DCC – Capítulo 62 – 3Lobos

DCC – Capítulo 62

Só queria deixar aqui esse pequeno esboço de uma das cenas de Alésia do capítulo passado, a pedido dos meninos no Discord. Quer escolher uma cena também? Corre lá no grupo e conversa com a gente! Beijos da Nega. Boa leitura.


Gatos e Ratos

 

— Me desculpa, mas quem é você? — eu perguntei zangada, ainda na defensiva.

— Uma ratazana suja como você não tem necessidade de me conhecer, — ela disse em tom de deboche. — Apenas suma daqui, e volte pra escória a qual pertence.

Mas que pessoa ridícula! E pensar que ela teria pelo menos dois séculos imperiais de idade… Era muita falta de maturidade em uma alma tão pobre.

— Olha, eu acho que você não me entendeu bem ontem, mas eu não sou alguém contra quem você consegue brincar livremente… — eu sussurrei sentindo uma vibração sinistra de raiva saindo pela minha voz.

Ela gargalhou com força.

— Não se ache demais! Ontem, você me pegou apenas porque eu não esperava que uma ralé como você fosse realmente ter o atrevimento de levantar sua mão contra mim. Mas eu vou fazer você pagar tim-tim por tim-tim a humilhação que me fez passar na frente dos mestres! Eu sou uma especialista em Onisciência e em Onipresença, não tem como você escapar de mim!

Que merda. Eu precisava pedir ajuda para Henry, mas eu estava sem o Link e longe demais para eles verem direito que alguma coisa estava acontecendo. Precisava ganhar tempo, então coloquei um dos joelhos no chão e me mantive encolhida.

— Ha ha ha! Já desistiu de ficar saltitando? Estou impressionada que não tenha caído chorando na primeira flechada — ela ergueu mais uma flecha e a apontou bem para o meio dos meus olhos —, mas nem se preocupe em implorar, eu não tenho a mínima intenção de te poupar. Uma Brard qualquer a menos não fará falta nesse universo. Mestre Henry irá entender quando ele perceber a efemeridade da sua…

— CALA A BOCA SUA VADIA ESTÚPIDA! — Eu gritei para ela —  Ninguém faz discursos no meio de uma briga! — Ao mesmo tempo mentalizei o “Marionete”. Várias pequenas pedras e as flechas que haviam me acertado saíram voando na direção dela.

Ela ficou enfurecida e surpresa. Obviamente, ela desapareceu no ar antes mesmo de qualquer coisa chegar perto dela. Não dava simplesmente para tentar fugir voando, eu só iria expor mais aberturas e me tornar um alvo fácil. Com a minha falta de controle de velocidade ela me acertaria letalmente antes que eu chegasse na costa. E eu não conseguia projetar escudos potentes o suficiente pra cobrir e proteger o meu corpo inteiro. Mas se eu reduzisse a área de exposição, então seria mais fácil para me proteger. Eu precisava ganhar tempo. Em dois minutos o tempo de duração do teste iria acabar, e Henry com certeza viria atrás de mim.

Enquanto ela desapareceu, passei rapidamente a mão pelo chão, tocando no maior número de pedrinhas que pude. Um zumbido rápido vindo da minha lateral me alertou da aproximação da próxima flecha. Assim, mentalizei o Ponto de Impacto que a desviou de mim.

Um…

Dois…

Três…

Quatro…

Outra flecha veio zumbindo por cima. — Ponto de Impacto!

Um…

Dois…

Três…

Quatro..

Duas flechas vieram por trás. — Ponto de Impacto!

Um…

Dois…

Três…

Quatro…

Mais uma flecha. — Ponto de Impacto!

Então ela tinha um padrão! Ela queria brincar de gato e rato comigo. Se ela me considerava o rato, bom… ela devia saber que alguns ratos também mordem.

Um..

Dois…

Três…

Eu lancei todas as pedras e flechas que estavam voando ao meu redor em todas as direções.

Quatro!

