DCC – Capítulo 59 – 3Lobos

DCC – Capítulo 59

Planos

 

Dominik Siever:


— Eu não quero mais saber dessa conversa! — Taxei cansadamente depois de ouvir os pedidos de Petra e Emil. — Não há sentido em tentar separar os dois. Sendo uma Brard, a vida dela não passa de um sopro. Duvido que ela sequer chegue ao próximo século.

— Mas ela esconde alguma coisa, pai! — Emil continuou a argumentar. — Eu não conseguir entrar na mente dela é uma coisa, mas o senhor?

— Eu estava pronto para expulsar Henry, tanto quanto vocês, quando soube que ele voltou, e ainda por cima com uma Brard, — repeti pela centésima vez. — Mas mesmo eu não consegui entrar na mente de Henry naquele momento. Eu só pude sentir orgulho. Ele deve ter treinado, e treinado a menina onde quer que ele esteve durante esses anos que desapareceu, querendo redimir sua falha em nos abandonar. Devo dizer que ele está muito acima de mim neste momento. Como posso expulsá-la, sabendo que ele pode se tornar uma luz para nossa casa? Isso apenas compraria rancor desnecessário.

— Você acha mesmo que ele ficaria, Dominik? — Petra perguntou, olhando para o lado de fora da propriedade por uma janela. — Ele veio exclusivamente pedir uma carta de recomendação para a menina. Acha mesmo que ele ficaria? — Ela enfatizou bem a pergunta.

É claro que eu não achava. Mas não haveria lucro nenhum em separar aqueles dois. Uma guerra desnecessária. Eventualmente ela morreria, ou pior: envelheceria. O que viesse primeiro. E se ficássemos do lado dele, ele ficaria do nosso. Ao menos ela parecia ter um talento excelente. Uma pena que desperdiçado em uma vida tão passageira.

— Henry sempre foi leal aos leais. Essa era a moral dele, então ele ficará do nosso lado eventualmente, desde que não façamos nada contra ele.

— Mas não precisamos dele aqui! — Emil birrou.

Eu suspirei, resignado. Emil não tinha nenhum talento espetacular, mas era esforçado. Quando mais jovens, os dois eram imprestáveis e tinham sonhos ridículos de aprender coisas diferentes, viajar, conhecer lugares e pessoas, e não ficar para para cuidar de nossa casa. Essa seria a função de Henry. Ele era fantástico desde cedo, mas muito preguiçoso. Não… Essa não era a palavra certa… Ele não tinha era o menor interesse em magia, essa era a verdade. Ele abandonou a família para perseguir sonhos, e nós o abandonamos em contrapartida. Emil teria feito o mesmo se não tivéssemos o interceptado e feito com que ele abandonasse aquela vida e voltasse para Nefrandir para nunca mais sair. Não podíamos correr o risco de perder nosso posto como uma das maiores famílias mágicas do Império.

Agora não era o momento de ser impulsivo. Agora era o momento de ser estratégico. E a posição de Henry era extremamente estratégica. Desde que aquela menina não fosse realmente um problema, então não havia necessidade de criar problemas sobre ela. Afinal, todos gostam de criar bichinhos de estimação. E se ela tivesse realmente algum talento, tanto melhor. Não haveria porquê não tratá-la bem.

Petra Siever:


E pensar que meu marido iria se dar ao trabalho de livrar nosso jardim de ervas daninhas. Como se eu não soubesse que ele gostava de passear pelas Brards que encontrava no caminho quando saía para trabalhar em outros Sistemas.

Que seja. Henry já passava dos dois séculos e meio de idade. Era tempo suficiente para ele ter conhecido e aproveitado o que quisesse nessa galáxia. Mesmo que levasse apenas mais dez ou cinquenta anos, a presença daquela coisa com certeza não era boa para nossa reputação.

Se ela fosse apenas um brinquedo que ele usasse pra se distrair, tudo bem, mas ele parecia realmente gostar dela. Isso pelo menos ele deixava bem óbvio. Que humilhante. A chegada repentina de Henry havia o transformado em quase um messias para nossa casa, e eu não iria permitir que uma ratinha imunda e inferior interferisse.

— AMELIE! — Chamei, quando estava de volta em meus aposentos.

A garota veio quase instantaneamente. Era uma boa serva. Não mais que isso. Porém ela serviria bem ao trabalho.

Mais cedo, ela havia me passado um relatório completo sobre o que tinha conversado com a ratinha, mas eu precisava de mais.

— Sim, madame?

— Amanhã tire o dia de folga — eu disse. Ela me levantou os olhos e me encarou incrédula, no meio de sua postura submissa. — Quero que convide a acompanhante de Henry para um passeio pela cidade. Faça-a sentir-se em casa.

