DCC – Capítulo 63 – 3Lobos

DCC – Capítulo 63

Sou eu quem quer ver essa menina!

 

Henry Siever:


— Ela vai ficar bem? — meu pai perguntou alarmado depois de vê-la saltar do penhasco. Normalmente eu também ficaria. Mas ela tinha um dom especial pra voar. Ela iria aprender mais do que qualquer outro. Além, é claro, de ter um talento inato excepcionalmente forte para Obliquação. Mas eu deveria ter percebido antes, todos os sinais estavam lá.

— Ela vai ficar sim… — eu disse tranquilo, observando-a resurgir no horizonte, enquanto pegava velocidade e distância. — Mas um dia ela ainda vai me matar do coração. — Essa parte eu não disse em voz alta.

— Bom dia! O teste já começou? — Uma moça apareceu correndo em nossa direção. Era a garota que falava amigavelmente com Alésia durante o banquete.

Eu não conseguia sentir nenhuma má intenção vindo dela, mas eu ainda ia investigar ela mais a fundo. Ninguém por aqui iria subitamente demonstrar partidarismo à uma Brard na frente dos patrões. Não fazia sentido.

Louie, que veio nos seguindo a uma certa distância, observava o horizonte encostado relaxadamente em uma enorme pedra. Louie era como eu quando mais jovem, queria tentar outras coisas, mas por ser de uma família de tradição mágica, teve que se submeter à carreira escolhida para ele. E ele não teve a cara de pau que eu tive de largar tudo.

— Podemos conversar um pouco? — Mamãe chamou, tentando não parecer intimidadora. Ela realmente tocava terror nos jovens quando eu ainda morava por aqui.

— Eu sou todo ouvidos, — respondi casualmente.

Ela suspirou.

— Por que investe tanto nessa… menina? — ela perguntou, como sempre, direto ao ponto.

— Por que eu a amo. — respondi, também sem rodeios.

Ela ficou horrorizada, mas respirou fundo e continuou a falar:

— E quanto a meu neto? Eu realmente sou avó do príncipe imperial?

— Sim… ele puxou os nossos olhos, mas também se parece muito com a mãe, — eu disse.

— E quanto a mãe dele… ela…

— Ela faleceu há quase dez anos. E eu também a amava, — enfatizei.

— Mas porque essa obsessão por Brards? — ela insistiu inquieta. — Eles obviamente são inferiores, e não tem respeito por nosso estilo de vida. Se ao menos você a tratasse como um bichinho de estimação, mas você a trata como igual…

— Eu confesso que acho realmente perturbadores certos comportamentos Brards. Eles parecem ilógicos e lhes falta objetividade. Eles também são indecisos e mudam de opinião como mudam de roupa. Mas eles fazem todo o possível para fazer valer a vida que tem, e por isso eu os admiro.

— Mas ao ponto de misturar seu sangue com o deles? — Ela realmente estava inquieta. De certa forma, ela tinha razão. Em outra situação, eu nunca me relacionaria com alguém como Alésia. Eu não considerava nenhum tipo de Brard um ser inferior, mas a expectativa de vida tão curta que eles tinham era realmente problemática para favorecer alguma interação saudável. Ter que encarar a mortalidade de um ente querido é muito mais doloroso para os Jomons do que para os Brards. A nossa forma de sentir o tempo era completamente diferente.

Alésia uma vez disse que o tempo que ela passou comigo foi muito menor que o tempo que eu passei com ela. Mas de certa forma, isso não era verdade. Se fosse comparar de acordo com as expectativas de vida de nossas espécies, o que para ela foi uma imensa parcela da vida, proporcionalmente esse tempo que passou desde que a conheci iriam ser equivalentes à semanas dela para mim.

Era tudo tão recente. Tudo tinha acontecido muito rápido e mudado muito rápido de formas extremamente dolorosas. Mesmo Isaac, que se fosse completamente Jomon, ainda seria um bebê.

— Não existe nenhum problema em ter Alésia do meu lado, e peço por favor que não interfira com ela.

— Afinal, há quanto tempo estão juntos para ter tanta convicção sobre ela? Não é como se eu entendesse como o corpo dos Brards funciona, mas ela nasceu um dia desses!

