DCC – Capítulo 60 – 3Lobos

DCC – Capítulo 60

O teste

 

— Alésia… — Eu ouvi meu nome ao longe chamando suavemente. — Alésia! — o chamado ficou mais firme.

Eu acordei sobressaltada, já me pondo de pé, me dando conta que estava em sono profundo até segundos atrás. Henry estava do meu lado, obviamente tentando me acordar.

— Que? — perguntei levemente alarmada.

— Temos que ir! — ele disse, com o tom de voz sério.

— Ir?  — Então suspirei pesadamente. Ainda estava exausta. Tinha passado a noite inteira em claro praticando com Henry, até que ele decidiu que já bastava, e mesmo que eu treinasse mais não faria diferença.

— Sim. Apronte-se e vamos.

— Arrrg… — eu me soltei na cama, desejando voltar a dormir. Mas eu sabia que não podia. Logo estariam aqui, e se nós não fôssemos logo…

Eu me troquei rápido, colocando um par de calças pretas, uma camiseta e um casaco de mangas longas.

Me olhei no espelho pra ver aquele cabelo enorme e emaranhado que eu não cortava há anos. Ele era a minha única indicação de que o tempo tinha passado, por isso nunca tinha me ocorrido cortá-lo realmente. Acho que em breve eu chegaria a um limite.

Em Sátie nunca me foi permitido ter o cabelo comprido. Isso era desnecessário e consideravam uma distração desnecessária que atrapalhava a vida. Meus cabelos tinham ganhado um tom levemente avermelhado depois de tantos banhos de sangue. O chato era ter que usar esses óculos o tempo todo.

De qualquer forma, eu estava deixando de prestar atenção no fato de que eu o usava em público. O propósito dele era único: mascarar a cor dos meus olhos. Henry também os usava, o que estranhamente o deixava com uma cara de sabichão. Mas isso podia muito bem ser apenas o realce da expressão normal e metida dele.

Henry também havia deixado os cabelos crescerem consideravelmente. Quando o conheci, pareciam um capacete de fios arrepiados que davam a impressão de ser nuvens negras e fofas. Mas ele os usava preso em um rabo de cavalo sempre que ia aparecer em público também.

Porém, em algum momento eu deveria parar com a contemplação. Estávamos com pressa. Uma das vantagens de conseguir mover objetos sem tocá-los, era que eu podia trançar meus cachos em uma velocidade que minhas mãos não poderiam apenas por imaginar isso sendo feito. Logo, minha aparência já estava sob controle.

Uma batida na porta. Eles vieram antes de sairmos. Estavam mesmo ansiosos.

— Quem é? — Henry perguntou.  

A visita não esperou autorização pra entrar, e abriu a porta invadindo nosso espaço.

— Quem você acha que é? Óbvio que é a Rainha Talula! — Louie disse sarcasticamente.

— O que foi? Por que já está aqui logo cedo? — Henry perguntou.

— Vim trazer um recado… — Louie disse no meio de um bocejo. Duvido que ele se desse a liberdade de agir dessa forma na presença dos outros que moravam por aqui. — Madame Petra pede pra se reunir com você, enquanto observam o teste da menina.

— Hum… — Henry pareceu pensar sobre o assunto — Não sei. Vamos ver.

Depois de passar a noite praticando com Henry, eu havia chegado a um limite do que eu poderia mostrar sobre “meu conhecimento” em onisciência. E, para minha surpresa, Henry concordou em me deixar ser testada pelo pai dele.

Dominik estava nos esperando juntamente com Petra em um pátio ensolarado à beira de um penhasco que dava para uma vista estonteante do oceano picotado de monólitos naturais que faziam parecer um grande emaranhado de torres de pedras que cresciam de dentro d’água.

— Bom dia filho. Bom dia Alésia! — Eles nos cumprimentaram quando nos aproximamos.

— Bom dia! — respondi.

— Vejo que veio pronta para tudo! — Dominik comentou, me olhando de cima a baixo. Ele usava umas roupas um pouco mais simples do que as que o vi usando no dia anterior, mas pareciam bem resistentes.

Eu sorri sem jeito.

— Bom, sem mais delongas, deixe-me explicar como é o teste.

Ele se virou para o penhasco apontando a paisagem.

— Nossa Casa é de uma tradição em Onisciência, mas isso não quer dizer que refutamos os talentos nos outros campos de conhecimento mágico. Quando aceitamos novos artistas aspirantes, sempre testamos o potencial intrínseco que cada um tem para cada tipo de magia. Então se é apenas para isso, a forma mais justa e segura, seria no nosso campo de falésias. É claro que, pra esse tipo de teste, esperamos que os participantes tenham domínio de alguma base, mas eu não sei se isso seria apropriado para…

— Não se preocupe com isso… — eu o interrompi, tentando parecer decidida. — Se eu não tivesse certeza que poderia dar conta, Henry sequer teria considerado permitir que eu participasse.

— Ah, então é isso… — Dominik sorriu satisfeito. — Então deixe-me explicar como funciona. Nos vários monólitos à sua frente, existem objetos enterrados. Porém no topo de apenas alguns deles estão enterrados os objetos corretos. Para o teste de onisciência, você precisa descobrir em qual monólito estão os objetos escolhidos e o que são esses objetos em dez minutos. Não precisa ir pegar, basta apontar para o correto e dizer o que é.

