentes dela? Mesmo que não dê para determinar a origem, ela deve ter deixado algum rastro para trás!

— O registro dela foi baseado em uma rede de orfanatos que abrigaram refugiados da Guerra Xenofóbica. Ela simplesmente não tem passado, nem história, nem outros registros rastreáveis.

— É só isso? Não há mais nada? — perguntei estressado. Se ela era só uma pobre qualquer que deu sorte, ela não me serviria pra nada.

— Das informações que pediu, não. Mas eu encontrei pelo menos uma coisa realmente suspeita.

— Fale logo.

— Recentemente houve uma imensa transferência de fundos para o nome dela.

— Imensa? O que é imenso pra você? — perguntei desconfiado.

— Maior do que a fortuna atual de toda a Casa dos Siever.

Eu arregalei os olhos quando ouvi aquela informação. Financeiramente falando, a Casa dos Siever não era realmente muito rica. Nosso poder era avaliado não em dinheiro, já que ele poderia ser dispensável na maioria dos casos, mas sim em uma rede de conexões sólida, que nos provia qualquer recurso que precisássemos, espalhada por toda a galáxia. A rede por si só era inestimável, mas mesmo assim, entre propriedades e finanças, toda a Casa dos Siever tinha uma fortuna considerável e bem razoável a nossa disposição. E apenas aqui em Nefrandir nós éramos centenas! Todo esse dinheiro nas mãos de uma única pessoa…

— Conseguiu rastrear a origem da transferência?

— Sim senhor. Veio da conta pessoal de Henry Siever.

Bingo!

— Muito obrigado. Acho que vou ter que me virar com o que conseguiu.

— Ah… senhor, e sobre o outro assunto… — ele começou a falar. Aquela expressão bajuladora de um puxa saco dele era deprimente.

— Não se preocupe. Irei providenciar para que o argumento do inquisidor responsável pelo seu caso seja favorável ao seu pedido.

A expressão de vitória dele era deprimente. Ele agradeceu quase deixando pra lá todo o orgulho. Então, a conexão entre o Link foi encerrada e ele desapareceu da minha frente. Olhei ao redor, para os meus aposentos, e me sentei numa poltrona.

Henry havia transferido uma quantia maciça de dinheiro para aquela menina. Se não houvesse uma razão justificável, só poderia significar duas coisas: ou ela conhecia algum segredo dele e o chantageava, ou ela era o segredo. Ninguém se esforça tanto por outra pessoa dessa forma. Seria realmente inimaginável uma Brard normal ter uma capacidade inata a esse nível de magia, principalmente estando no começo da vida. Havia algo podre enterrado entre aqueles dois, e eu iria descobrir o que era e usar a meu favor.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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