DCC – Capítulo 6 – 3Lobos

DCC – Capítulo 6

A fuga

 

Me senti terrivelmente tonta de repente e cambaleei um pouco, provavelmente por conta da anemia. Os dois à minha frente rapidamente vieram em meu socorro. O choque indisfarçável ainda dançava em suas feições.

― Que houve? Por que me olham assim? ― Perguntei levemente irritada com a reação dos dois.

― Não…. você não viu? ― Siever ainda tinha os braços estendidos na minha direção, como se tivesse medo que eu tornasse a cambalear e chegasse a cair ― Só estamos….

O que eles “estavam”, eu não fiquei sabendo. O outro homem recuperou rapidamente a compostura, agarrou o braço de Siever e o arrastou à força para dentro do palácio, debaixo de seus sonoros protestos. Depois disso, não consegui avaliar quem estava com a maior raiva. Um gritava para o outro coisas que, pela distância, o tradutor não conseguiu discernir, até sumirem pelos corredores do palácio.

Confusa e ainda levemente tonta, retornei sozinha ao quarto onde estava hospedada. Deitei na cama e esperei adormecer, agarrada nos cobertores tão confortáveis, que pareciam impossíveis. O medo de ficar e o medo de voltar se debateram em meus pensamentos.

Eu definitivamente não tinha tido uma vida ruim. Até quatro meses atrás, pelo menos. Eu tive um quarto confortável, com meu próprio Link, comunicador holográfico, uma mesa digital, jogos, hobbies, roupas, maquiagens… A cama sempre estava bem arrumada com belas colchas e eu saia para passear com os colegas aos fins de semana.

Quando a primeira “mentira” escapou, acreditaram em mim, é claro, e por um brevíssimo momento, tinha me tornado popular por ter sido a primeira da turma a ir a um outro planeta. Alan, que estudava na mesma escola que eu, foi o primeiro a desmentir a história. Se tivesse ficado apenas nisso, minha vida social ainda teria alguma salvação. Mas vez por outra, quando o assunto surgia, por vezes em aula, eu tinha memórias de lugares onde nunca tinha estado. E o pior: eu falava sobre esses lugares aos outros, como se eu sentisse uma compulsão por isso.

Aos poucos fui ganhando a fama de mentirosa, e quando os professores pararam de dar credibilidade ao que eu dizia, os “colegas” perceberam isso. Abusaram da oportunidade para cometer pequenos delitos e vandalismos na escola, para depois reunirem-se como testemunhas do comportamento impróprio que eu supostamente tinha expressado.

Eu até tentei me justificar ainda. Até me revoltei com a situação. Porém, nem em casa me creditavam mais a verdade, então por que eles se dariam ao trabalho de verificar os fatos? Como castigo, minha mãe, que sempre tinha sido muito exigente, começou a cortar meus benefícios. Primeiro os passeios, depois a mesada…. acesso à internet e à macronet e equipamentos eletrônicos…. os hobbies…. os pequenos luxos… até as roupas e os móveis. Só me restava o que ela não poderia mais tirar: a cama, o teto e as refeições sem graça que ainda me eram oferecidas. E por um momento ingênuo e infantil, desejei pelo menos mais um dia de conforto naquele palácio, antes de ter que voltar para a realidade em que, ao que se sabia, eu era louca.

Apesar disso, não vi a hora de amanhecer também. A noite inteira foi sendo pontuada por pesadelos assustadores sem forma ou situação, às vezes tendo apenas o forte sentimento de desespero. Isso sem contar que as recorrentes lembranças da tortura da manhã me fizeram tremer. Não tinha como eu ficar tranquila se de um lado havia um cara que tinha tentado me estrangular e do outro um cara que havia mandado me torturar.

Horas depois, mas ainda bem antes do amanhecer. Alguém me sacudiu com urgência, com mãos terrivelmente quentes. Era Siever.

― Acorde, vamos…. você tem que ir…

Houve pelo menos dois segundos em que eu não me lembrei de quem ele era ou onde eu estava, até conseguir desanuviar a mente sonolenta.

― Já está na hora de voltar? ― Olhei meio grogue para o lado de fora da janela e tudo ainda estava muito escuro ― Pensei que a nave só iria estar pronta depois que amanhecesse….

― Anda logo! 

Siever agarrou minha mão e me puxou da cama, sequer me deu a oportunidade de me aprumar, e me arrastou pelos corredores escuros e vazios.

― Espere… eu estou toda bagunçada! ― tentei protestar, mas Siever não demonstrou sinal de que iria me soltar, e ainda gesticulou pedindo silêncio. A urgência dele me assustou. Estávamos certamente fugindo.

Uma nave civil de passeio estava estacionada no jardim, tão compacta e rebaixada que estava quase escondida pelas sebes e pelas sombras da noite. Parecia ser um modelo bem caro e recente, de uso privado, do tipo que se guarda nas garagens mais caras. Eu não entendia muito de transportes, mas sabia o suficiente que aquele tipo de nave não era muito comum pra quem não fosse realmente podre de rico. Também não vi nenhum piloto. Ele quem iria pilotar?