— Nosso tempo juntos não está aberto para discussões… Eu lhe perguntei ontem o que queria pela recomendação da Alésia, mas se não tem mais nada útil para falar comigo, então essa conversa já acabou. — Eu respondi e me distraí com um estrondo distante vindo da direção para onde Aléssia tinha voado. A louca havia batido de frente com uma parede de um dos monólitos e destruído tudo. Ah, ela com certeza ainda ia me matar do coração.

— Você fala como se tivesse certeza de que ela vai conseguir passar. — Mamãe insistiu.

— Caso não tenha visto, uma Brard acabou de mandar uma montanha pelos ares…

Mamãe ainda abriu a boca para retrucar, mas isso era de fato um ótimo argumento. Ela tão pouco voltou a tocar no assunto sobre o preço pela recomendação. Eu sabia o que ela queria. Eu pude ouvir a mente dela gritar por isso desesperadamente. Mas não era problema meu.

A prova iria ocorrer rapidamente. Dez minutos eram mais do que o suficiente para ela. Ainda mais depois do que ela me mostrou que pode fazer durante a noite. Então eu fiquei andando de um lado para o outro esperando, até ela estar longe o suficiente para eu parar de sentir o frescor da Criação.

Louie ficou do meu lado e começou a conversar, apesar de eu estar distraído esperando por Alésia. Mas os dez minutos vieram e passaram, ela ainda não tinha voltado. Quando eu estava para voar na direção que ela tinha partido, senti a sua aproximação. Algo não estava certo.

 

Aléssia Latrell:


— Ela está por perto… porque tanta demora? — Henry parecia extremamente angustiado. — Já passaram os 10 minutos. Eu vou atrás dela — ele disse para Dominik.

— O último ponto onde ela teve que ir era bem distante… — Era a voz de Louie.

— Eu pensei que ela iria tirar de letra depois do que ela fez com o primeiro monólito. Deu para escutar o impacto daqui. — Essa era… Amelie?

— De qualquer forma, é uma pena. Por um momento eu realmente achei que ela conseguiria.

Eu não sabia se estava ouvindo a conversa deles, ou se estava “sentindo”. Mas me mantive voando. Precisava ganhar altura para sair do meio da neblina baixa do mar e Henry me ver.

É claro que eu não ia confiar que Emil não disse aquelas coisas pra me pegar de guarda baixa. Então eu desci ao nível do mar, e voltei para a costa escondida pela névoa da manhã.

Eu subi a costa do penhasco até finalmente conseguir vê-los. Eles olhavam para todos os lados esperando que eu aparecesse a qualquer momento.

— Lá está ela!

Henry abriu um sorriso de alívio ao me ver, que logo desapareceu completamente ao reparar no meu estado. Para a minha sorte, ele veio voando ao meu encontro, e me aparou, então eu não tive que pousar.

— O que aconteceu??? — ele perguntou angustiado.

Dominik voou ao nosso encontro, enquanto Henry me observava de cima a baixo.

— Céus, você está bem? Às vezes alguém se machuca nesse teste por conta de uma pedra ou outra que deixam cair no dedão, mas nunca tanto assim. — Ele parecia completamente chocado.

Henry me pegou no colo e me levou de volta à costa. Petra esperava com a expressão levemente curiosa.

— Me desculpe, senhor Dominik. — Eu disse, entregando a ele a caixa com os demais objetos dentro. — Eu não consegui voltar a tempo.

— Que se dane o teste. Que foi que aconteceu com você? — Henry parecia estar furioso.

Ele segurou meu rosto com uma das mãos e me fez segurar o olhar dele. Ele estava doente de preocupação.

— Foi… alguém me atacou. — as palavras saíram mais rápido do que pude contê-las.

Essa não… Eu podia sentir o ódio dele saindo como se fosse fumaça. De repente o calor que irradiava de Henry cresceu imensamente, agressivamente. — Que droga… isso vai chamar atenção!

Dominik estava perto o suficiente para sentir a mudança brusca e crescente na temperatura. Ele afastou-se alarmado, então eu mentalizei o “Buraco Negro” para sugar o excesso de energia que ele estava liberando, enquanto pousávamos onde os outros estavam.

— Quem? — ele perguntou possesso, o corpo cada vez mais tenso.

