DCC – Capítulo 65 – 3Lobos

DCC – Capítulo 65

Qualquer outro lugar serve

 

O corpo de Monique estava esparramado no chão e uma piscina de sangue se acumulava ao redor. A perna quebrada estava dobrada de uma forma extremamente perturbadora e o rosto, uma vez bem bonito, estava inchado e desfigurado.

Algumas pessoas estavam abraçadas e choravam, outras pareciam estar em choque. Então Louie apareceu e começou a controlar a situação. Ele era “chefe da ordem”, o que quer que esse cargo significasse, e assim ele começou a colocar ordem. Dispersou a multidão curiosa e entrou em contato com os responsáveis para cuidar do corpo.

Em poucos minutos, Dominik, Petra e Emil também chegaram. Dominik acima de tudo parecia horrorizado:

— Como permitiram que isso fosse acontecer em nossa Casa? — ele disse expressando toda a indignação na voz.

Os que ainda estavam por perto, caíram no chão prostrados. De onde eu estava eu pude sentir, como se fosse algo sólido, a energia e a fúria que emanava de Dominik, como se ondas e mais ondas de poder forçassem os ombros dos presentes ao chão em completa submissão e vergonha.

Mas eu estava focada em outra coisa. Pela primeira vez, um grande conflito começou a me corroer por dentro e eu não sabia o que sentir naquele momento. Parecia que a culpa pelo ocorrido estava sendo plantada em mim por uma onda incrível e palpável de rancor. É claro que seria hipocrisia minha dizer que eu não queria arrancar pelo menos dois dentes da frente dela, e quebrar a outra perna. Mas será que a ideia de matá-la não havia mesmo se passado por minha mente? E mesmo que eu pudesse imaginar várias formas diferentes de arrancar a vida dela da forma mais dolorosa possível que eu havia aprendido, eu faria isso? E independentemente de eu ter a coragem de fazer ou não, era justo eu dizer que ela merecia?

Eu esmaguei muitas cabeças ao ponto de não sentir mais nada vendo corpos humanos mutilados com a mente tranquila porque em todo o momento que eu o fiz, eu tive plena consciência que eram apenas carcaças vazias controladas que não tinham mais nenhuma vontade ou sentimento real.

Eu sentia uma pressão intensa vindo da direção do que antes foi Monique. Parecia que um vácuo tinha se formado, uma ânsia ávida de ódio e vingança, que sugava toda a luz do mundo.

— Alésia… — Henry me sacudiu. Eu pisquei algumas vezes até perceber que o que eu estava vendo ou sentindo não passava de uma ilusão. — Não siga os ressentimentos dela, senão a alma dela não vai poder se libertar.

Depois do que Henry disse, eu entendi que o que eu estava sentindo não eram reflexões que eu mesma estava tendo. Havia realmente uma força desconhecida emanando do corpo de Monique, que instigava o ressentimento que ela tinha para dentro de mim.

— Rápido! Arrumem logo essa bagunça… — Dominik disse balançando a cabeça pra uma equipe que tinha acabado de chegar para recolher o corpo.

Então eu comecei a sentir outra coisa. Ondas e mais ondas cada vez maiores e mais fortes de ódio e desconfiança emanando das pessoas ao meu redor. Era uma pressão tão ofensiva que me deixou enjoada.

— Henry e Alésia! Comigo! — Petra chamou.

Henry me pegou pela mão e fomos seguindo Petra até uma sala de reuniões dentro de um dos prédios, enquanto olhares sedentos por justiça nos acompanhavam. Eles achavam que havia sido a gente?

— Muito bem, o que tem a dizer? — Petra perguntou olhando de Henry para mim, e de mim para Henry.

— Nada. — Henry respondeu.

— Nada? — Ela insistiu.

— Nada! — ele retrucou.

— Então como explica o rancor que a alma dela tinha direcionado à menina enquanto partia?

— Simples. Ela foi morta acreditando que a culpa foi de Alésia, — Henry disse como se aquilo fosse algo simples e corriqueiro.

— Então aquilo realmente foi o ressentimento da alma dela? — Eu intervi na conversa chocada.

— Foi exatamente isso, — Petra explicou, me encarando. No mesmo segundo eu senti o poder onisciente dela fluir daqueles olhos lilases — E é agora que você me explica como uma Jomon é assassinada e o maior ressentimento dela era contigo. Por que convencionalmente entendemos que vítimas de homicídio guardam o maior rancor em suas almas para com os assassinos, não?

— E como eu vou saber? — eu retruquei, sem conseguir desviar os olhos. — Obviamente ela tava maluca da vida comigo por eu ter jogado comida nela ontem e quebrado a perna dela hoje.

— Então você admite que a atacou!

