DCC – Capítulo 64 – 3Lobos

DCC – Capítulo 64

Queima de arquivo

 

Reaparecemos no quarto onde passamos a noite. Henry me pegou no colo novamente e me colocou na cama.  Depois, fez surgir do nada o estojo de instrumentos de bolso dele, e retirou o escâner.

— Você chama isso de “corte superficial”? — Ele perguntou irritado apontando para meu braço e meu pé.

— Considerando a média, está muito bom… — eu disse olhando casualmente para minhas feridas.

Eu estava falando sério. Em questão de lidar com feridas no meio de uma luta, era preciso bem mais pra me derrubar. E depois, não me atingirem em algum órgão vital era uma grande vitória pra mim. Mas Henry não via dessa forma. O comentário o deixou chateado.

— Pare de agir como se não se importasse! — ele brigou.

— E o que você quer que eu faça? Que chore e esperneie? — perguntei de volta. — Em que reclamar adiantaria? Aconteceu! Foi ruim, mas acabou. Eu estou tentando deixar meus traumas para trás e pelo menos parar de ter pesadelos a noite.

Henry suspirou. Ele não iria entender meu ponto. Acho que havia de novo uma lacuna Brard-Jomon entre nós.

— Certo, lidaremos com isso depois,— ele disse, retirando o meu casaco. O tecido já estava tão maltratado que saiu rasgando.

Henry tratou minhas feridas uma por uma, demorando-se mais na do braço e na do pé.

— Acho que posso colocar mais essa falange do meio na minha lista de ossos quebrados… — eu comentei casualmente, alongando os dedos quando ele terminou.

Então eu apenas senti o braço dele esgueirar-se pela minha cintura e me puxar com força até que eu ficasse com o corpo colado ao dele.

— Eu já pedi pra você parar com esses comentários! — ele sussurrou para mim enquanto mantinha o olhar sério. — Eu realmente odeio o fato de você ter sido ferida e eu, de novo, não ter podido fazer nada.

Então ele me beijou. Dessa vez, não foi como os beijos suaves e gentis, mas foi forte e incisivo. Ele inclinou o peso sobre mim, me empurrando de volta para a cama até eu estar completamente deitada, com o corpo dele sobre o meu e enquanto uma das mãos me segurava pela cintura, a outra subia pelo lado do meu corpo, enquanto acariciava a minha pele.

Eu estava arrepiada e afogueada em cada milímetro do meu corpo. Meus pensamentos ficaram nebulosos enquanto eu só sentia o corpo, o cheiro e o calor de Henry sobre mim, sobre a minha pele…

Eu estou praticamente sem roupa aqui! — O pensamento chegou no surto me deixando alarmada.

Ele percebeu, afastando-se apenas um pouco de mim, ofegante, me olhou com uma expressão brilhante no rosto, e disse:

— Se você quiser, eu paro…

E ele vinha me dizer isso agora? É claro que eu estava nervosa! Milhões de coisas se passaram pela minha cabeça em um segundo quanto decidia o que responder: a conversa que eu tive com Cásira… minha forma de ver e sentir o mundo e a dele… minhas dúvidas… meus medos… Na noite anterior, na qual treinamos para que eu pudesse performar uma arte onisciente, eu pude ouvir os pensamentos e os sentimentos dele.

Naquele momento, eu entendia que Henry ainda não havia forçado situação nenhuma, não porque ele não me desejasse, mas por que ele mesmo tinha dúvidas sobre os meus sentimentos por ele. Ele tinha medo da mente volátil dos Brard. Ele tinha medo que eu o abandonasse um dia sem dizer nada.

Mas ele estava ali agora, quente, fofo, e ofegante, tocando em mim, como se não houvesse nada que ele pudesse desejar a mais nessa vida. Eu o queria. Eu estava nervosa e eu o queria. E quando o segundo de pensamentos passou, eu não respondi. Peguei o rosto dele com as mãos, puxei de volta para meus lábios e retribui o beijo deixando sair todo o meu desejo por ele.