— Ah! — Ela gritou à minha direita. Um filete de sangue escorria pela testa dela. Ela ficou brevemente aturdida por um segundo, tempo suficiente pra eu direcionar todas os projéteis que estavam daquele lado para cima dela.

O barulho de ossos sendo quebrados foi alto. Uma das pedras grandes havia atingido com gosto bem no meio da ex-maravilhosa perna dela, que agora estava dobrada em uma posição estranha, com uma protuberância perturbadora saído pela pele no lugar onde o fêmur deveria continuar até tocar o joelho.

— Aaaaaarrrrrrhhhh!!! — Ela gritou mais avidamente. Eu senti a angústia de quem nunca tinha sentido dor antes em cada nota daquele berro. Enquanto ela contorcia o corpo em dor tentando se manter em pé. — Como se atreve… COMO SE ATREVEEE!!!

Ela parecia realmente aborrecida por ter sido atingida por mim — de novo — tão facilmente. Então ela desapareceu no lugar.

Merda. Eu precisava aprender a fazer isso.

Depois de quatro segundos ela não voltou, mas continuei em guarda. Ela agora estava mais obstinada que nunca a conseguir um pedaço de mim. Se ela aguentasse a dor, com certeza ela não desistiria. Com certeza ela sabia que outra oportunidade não iria aparecer.

Eu passei quase um minuto inteiro em alerta esperando. Pensando se não seria melhor arriscar sair voando pra costa. Então várias flechas começaram a aparecer do nada e voaram rapidamente em minha direção.  — Que inferno. De onde essa louca tirava tantas flechas?

Não dava pra esquivar de todas. Tirando do próprio chão onde eu pisava. Elas vinham de todas as direções. Eu não tinha como vencê-la se ela me levasse a sério, mesmo assim, ela não era exatamente alguém capaz de ameaçar a minha vida. Mas lidar com esse tipo de coisa era extremamente estressante.

Gravidade! — Eu mentalizei o encanto por todo o meu redor. Precisava ser bem mais forte dessa vez. — Ponto de Impacto! — Imediatamente eu também mentalizei o escudo sobre a minha cabeça. As que viessem ao meu redor dificilmente me atingiriam, mas as que vinham de cima teriam seu poder ofensivo consideravelmente ampliado quando a força da gravidade sobre elas ampliasse a tal ponto.

As flechas imediatamente fizeram uma curva no ar e atingiram o chão com força a pouco menos de um metro de mim. As que vinham de cima chocaram-se com força contra o escudo e desviaram para o chão, quase todas deixando de me atingir com êxito.

Uma delas havia fincado bem no meio do meu pé, que estava exposto por conta do tamanho pequeno do escudo. Eu mordi os lábios tentando engolir a dor. A pior parte, era que eu tinha ficado empalada alí. A flecha havia entrado no chão pela metade, me deixando presa. Aquilo iria ser um inferno pra arrancar fora.

— Você vai se arrepender tanto de ter revidado… — A voz dela veio tremida, mas ameaçadora, como se ela estivesse chorando de raiva, mas não consegui saber de onde. Parecia vir simplesmente de todo lugar. — Antes eu pretendia apenas judiar um pouco de você, mas agora eu vou te massacrar ao ponto de que nem mesmo você seria capaz de reconhecer o próprio corpo morto.

— Você fala demais pra quem já ganhou uma lembrancinha nessa perna e no rosto de um ser que você diz ser inferior! — eu provoquei.

— Você é uma praga… — ela sibilou sabe-se lá de onde. Então subitamente, a figura dela apareceu na minha frente segurando uma das flechas apontada diretamente para mim como se quisesse cravá-la com as próprias mãos. Ela definitivamente estava com uma cara de quem tinha entrado em desespero. — MORRE DE UMA VEZ!

Ela estava equilibrada — e bem mal equilibrada — em uma perna só e o braço dela desceu em um arco na minha direção. Quando a ponta da flecha estava perto de me atingir — ou melhor, ao meu escudo. Outra pessoa apareceu e a segurou pelo pulso.