— A garota de ontem… Monique…

— Monique? A que você sujou de comida? — Amelie falou chegando perto de mim. — Você está bem? Eu posso cuidar…

— Não a toque! — Henry quase rosnou, e me abraçou com mais força, me virando para longe de Amelie quando viu ela se aproximar.

O calor cresceu novamente. Os outros ao nosso redor se afastaram como se alguém tivesse acendido uma fogueira imensa do nada na frente deles. Eu abracei Henry de volta com força ao redor do pescoço dele. Precisava acalmá-lo.

— Eu estou bem. Eu só estou muito suja… Esses ferimentos são quase todos cortes superficiais e eu sei que você sempre anda com seus brinquedinhos por aí, então você pode consertar isso. — Eu tentei acalmá-lo. Deixar ele saber agora que uma flecha atravessou meu braço e outra atravessou meu pé não seria nada inteligente, mas falar isso com certeza aliviaria mais a tensão que ele carregava.

Henry respirou fundo algumas vezes, e depois me deixou descer. Urg… Eu ia ter que ficar flutuando levemente. Meu pé doía muito, mas eu não poderia expressar isso ali na frente de todos. Henry estava dando muita bandeira.

— Que calor foi esse? — Petra perguntou. Todos tinham se afastado quase dez metros.

— Tragam-me a garota… — Henry disse, com uma expressão extremamente ameaçadora, ignorando completamente a pergunta da mãe.

— Henry, por favor se recomponha… — Louie tentou se aproximar dessa vez, com os braços erguidos pedindo calma. — Isso deve ser investigado com atenção.

— Dane-se a sua atenção. Eu quero a garota na minha frente… AGORA! — Henry exigiu.

— Mesmo que ela esteja falando a verdade — Petra começou, lançando um olhar de esguelha pra mim, obviamente não acreditando que eu estivesse falando a verdade —, Monique é um membro da nossa casa há várias décadas. Ela deve conhecer muito bem a regra que proíbe a entrada de membros no campo de falésias. Esse é um local sagrado da nossa família, que nunca deve ser profan…

— E obviamente essa regra foi quebrada, — Henry retrucou.

— Nem sequer temos como saber que essa… que ela falou a verdade. — Petra falou como se fosse uma coisa comum não saber que alguém falava a verdade. — Nenhum de nós consegue ouvir o que ela pensa!

E lá íamos nós de novo com alguém querendo me passar por mentirosa. Isso vindo de seres que deveriam ser capazes de identificar qualquer mentira! Se bem que…

— Eu não estou mentindo, — eu disse, tentando evidenciar que eu estava afrontando Petra. — Pra quem já encarou Marco Gionardi pessoalmente, vocês não são grande coisa, então não esperem que vocês sejam capazes de alcançar a minha mente. Eu só quero entrar na academia, por que quero conhecer outras magias. Mas não preciso realmente da ajuda de ninguém pra aprender.

Não era que eu realmente quisesse me gabar, eu apenas queria acabar com aquela discussão inútil e para qualquer um, ser capaz de encarar o Imperador era algo absurdo e inimaginável.

— E eu não quero ver essa Monique, — enfatizei olhando para Henry. — Duvido muito que ela volte a aparecer na minha frente. Eu consegui quebrar uma perna dela, enquanto ela me atacava. — Eu falava, parecendo mais firme do que eu realmente me sentia. — Além disso, Emil apareceu para impedir que ela fizesse alguma coisa pior falando justamente sobre querer evitar que profanassem o local sagrado de vocês e bla bla bla.

Henry finalmente tinha ficado estático. Ou melhor, ele parecia em choque. Aparentemente ele não esperava que eu falasse que Emil fosse aparecer do nada e me resgatar. Mas a reação surpresa foi em todos.

— Isso é um absurdo! — Dominik disse com os olhos arregalados. — Alguém realmente teve o atrevimento de tomar tal atitude, em meu campo, enquanto EU ministrava uma avaliação! Seja lá o que for que tenha acontecido, sou eu quem quer ver essa menina na minha frente agora.

Henry suspirou cansado, e passou a ponta dos dedos no meu rosto afastando uma mecha de cabelo solto da frente.

— Nos encontraremos mais tarde para resolver esses problemas então, — Henry disse lançando um olhar de advertência aos outros. Depois, ele me tomou novamente nos braços e sumimos daquele lugar.

Ahh… Eu tinha que aprender a fazer isso…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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