Acordei com a batida na porta. Henry ainda dormia ao meu lado. Ele também estava exausto depois de ter passado a noite acordado e ainda…

Então, senti meu rosto corar e esquentar embaraçosamente enquanto eu tornava a ficar nervosa. Tínhamos acabado dormindo abraçados e sem roupa. Isso era extremamente constrangedor.

Eu corri para fora da cama e me vesti apressadamente. Peguei o cobertor e joguei em cima do corpo nú de Henry, mas ele arremessou o cobertor para longe e virou para o outro lado. — Own, que vergonha!!!

Então, uma dor profunda e compressora começou a apertar dentro do meu corpo, como se algo pesado tivesse crescido e estivesse ocupando minha alma. E apesar de ser uma dor física, eu poderia jurar que parecia com uma necessidade, uma urgência a ser resolvida. Algo que eu deveria fazer, que estava agarrado à minha alma e que eu ainda não tinha feito. Eu já havia sentido isso algumas vezes, mas nunca tão forte.

Então, tão rápido quanto começou, a dor sumiu.

Batidas na porta novamente.

— Quem é? — perguntei sussurrante, tentando não acordar Henry.

— Amelie… Você está bem? Já fazem algumas horas que vocês sumiram, então Madame pediu para verificar se está tudo ok. — Ela respondeu do outro lado, quase gritando.

Henry suspirou profundamente na cama e se revirou mais uma vez. Eu abri apressadamente a porta, saí e a fechei, tomando todo o cuidado para impedir que Amelie olhasse para dentro.

— Está tudo bem… — Eu sussurrei mais uma vez, gesticulando para ela não fazer barulho.

Ela me olhou de cima a baixo, mas não como quem estava me esnobando — devo dizer que fiquei tocada com isso.

— Você parece que já está completamente bem. Isso é ótimo! Mestre Henry realmente é um médico exímio, — ela sussurrou admirada — Mas por que estamos falando baixinho?

— Ele está muito cansado… passamos a noite acordados treinando pro teste… — então eu lembrei do teste com Dominik — que eu devo ter falhado…

— Não se preocupe, Mestre Dominik é justo nos testes. Ele vai saber dar uma avaliação correta pra você, se você tem potencial suficiente para entrar ou não em uma academia, como membro da Casa dos Siever, — ela disse tentando me animar.

— Mas eu não quero fazer parte da Casa dos Siever! — eu contrapus.

Amelie pareceu extremamente chocada.

— Por que não? Não há onisciente nesta galáxia que não deseje estar associado aos Siever! E você parece ter uma aptidão excelente. É verdade que você já encarou o Imperador Marco pessoalmente? — Acho que ela estava para começar a fazer aquela interminável chuva de perguntas de novo.

— Sim, é verdade, mas vamos nos afastar um pouco da porta. Não quero acordar Henry.

Os olhos de Amelie brilharam, e pela primeira vez em anos, eu senti como se estivesse conversando com alguém da minha idade, e não séculos mais velho.

— E como é que foi isso? Ouvi que apenas encarar um dos autômatos bio sensoriais do imperador já é extremamente perturbador, isso considerando que os autômatos representam apenas uma fração do poder real dele.

— É… não é muito bom não, mas eu não tenho medo dele. Acho que se eu tivesse medo dele, essa sensação seria pior. Ele é extremamente opressor e impositivo…

— Por favor, pare!!! — Dessa vez quem gesticulou urgentemente pedindo por silêncio foi ela. — Não devemos falar do imperador em maus termos. Se ele for ou não o que quer você pense, ele ainda é o símbolo de estabilidade da raça humana. E os símbolos devem ser respeitados.

Eu lembrei de uma das exigências de Marco quando nos encontramos no ano novo de que ao menos em público eu deveria tratá-lo com o respeito que o status dele exigia.

