DCC – Capítulo 61 – 3Lobos

DCC – Capítulo 61

Colando na prova

 

Eu respirei fundo e dei meus pensamentos para o controle da Sabedoria. Era uma forma interessante de ver as coisas, bem mais profunda e complexa. Naquele momento, eu podia sentir a presença das pessoas ao meu redor, como um sentido a mais que não só o da visão e da audição.

Eu pude sentir a presença estável de Henry ao meu lado, e a descrença de Petra ao lado de Dominik. Eu senti minha animação crescer: aquela era uma sensação maravilhosa… invasiva e desconcertante, mas maravilhosa.

— Pode começar! — Eu disse.

Dominik assentiu, então orientou para que Henry e Petra se afastassem. Os dois recuaram uma dezena de metros.

— Muito bem. Eu escolhi os objetos em cada um de seus respectivos monólitos. — Dominik disse, e a partir daquele momento, eu pude sentir que a presença dele ficou bem maior que antes. Eu pude sentir mais solidamente as emoções que ele estava sentindo.

Ele tinha descrença em mim também, mas não tão escancarada quanto a de Petra. Ele também estava curioso sobre até onde eu poderia chegar e bastante intrigado por não estar conseguindo “ver” o que eu estava pensando.

Então eu direcionei mais profundamente essa percepção que eu estava tendo dele, ao ponto de atingir o nível dos pensamentos dele. De uma forma estranha, era como se eu pudesse ver o mundo pelos olhos dele. E diante dos olhos dele, estava a tela onde exibia o mapa dos monólitos e o que cada um deles escondia.

Entre aquelas dezenas e dezenas de formações rochosas, a figura de algumas foi empalidecendo, como se não estivessem sendo observadas. Elas não eram importantes, então o campo de visão dele não as captava mais. Quando já tinha passado quase um minuto, sete monólitos haviam restado, e todos eles estavam sólidos no pensamento de Dominik.

Eu esperei mais um minuto, mas os sete permaneciam sólidos. O que isso queria dizer? Os sete eram verdadeiros? Ou isso era alguma forma de pegadinha do teste?

— Com licença, mas… — eu comecei a falar pronta para perguntar sobre isso, mas não sabia se poderia fazer esse tipo de pergunta.

— Diga! — Ele me incitou ao ver que eu estava receando.

— É que vejo que escolheu sete monólitos em vez dos cinco que disse que iria inicialmente…

Ele trincou as sobrancelhas, surpreso. Obviamente Dominik estava fazendo aquilo de propósito, mas com certeza ele não estava esperando que eu fosse perceber… tão rápido.

— Sim, — ele respondeu simplesmente.

Então era uma charada? Eu teria que descobrir quais não eram os escolhidos? Isso provavelmente era o básico de se identificar uma mentira que o poder da Onisciência pedia. E eu sabia chongas de como administrar esse poder, mas é claro que com a ajuda da Sabedoria, não havia nada que eu não pudesse descobrir.

Era realmente um teste simples. Eu só tinha que ficar ali parada analisando os pensamentos dele. Não tinha nada demais. Porém ainda fiquei com a sensação de que muitas pessoas devem ter falhado por falta de segurança no próprio poder.

— Senhor… acredito que os monólitos corretos sejam respectivamente… — os monólitos eram numerados no mapa, então tentei visualizar os números — o quarenta e sete, o setenta, o cento e vinte e três, o cento e noventa e cinco, e o duzentos e trinta, — eu disse apontando na direção das formações em nossa frente — E os objetos são… — eu fechei os olhos tentando entender o que estava vendo, ou melhor, sentindo — um garfo, uma estatueta, uma garrafa, uma caixa e… eu não, sei… algo redondo…

Esse era difícil, eu sabia o que era um garfo — obviamente —, então eu senti a imagem na mente de Dominik e pude dizer do que se tratava, mas eu não sabia o que era a coisa redonda. Porém quando eu falei “algo redondo”, a palavra dançou nos pensamentos de Dominik.

— Um projetor de imagens quebrado! — Eu quase gritei. Caramba! Nunca que eu ia imaginar que essas coisas vinham em formato esférico.

Dominik ficou parado me observando agradavelmente surpreso, mas não disse nada.

— Ah, ir buscar! Claro! — Eu me toquei.

Eu saí correndo em direção ao penhasco, me virei de costa na beirada, Dominik estava parado com os braços estendidos, como se quisesse me impedir, Petra estava boquiaberta e Henry me olhava serenamente, encostado numa pedra com os braços cruzados. Eu acenei pra eles, e saltei.

Aquele paredão era realmente muito alto. Como saltei de costas, vi a distância aumentando entre mim e a borda. A sensação do vento tocando minha pele era magnífica. Pela primeira vez eu me senti livre. Eu controlei a queda e me coloquei em voo na direção do monólito que eu queria mais próximo.

Eu não me joguei do penhasco deliberadamente. Eu não sabia como controlar velocidade ainda, então eu pude pegar a velocidade que eu tinha conseguido durante a queda e mantê-la para mim.

Meus óculos sacudiram violentamente com o vento e voaram longe, mas não me importei com isso na hora. O monólito quarenta e sete estava logo ao alcance… e eu não sabia frear. A solução mais fácil — ou rápida — seria bater de frente.

Ponto de Impacto! — Eu mentalizei o escudo à minha frente e encolhi o corpo.

Funcionou. Eu parei. Porém o choque foi maior do que eu esperaria que fosse. Assim que o escudo tocou na parede do monólito, o impacto foi tão grande que explodiu a torre de rocha natural em várias centenas de estilhaços de rocha pura.