— Como assim admito? Não é como se fosse segredo que eu joguei comida nela depois dela vir me provocar… foi na frente de todo mundo! E depois, ela mesma foi atrás de mim no oceano tentar me matar com aquelas malditas flechas. Eu apenas me defendi. Aquela perna quebrada não iria matá-la. Todos na costa viram meu estado quando consegui voltar. E também não fui eu quem fez aquele ferimento letal que tinha no corpo dela lá no chão.

— Isso foi o que você disse, quem não garante que o sangue que tinha em cima de você não era dela? Fora, que ninguém falou ainda sobre o ferimento letal, para você ter alguma informação a respeito dele.

Ela só pode estar me zoando.

— Madame, a onisciente aqui é você, — eu retruquei trincando as sobrancelhas com raiva. — Você sabe a verdade, se não quer usá-la, aí é outra história.

— Mamãe, já chega. — Henry a advertiu.

— Já chega? Uma das minhas funcionárias foi morta em minha casa depois de ter uma briga! E você quer que eu não investigue?

— Eu quero que investigue direito! — Henry disse alterando a voz. — Porque a sua funcionária contratada atacou com intenções cruéis a minha convidada e ainda foi morta e desovada deliberadamente no nosso pátio?

— Como ousa falar comigo assim? Mesmo que não respeite meu status, eu ainda sou a sua mãe! — Petra brigou ele, finalmente me liberando do olhar.

— Então me prove que está sem más intenções com Alésia! — Henry falou ameaçadoramente. Petra abriu a boca uma, duas vezes mas não conseguiu dizer nada. — Foi o que imaginei… — ele disse zangado — Me dê a carta de recomendação. Nós estamos partindo.

— A carta? — Petra repetiu, como se isso fosse a última coisa que passasse pela mente dela agora. — Mas, ela sequer passou no teste!

— OBVIAMENTE PORQUE FOI ATACADA! A CARTA DE RECOMENDAÇÃO É APENAS O MINIMAMENTE JUSTO DEPOIS DE TUDO!!! — Henry gritou. Petra recuou alguns passos. Uma barreira de calor acabou se levantando ao nosso redor.

— Você está usando sua magia contra mim? — ela disse indignada, mas eu me apressei para sugar o calor que estava à nossa volta. Petra suspirou profundamente. Aqueles olhos astutos estavam obviamente pensando rápido em alguma formar de sair por cima. — De qualquer forma, vocês não podem partir, não até esse crime ser esclarecido. Ficarão até o fim das investigações.

— O Inferno que ficamos aqui mais um segundo! — Henry disse me arrastando para fora da sala onde estávamos.

Mas antes de alcançarmos a saída, Dominik apareceu e quase demos de cara com ele.

— O que está havendo agora? — Dominik perguntou, sentindo os ânimos alterados no ar. E como bom onisciente que era, ele não precisou de resposta. — Filho, perdoe a falta de tato de sua mãe. Eu não acredito que a menina tenha tirado a vida da… ah… Monique, mas o argumento de Petra é válido. É a lei. Ninguém relacionado às vítimas deve deixar a jurisdição enquanto houver alguma investigação em andamento sobre homicídios. Quanto a carta de recomendação, você está certo, é apenas justo que a menina a receba. Só espere até que essa confusão seja resolvida.

Henry ficou parado um bom tempo contemplando Dominik, decidindo o que fazer, por fim, ele disse:

— Muito bem, respeitaremos a lei. Não vamos sair da cidade até o fim da investigação, mas ela deve estar encerrada a essa hora amanhã, e nós dois iremos esperar fora da propriedade.

— Mas, mas… vocês vão para onde? — Petra insistiu como se Henry tivesse falado sandices.

— Qualquer lugar de Urandir serve, — Henry respondeu sem olhar pra ela.

Dominik suspirou cansado e lançou um olhar fuzilante para Petra.

— Tudo bem, apenas me deixe saber onde, quando encontrar um lugar.

Saimos então da sala e estávamos a meio caminho pelo corredor para o lado de fora quando dessa vez quase demos um encontrão com Emil. Ele, muito sério, não disse nada. Ficou parado com a expressão sombria e vazia, nos olhando com os braços cruzados, mas não por muito tempo.

— Vai fugir dessa vez também? — Emil perguntou provocativamente.

Henry parou de andar e encarou Emil.

— Qual o seu problema comigo afinal?

— Você existe, — Emil disse.

— E isso não vai mudar. — Henry disse. Os dois pareciam prestes a arrancar a pele um do outro. — Você por outro lado, abandonou a si mesmo pra virar um pau mandado.

— Como se eu tivesse tido escolha, depois de você ter fugido pra brincar com seu livre arbítrio e me deixado para trás cuidando de todas as responsabilidades que eram suas!

— Eu não te pedi pra fazer nada disso!

— Então você acreditou que sua saída não traria consequências?

— Diga o que quiser. Mas você sabe que não foi assim.

— É… o perdedor nunca detém a verdade… — Emil disse, mostrando um grande desprezo no rosto, e continuou o próprio caminho.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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