― O que está havendo?

― Rápido… não temos mais muito tempo! ― Siever me empurrou pela porta do passageiro, e já ia dando a volta para ocupar o banco do piloto, mas quando me virei, para nosso espanto, ele foi instantaneamente ocupado. Siever bufou ― Marco!!

― Você não pode fazer isso Henry. Sabe suas responsabilidades!

Era o homem dos olhos lilases. Eu achei que meu coração iria fugir correndo nave afora sem mim, tamanho o susto, e afundei no banco enquanto corri apressada e sem jeito os dedos até a maçaneta da porta, mas ele havia sido mais rápido e travado as portas pelo controle do piloto. Ele tamborilava tristemente, com ar entediado de quem parecia que iria discutir com uma criança birrenta.

― NÃO É SUA OBRIGAÇÃO ME LEMBRAR DO MEU TRABALHO! SAIA DAÍ, DEIXE-A EM PAZ! ELA NÃO TEM QUE SE ENVOLVER!!!

Agora eu estava definitivamente aterrorizada. Siever tremia do lado de fora enquanto deixava a fúria explodir com os gritos.

― Como ela não sairá envolvida? Você viu mais cedo! Não há outra escolha! Não há nem o que se discutir mais…

Siever, enfurecido, desceu o punho sobre a lataria externa da nave, cravando a marca de seus dedos raivosos sobre o metal reluzente. Eu já estava arquejando com força, o medo crescendo descontrolado, como se estivesse nascendo do meu estômago e me impedindo de respirar direito.

― VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO! ― Siever gritou mais alto ainda.

Então algo aconteceu. Eu não vi, e se tivesse visto, não teria entendido. Em um único segundo, Siever de alguma forma foi empurrado para longe da nave por uma onda de energia invisível e antes que terminasse de se reequilibrar e voltar correndo para onde estava antes, a nave já havia decolado.

Eu só pude gritar assustada, e agarrei-me ao banco com força, mesmo que pressionada pela incrível aceleração da nave. Seja lá qual que fosse o plano do rapaz ao lado, não poderia ser coisa boa. Siever havia tentado me contrabandear para longe escondido, havia tentado me salvar, e mesmo assim, esse homem misterioso havia conseguido me interceptar.

― Senhor Marcos!! ― tentei suplicar.

― É Marco, na verdade. Marco Gionardi, mas pode me chamar só de Marco ― corrigiu ele, aparentemente ofendido, mas ainda forçando um tom educado.

― Certo, me desculpe, você ainda não tinha me dito seu nome, mas não irei esquecer, é um nome famoso…. ― eu me esforcei para manter um tom cordial, e até tentei adular um pouco o piloto, enquanto olhava aterrorizada pela janela e via a cada segundo o chão mais distante.

Então algo me ocorreu subitamente dançando em meus pensamentos, como eu poderia ter ignorado a obviedade da coisa? Eu estava em Keret… no Palácio Real do Conglomerado Imperial… ao lado de um homem que se chamava Marco Gionardi. Que espécie de brincadeira era essa? Era muito surreal para ser verdade, mas tive que perguntar:

― Você é o imperador! ― a pergunta saiu meio torta, como uma afirmação, como se estivesse acusando em assombro. Ele revirou os olhos impaciente ― Não é?

Sem responder, Marco freou a nave de uma vez só, deixando-a parada em pleno ar. O chão já ia tão distante na penumbra que eu já via a curva do planeta no horizonte, onde o sol parecia estar nascendo. Por pouco eu não parei com a cabeça no painel da nave. Estava sem as travas de segurança.

― Hum…. é mais sensível do que eu esperei…. ― disse ele pensativo avaliando os controles do piloto. ― De qualquer forma, devemos ter alguns minutos a sós antes que ele nos alcance… ― Ele virou-se pra mim e me encarou. De novo senti as profundezas que aqueles olhos traziam, e pensei no que diabos era essa sensação, mas dessa vez estava diferente. Pelo menos o semblante dele não exibia a feição arrogante e intimidante de antes. Estava mais para uma aparência resignada e cansada.

― O que…. que… ― Senti de novo que não poderia deixar de sustentar o olhar e tive que me esforçar para terminar a pergunta ― o que quer de mim?

― Apenas que olhe uma coisa… se nada acontecer… bom, então não vou querer mais nada… ― disse ele pegando uma caixinha que lembrava um relicário preso a uma corrente delicada e dourada.

Então três coisas aconteceram em um único instante: Marco abriu o relicário e uma intensa luz azul brilhou de dentro dele; Henry apareceu VOANDO ao lado janela do passageiro e com um soco arrebentou uma janela resistente a impactos de meteoritos; e por último: o frio. Frio que talvez nem locais de neve poderiam ter pior. Logo em seguida, a luz havia sumido, e eu fui arrancada da nave por Siever e pude ver a nave se distanciando (ou nós nos distanciando da nave enquanto despencamos) e aquele frio esmagador crescia cada vez mais pelo resto de meu corpo.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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