Ele estendeu a mão para todos aqueles à nossa frente. Eram algumas centenas, então eu duvidava que alguém acertaria pelo chute.

— Para o teste de onipotência, você deve ser capaz de voar até os monólitos que eu apontar, desencavar os objetos, e trazê-los até mim em dez minutos. Eu já vi que sabe flutuar, mas devo avisar que se quiser fazer este teste, a altura é enorme, então se você não tiver concentração suficiente, pode sofrer algum acidente. Além de que, a pedra é muito dura para ser escavada com a força normal de uma pessoa. Apenas um onipotente seria capaz de fazer.

— Entendi, — eu concordei. Isso não deveria ser um problema para mim.

— E para o teste de onipresença: Você deve ser capaz de rasgar o espaço e trazer para cá todos os objetos enterrados nos monólitos, sem sair do lugar.

Bom, o teste de onipresença estava fora de cogitação. Eu nunca tinha conseguido entender realmente como funcionavam essas coisas de criar vácuos, e desaparecer para aparecer em outro lugar.

— Entendi… Teria algum problema se eu não fizesse um deles? — perguntei esperançosa. Eu nem fazia ideia de como eu poderia arrancar esses objetos de onde estavam.

— Ha ha ha ha ha! — Dominik riu com gosto. — Mas é claro que não tem problema. Nossos candidatos sempre fazem apenas um. Dificilmente aparece alguém atrevido o suficiente para querer fazer mais de um de primeira, e quem tenta não consegue ter o domínio mínimo necessário para fazer os dois testes, por mais simples que eles sejam. É dificílimo para um aspirante dominar o mínimo necessário de duas artes diferentes para fazer os testes.

— Entendi, — respondi depois de ouvir o que ele disse.

— Acredito que queira fazer o teste de onipotência, já que já sabe flutuar, — disse Petra, cheia de simpatia. Por algum motivo isso me deu vários calafrios.

— Claro que sim, mas eu queria saber se tem algum problema eu fazer dois.

Petra levantou a sobrancelha, e Dominik me olhou como se estivesse se divertindo.

— Bom, problema não tem, mas uma b… uma pessoa tão jovem não deve ter controle mental suficiente para dar conta de dois testes. Mesmo se você fosse uma jovem Jomon, ainda seria muito nova para tentar dar conta dos dois tipos de poderes ao mesmo tempo. — Petra comentou com o mesmo tom que Henry tinha, como se estivesse explicando para uma criança mimada que ela não podia mais brincar.

Eu ri por dentro. Então era daí que vinha essa expressão. Eu detestava essa forma de falar deles.

— Não tem problema — eu disse, levantando a cabeça, tentando me mostrar decidida. Mas o fato de eu ser baixinha comparada a eles não ajudava muito nesse efeito dramático. —  Se vocês não se importarem eu gostaria de fazer os testes de onisciência e onipotência.

Dominik ainda pareceu que ia rir, mas então ele percebeu que eu estava falando sério.

— Olha, não vá com muita sede ao pote. Não estou dizendo que você não pode, mas se você falhar em um deles, então terá falhado completamente. Não acho que você deva arriscar sua chance. Passar só em um já seria o suficiente.

— Não senhor, eu gostaria de tentar os dois. Eu sei que posso dar conta.

Dominik olhou de mim para Henry. Henry concordou com a cabeça, como se dizendo que o pai deveria apenas aceitar.

— Muito bem então, mas é por sua conta e risco. Não é porque os testes parecem simples que eles são fáceis para iniciantes. Como vai querer fazer os dois, há uma pequena alteração: você deve descobrir quais são os objetos enterrados, onde eles estão, e só então ir até lá, desenterrá-los e voltar. Tudo em dez minutos.

— Ok! — Eu disse animada.

Dominik abriu uma tela em sua frente com o Link, onde apenas ele poderia ver as imagens projetadas, e me pediu para remover o meu, para o caso de eu ter acesso aos mapas do lugar.

— Eu estou abrindo agora o mapa do campo de falésias e posso ter acesso a todos os objetos que estão escondidos em cada um dos monólitos. Eu irei escolher aleatoriamente cinco desses objetos, e marcá-los no mapa. O teste terá início quando eu abrir minha mente, de forma que você possa escutar meus pensamentos se tentar. Assim, será capaz de descobrir o que foi escolhido. Começaremos quando quiser.

Dominik realmente parecia estar duvidando que eu fosse ser capaz de dar conta de exibir um domínio básico em duas grandes artes mágicas. Ele provavelmente só estava fazendo esse teste porque já havia prometido para Henry.

Pra falar a verdade, eu não sabia mesmo nada de onisciência. Minha base era completamente formada em onipotência, mas se eu era uma obliterante, e eles poderiam desconfiar disso por não poderem entrar livremente em meus pensamentos, então eu devia “provar” que sabia alguma coisa de onisciência. Porém, tudo não iria passar de um truque que só eu era capaz de mostrar por conta da Relíquia da Sabedoria.

— Pode começar! — eu disse animada.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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