— Monique! Como se atreve? — ele disse.

Por um breve momento feliz, pensei que pudesse ser Henry, mas para a minha surpresa quase imediata, eu percebi que não.

— Me-mestre Emil! Por favor… Por favor… e-eu estava… — ela começou a gaguejar em um tom suplicante para ele.

Ele a encarou com um olhar apático, mas extremamente profundo e… ameaçador.

— Cale-se. Você é uma vergonha deixando seu status de lado para lutar contra uma criança! E olhe pro seu estado! Mesmo que a outra esteja pior, ela é apenas uma Brard… você mancha nosso nome tendo sido reduzida a isso por ela. Fora que derramar o sangue de outra pessoa nesse lugar? Você conhece o tamanho do seu crime? Essas terras são sagradas!

— M-m-m-mas mestre!!! — Ela começou a chorar suplicante, ela sustentava o olhar dele, mas parecia que não era intencional. Eu me lembrei da vez em que Marco me prendeu com os olhos e eu mal pude me mover. — Eu… ela…

— EU MANDEI SE CALAR! — Ele exigiu. — Entregue o objeto desse posto e suma da minha frente! — Ele disse soltando o braço dela. Ela desabou dolorosamente no chão, e agonizou de dor enquanto a perna quebrada parecia ter uma articulação a mais.

Enquanto ela mal conseguia respirar de dor, ela conjurou uma esfera — O projetor de imagens quebrado!! — e a deixou cair no chão para depois desaparecer no ar, como se nunca tivesse estado lá.

— E você! — Ele se virou para mim com ferocidade. — O que ainda está fazendo aí?

Esse cara era realmente perturbador.

— Eu suponho que deveria agradecer? — Perguntei desconfiada, ficando de guarda novamente. O que ele tinha vindo fazer aqui no meio do nada?

— Humpf! — Ele resmungou. — Eu não vim até aqui ajudar você, eu vim livrar nossa casa de uma vergonha. Sobre você ter sido poupada, considere apenas como acaso da situação.

— É… claro… — Eu disse cansada. Foquei minha atenção em meu pé empalado. — De qualquer forma, obrigada.

Eu estendi a mão para a esfera caída na minha frente.

— Eu não preciso de seus agradecimentos, eu preciso do seu preço! — ele disse como quem desdenhava de algo.

— Eu não vou me vender pra você, Emil. — ele estava realmente levando essa história a sério?

Quando eu abaixei para pegar a esfera, ele se ajoelhou na minha frente até ficar cara a cara comigo, no mesmo nível do meu rosto. Por um momento eu imaginei que ele fosse usar aquele truque odioso dos olhos, mas ele não o fez. Eu acho. Mesmo assim ainda me deixou extremamente alerta, e eu tive que redobrar a guarda. Porém ele ficou apenas me encarando como se procurasse algo perdido em meu rosto. Ele disse com um sorriso irritante nos lábios:

— Veremos… Mas já que esse é o caso, então você não tem a mínima serventia pra mim. Quanto a achar que eu salvei a sua vida, isso não me desagrada, desde que você não saia comentando esses absurdos por aí pros outros da sua laia. Eu apenas salvei o nosso terreno sagrado de ter sido manchado por uma morte fútil. — Então ele esticou a mão até a flecha fincada em meu pé e a puxou com força para fora em um único movimento.

— Aarrh — Eu arfei de dor.

Eu tive que segurar todo o meu autocontrole para não expressar muito a dor que eu estava sentindo naquele momento. Então apenas mordi os lábios e sacudi os ombros como se não me importasse. Eu não queria problemas com ele, e por mais que ele parecesse ter esperado alguma reação maior à dor, desde que ele fosse me livrar daquela encosto e não fosse me atacar, também não tinha por que eu fazer mais perguntas. Os cortes que sofri das flechas que passaram raspando pela minha pele também ardiam de dor. Eu tinha que sair dali rápido, vai que ele mudava de ideia…

E ainda tinha um longo percurso de volta até a costa.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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