Varri com os olhos os escombros caindo em direção ao mar, tentando achar o garfo. Como diabos eu acharia o garfo agora? Precisava impedir que todos aqueles entulhos caíssem na água, então pensei — Marionete!

Todas as pedras pararam naquele mesmo segundo e ficaram flutuando suavemente. Ampliei os meus sentidos tentando sentir onde o garfo estaria. Se ele ainda estava no meio dos escombros, suspenso pela minha magia, então eu sentiria a existência dele. O metais tinham uma sensação diferente da terra. Ele vibrava um pouco mais na eletricidade. Então eu eletrifiquei todo o meu redor, e logo um zumbido suave vinha ressoando abaixo de mim.

Era o garfo.

Eu o convoquei com a marionete, e deixei o resto dos escombros cair.

Isso era divertido. O estresse mental que eu tinha quando lutava era extremamente desgastante, o que significava que eu ficava fatigada bem rápido se eu precisasse atacar usando magia, o que me levava a terminar as batalhas o mais rápido possível, fosse como fosse. Mas ali, considerando que nada estava tentando me matar — eu estava me sentindo completamente livre e desimpedida.

Guardei o garfo no bolso do casaco e despenquei em direção ao mar querendo pegar velocidade com a queda de novo.  Ao chegar no monólito setenta, porém, imaginei que um impacto daquela magnitude destruiria a estatueta que eu tinha que pegar. Então em vez de me lançar diretamente contra o monólito, eu mentalizei o “Ponto de Impacto” e o utilizei como âncora, prendendo-o de raspão nas laterais da rocha, enquanto dava voltas ao redor até parar completamente.

A estatueta estava escondida embaixo de alguma pedras. Ergui todas e peguei a marionete. O tempo estava correndo. Olhei de volta para a costa, e mal dava pra ver o pessoal à distância. O próximo estava bem mais distante. Então corri e saltei do monólito sem querer perder tempo.

Felizmente acima do monólito seguinte, a garrafa estava perfeitamente visível dentro de uma fenda que atravessava o topo do monólito. Sequer precisei parar. Atrai a garrafa até a minha mão, e ela veio voando atrás de mim até eu pegá-la.

A caixa da mesma forma que a estatueta, também estava escondida debaixo de uma pilha de pedregulho. Mas dessa vez, eu também não parei, apenas levei tudo comigo. Me virei de costas enquanto ajustei minha direção para o último monílito e olhei para a fila de pedras voando atrás de mim, e fui soltando uma por uma, até restar apenas a caixa. Coloquei a garrafa e a estatueta dentro da caixa e continuei até o distante monólito duzentos e trinta.

A costa já estava bem distante, então eu teria que me apressar pra voltar, mas eu provavelmente deveria pensar bem a respeito disso. Fazer um pouso elegante seria problemático.

Mas quando cheguei ao último monólito, eu não pude ver o projetor em lugar nenhum. Dei voltas em círculos ao redor da torre de pedra, e não conseguia ver nada. Era o jeito usar o “Ponto de Impacto” para pousar.

Quando a cortina de poeira que eu levantei ao bater no monólito dissipou, eu corri por todo lado procurando pela pequena esfera. Que droga, o tempo estava correndo, e eu ainda precisava voltar. Será que eu errei?

Revi junto com a Sabedoria os pensamentos que eu havia captado de Dominik e não havia erro. Era esse o lugar. Então por que não encontrava o projetor? Será que essa também era uma das pegadinhas dele?

Não dava tempo de voltar lá para confirmar. Tentei ampliar mais ainda os meus sentidos e eletrifiquei o lugar tentando captar alguma vibração da esfera e nada. Foi quando…

ZUM!

Algo passou voando com uma velocidade absurda do meu lado e cravou no chão a minha frente. Por um breve segundo e fiquei sem entender, até que veio a dor. A coisa tinha atravessado o meu braço de um lado a outro e o sangue já estava começando a escorrer com força pelos rasgos que ficaram no casaco. Mas que merda foi essa?

Virei pra trás, e procurei pela pessoa que tinha atirado o objeto. Não havia ninguém. Nenhuma presença, nada. Mas estão a sensação do vento sendo cortado atrás de mim me advertiu em tempo de eu desviar de uma segunda flecha, que passou raspando pelo meu pescoço.

E logo mais uma, e mais uma. Sempre por trás. Eu mal conseguia desviar, e muitas passavam de raspão deixando minha roupa completamente picotada e minha pele cheia de arranhões e cortes fresquinhos.

Obviamente, eu estava sendo usada como brinquedo de tiro ao alvo. E pela precisão da pessoa, eu estava duvidando que o que sobrou da minha integridade atual era devido às minhas habilidades de esquiva. Quem quer que fosse, estava brincando comigo, tentando me apavorar. Provavelmente ele não esperava que eu fosse manter a compostura mesmo após eu ter levado uma flechada no braço, mas eu não estava com vantagem nenhuma, eu era muito lenta para aquele nível de velocidade.

— APARECE IDIOTA! — Eu gritei quando evitei por pouco que mais uma flecha empalasse minha perna esquerda. — APARECE E PARE DE ME ATACAR COMO UM COVARDE!

— Então você quer me encarar pessoalmente? Muito bem! — A voz ameaçadora veio exatamente ao lado do meu ouvido. Eu saltei e assumi a defensiva, me virando para a pessoa ao meu lado.

Era a moça que quis me intimidar no salão do banquete.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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