— Tudo bem… tudo bem… então não vamos mais falar dele, que é bem melhor. Acharam a Monique? Acho que ela não deve ter ido muito longe com aquela perna quebrada.

Amelie sacudiu a cabeça em negação.

— Não… isso que é o mais estranho. Madame inclusive já a convocou, mas ela não atendeu ao chamado. — Amelie olhava seriamente para frente. Depois de termos andado um pouco, já estávamos no jardim do lado de fora da residência.

— O que quer dizer com “convocou”? — perguntei intrigada.

— Alguns de nós, quando entramos na Casa dos Siever, nos ligamos à algum dos Siever, e nos tornamos parte da força deles. Existe um selo mágico chamado Laço da Alma, — ela começou a explicar. — Originalmente, ele era usado para firmar casamentos. Cada um dos cônjuges selava a alma do parceiro, então as duas almas estariam entrelaçadas pelo resto das vidas. Assim, cada um poderia sentir as alegrias e as dores um do outro e estarem juntos em uma dimensão bem mais transcendente.

— Eu já ouvi falar disso, — comentei. — Quanto maior o sentimento compartilhado na hora que o selo era feito, maior a força do selo em si. É bem romântico poder unir as almas assim.

— Sim, isso realmente acontece, mas apenas quando uma alma selada comete um ato de traição, o traidor passa a sentir a dor do traído, só que de forma física, e eu ouvi dizer que esse castigo é tão intenso, que os traidores enlouquecem de dor. E isso se torna uma maldição bem poderosa. Por exemplo: se um marido trair a esposa em um casamento feito com as almas laçadas, então o marido irá sofrer arduamente.

— Isso não é um pouco drástico?

— Pode ser que sim. Mas sempre é possível que a pessoa possa escolher quebrar o selo junto com o contratante, em vez de cometer alguma traição. Então não entendo por que alguém com a alma selada escolheria trair. Sequer trair não faz sentido! Isso acabaria por destruir o controle da magia que qualquer um consegue usar.

— Entendi…. Então quer dizer que vocês aqui são obrigados a fazer esse Laço da Alma? — perguntei.

— Não… não é uma obrigação. Apesar de ser diferente do que é feito nos casamentos, o contrato por Laço da Alma é feito de forma unilateral. Há um contratante e vários contratados, e o que é pedido de nós é apenas a lealdade para com os princípios da Casa dos Siever. Há muitos funcionários aqui que não fazem parte do Laço da Alma com os Siever. Mas quem tem a honra de poder ser contratado, não costuma negar. Não há prejuízo nenhum para nenhum de nós, e isso apenas reforça a confiança e a solidez que temos em nosso sistema.O único problema que pode ocorrer, é nesse caso absurdo de traição. Se alguém trair o contratante, então essa pessoa sentirá o peso da consciência estilhaçar sua alma aos pedaços e enlouquecer de dor.

— Entendi… então essa convocação… Monique era contratada de Petra por um Laço da Alma?

Amelie confirmou com a cabeça e ficou com uma expressão pensativa.

— Você também é contratada de algum deles?

Quando eu fiz a pergunta, fizemos uma curva na estradinha do jardim e reparamos em uma comoção que estava acontecendo mais à frente. Uma quantidade considerável de pessoas se aglomeravam em um círculo enquanto cochichavam uns com os outros. Alguns inclusive flutuavam acima das cabeças dos mais próximos para poder olhar o que havia no centro.

— O que se passa aqui? — Amelie perguntou, como quem pergunta para si mesma, e correu para se aproximar. Eu estava para segui-la, quando uma mão quente tocou meu ombro e me parou.

— Não vá até lá! — Era Henry. Ele tinha recolocado as roupas de mais cedo.

— Por que? O que houve?

Então eu me virei para a comoção. Alguns olhavam em nossa direção. Amelie havia flutuado um pouco acima da multidão para ver o que havia no centro e agora estava cobrindo a boca com as mãos, com uma expressão de choque.

— É Monique, — Henry disse com a expressão séria. — Ela está morta.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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