Ela me olhou chocada por mais um segundo, e concordou prontamente sem questionar. Amelie era uma boa serva. Ela fazia o que era mandada e não precisava de motivos ou explicações. Ela acreditava que o que quer que estivesse fazendo por meu nome, seria o melhor. Não informá-la do meu plano também era estratégico. Henry parecia saber exercer uma arte onisciente bem forte, então quanto menos Amelie soubesse, melhor pra mim. Eu precisava mostrar pra ele os erros de se confiar em pessoas tão insignificantes. Ela era uma boa serva, mas não mais que isso.

Um peão.

Emil Siever:


Aquele traidor… E ainda se dizia meu irmão. Eu não me importava com o que o meu pai dizia. Não me importava se minha mãe eventualmente fosse contra. Henry merecia ser castigado. E eu tinha que atingi-lo em algum lugar que doesse. Eu tinha que respirar fundo. Tinha que esquecer essa ideia e bloquear minha mente. Ninguém poderia desconfiar de nada. Eu iria tirar dele tudo o que ele havia tirado de mim, começando pela bonequinha dele.

Alésia Latrell:


A vantagem de ser uma Brard, com poderes ou não, no mundo dos Jomons, era essa forma louca de perceber o tempo. Dias para eles não eram nada. Mas uma noite imperial… ah… isso era quase o tempo de um dia inteiro no meu planeta natal. E um dia pra mim, ainda era um dia.

Quando amanhecesse, Henry provavelmente iria querer me levar embora. Mas eu não sairia daqui sem a carta de recomendação. E pra isso, eu precisava mascarar o fato de que eu era uma obliterante. Nunca tinha me ocorrido que controlar as memórias e a mente fosse algo ilegal, mas se levasse em consideração que aquele era um mundo onde não deviam existir segredos, e também que a possibilidade de adulterar a mente de terceiros era aterrorizante, então era compreensivo.

— Sabe, Henry, eu não joguei fora o tempo que estive presa na Lua Laplantine.  — Henry prendeu a respiração, surpreso por eu tomar a iniciativa de falar sobre isso. — Eu aprendi uma ou duas coisas bem interessantes, sobre como usar a Sabedoria. A Relíquia da Sabedoria é precisamente uma representação da gravidade. A gravidade mais elementar que atrai todas as coisas, toda a matéria e, eventualmente, todo o conhecimento. Eu estudei muito sobre as relíquias, e descobri coisas bem interessantes, além daquilo que você já tinha me dito. Como dominar um pouco o que a Sabedoria pode me oferecer…

— Não tem muito uso em saber dominar a Sabedoria se o conhecimento não é seu. Isso seria o mesmo que estar em uma biblioteca e não ler nenhum livro. — Henry contra-argumentou.

— Isso não vem necessariamente ao caso! — eu o cortei. — Tente me acompanhar: todas as coisas exercem uma reação gravitacional apenas por existirem. Assim também funcionava o conhecimento que essa Relíquia acumulava. O conhecimento também era uma espécie de força de atração que tendia a unir tudo.

— Certo, o que que tem?

— Uma das coisas que eu aprendi nesse tempo é que a alma é uma coisa que agrega. E eu tenho um certo “acesso” ao conhecimento que minha alma já teve. Aquelas memórias incômodas que eu às vezes tinha de Nádia são uma prova disso. Tudo o que eu preciso fazer é atrair para fora da minha alma tudo o que eu já tenha aprendido em vidas passadas sobre a Onisciência.

Ele me olhou como se estivesse me avaliando. Henry refletiu um pouco sobre o que eu disse e enfim respondeu:

— Se isso for mesmo possível, é apenas uma solução paliativa.

— Claro que é paliativa! Eu estaria fazendo justamente isso… entrando em uma biblioteca e dizendo o que tem escrito nos livros, sem sequer abri-los. Seria mais como se eu pudesse usar um Link para ter acesso ao acervo e aos resumos de cada um desses livros.

— E o que pretende com isso?

— É simples. Eu poderia provisoriamente exercer algum poder onisciente superior ao do seu pai, sem necessariamente saber onisciência, e camuflar o fato de que eu sou uma obliterante.

— Isso é muito arriscado… — ele disse, claramente discordando do plano.

— É por isso que podemos passar a noite treinando pra que eu esteja pronta antes de amanhã.

— Em tão pouco tempo? — ele perguntou ainda relutante.

— A primeira vez que eu fiz isso, fiz em questão de minutos, no susto. Enquanto encarava autômatos de combate que queriam me matar. — Henry ficou sério, como se eu tivesse dito isso apenas para fazê-lo sofrer. — Olhe… não custa tentar! Podemos treinar o que for possível, e se até a hora de sair, você achar que eu não dou conta, então desistimos e vamos embora, o que acha?

— Isso é razoável, — ele disse, suspirando um pouco mais calmo.

Então, ele se aproximou e me abraçou com força, me erguendo do chão. Eu era muito baixinha comparada a ele, então me senti como uma criança sendo pega no colo.

— Só me prometa que se você achar que alguém suspeita de algo, você vai desistir e vamos partir imediatamente, ok?

— Ok…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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